Liminal

Não às coordenadas propostas: cada um de uma vez!

Por Fabricio Duque

Durante o Festival Ecrã 2021

Em filmes experimentais, o conceito é essencialmente subjetivo, ao público que o consome e, em especial, pelos realizadores que traduzem seus mais particulares argumentos em pretensões criativas. Em “Liminal”, integrante da edição online do Festival Ecrã 2021, essa experiência imagética é potencializada por se apresentar em segmentos de quatro curtas-metragens (organizada por uma comissão da Ficunam – Festival Internacional de Cinema da UNAM, da Cidade do México), distintos e independentes entre si, sem nenhuma unidade narrativa, ainda que se interliguem por indicativos na tela (que mais parece ser coordenadas de algo indecifrável) e por buscar “afinidades poéticas entre o cinema e a música”.

A palavra título, um adjetivo técnico, define-se como uma transição. Um estágio inicial de um processo. Um limite. Um liminar. Os diretores Philipe Grandrieux, Manuela de Laborde, Lav Diaz e Óscar Henriquez, de três países, México, França e Filipinas, querem em “Liminal” uma transgressão do própria olhar. Retirar o espectador de sua zona de conforto e o mergulhar em uma radical experiência sensorial, de catarse corpórea.

O primeiro segmento “Luz Luz”, do francês Philipe Grandrieux, traz a metáfora da racionalidade (a narração fluxo de pensamento) versus epifania (a perda da realidade). A escuridão do pensar. E a expansão iluminada de se permitir o transe. De se sair de si. De se confrontar com as neuroses. De se passear pela caverna sendo “dirigida” pela própria loucura, à moda atmosférica de um romance de Ernest Hemingway. É o início. A saga Eldorado de se encontrar a luz, esta condicionada pelo o que achamos ser, que é um estado coordenado (“Ligue a luz, corte a luz”). Nós somos testados a vivenciar junto essa estranha terapia psicossomática de entrega, mais para uma possessão existencialista de reencontrar a luz apagada pelo lado de fora.

O segundo segmento “Açúcar, Saliva e Sabor”, da mexicana Manuela de Laborde, potencializa (e eleva à quinta potência o conceito) neste sua pesquisa “para localizar e isolar os conceitos que são acumulados em torno de itens tangíveis”. Nós adentramos em imagens ultra-expostas (indecifrável) e trepidantes (deturpadas por uma interferência entre sintonias), como se fossem uma lente de aumento zoom de um universo digital, entre músicas intermitentes, plano sequência de uma imagem e alguém cortando um papel. Sim, obras experimentais têm isso: a cumplicidade subjetiva de seu receptor. O visível transmuta-se na forma deletéria do invisível. O que vemos é a mais pretensioso e radical propósito de seu criador, aqui, uma criadora.

No terceiro segmento “O Mundo é Frio”, seu realizador, o já conhecido Lav Diaz (leia aqui nosso Especial sobre o diretor), famoso por seus filmes de longuíssima duração, surpreende por contar uma história em curto tempo. Este, mais narrativo dos dois primeiros, apresenta-se pelo cotidiano. De observação mais silenciosa, que encontra a intimidade de uma família (que come, lê, estuda, fica no computador, toca violão e canta – com a caixa do “The Beatles”) e a rua “habitada” por andantes seres, frutos do acaso social (que “interpretam” outros para sobreviver `a realidade, com a sombra de um McDonalds ao fundo). Lav reitera suas características. Usa o preto-e-branco e a câmera participativa de cinema direto, entre transes e sequência de imagens (que querem sinalizar fotos em movimento). Tudo aqui quer a alusão. A conexão entre extremos e trópicos, especialmente, por exemplo, quando a criança canta “Dentro da sua cabeça, alguém grita, tudo gira, o mundo queima”.   

O quarto e último segmento “Lady Lazaro”, do mexicano Óscar Énriquez, constrói uma narrativa mais clássica do início ao fim. Seu propósito-conceito dita ritmo e cadência ao evocar (e readaptar livremente) o livro “Lady Lazarus” (que virou curta-metragem em 1991 por Sandra Lahire),  poema escrito por Sylvia Plath, em 1965 (dois anos depois de seu suicídio). Aqui, a música é a verdadeira protagonista, porque fornece, literalmente vida à obra. O filme, o mais transgressor dos quatro, abre com a cena de uma vagina em close de uma morta em uma plantação (deduz-se que foi estupro). O que poderia soar oportunismo criativo é imediatamente descartado pela condução que se segue. Uma atriz, antes de um teste, a encontra, a lava e canta para ela, dando solidariedade, humanidade e respeito. Esta é a melhor metáfora do novo mundo, que, aqui, transcende a luta  feminista, e que apela pela volta da bondade de ajudar sem olhar a quem.

Assim, “Liminal” é um recorte de diferenciados segmentos e temas. Na sinopse-defesa indicativa está que os cineastas buscam “diferenças estéticas e geracionais, explorando essa relação por meio de quatro histórias distintas quanto ao contexto e ao imaginário.” Nós espectadores podemos (e talvez devêssemos mesmo) transgredir a transgressão os separando e os assistindo individualmente, libertos da “pressão” protocolar “curadoria” da organização. Mas se optarmos pelo conjunto, a nota de um atrapalhará o outro, visto que estaremos cometendo um grave erro em compará-los.

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