Limiar

Casa de ferreiro, espeto de pau

Por Fabricio Duque

Première Brasil 2020

Cada vez cineastas utilizam mais o documentário como um processo de entendimento de suas próprias vidas, expondo suas dúvidas existencialistas para a câmera, em uma compartilhada terapia em grupo, com o objetivo de encontrar respostas. Não é nem um pouco fácil toda essa abertura, que cava verdades, confrontos, mais perguntas e um desafiador desmascaramento de hipocrisias adormecidas. É o caso do filme em questão aqui, “Limiar”, sobre uma mãe que busca base nas vivências geracionais de sua mãe (que por sua vez abriga referências de “Maíra”, livro Darcy Ribeiro) a fim de entender a transexualidade da filha. A narrativa potencializa a organicidade da intimidade, incorporando o elemento caseiro como protagonismo determinante das mudanças. Exibido na edição especial da Première Brasil 2020 do Festival do Rio, “Limiar” comporta-se como um pessoal e autobiográfico estudo sobre a ressignificação dos rótulos, definições pré-estabelecidas, cultivadas pela sociedade, meio este de retroalimentado convívio necessário. O documentário emerge análises combinatórias de comportamentos e identificações. As imagens caseiras de arquivo (que personificam as lembranças da infância e da adolescência – o banho do bebê, a amamentação), complementadas por relatos-memórias afetivas, fornecem tom, ritmo e cadência, especialmente por incluir os bastidores do também processo do filme, como as experiências com ângulos e câmeras passadas. Aqui, tudo é sobre a filha Violeta-Andy-Noah, mas também é tudo sobre a mãe, a própria diretora Coraci Ruiz, que acompanhou a a transição de gênero de sua filha adolescente.

“Limiar”, construído em diálogo com a tese de doutorado no Programa de Pós-graduação em Multimeios da Unicamp, traz um olhar. Uma perspectiva de buscar porquês lógicos para embasar uma aceitação, que se desenvolve principalmente por uma narração sentimental de evocar as emoções, muitas concebidas à luz das regras do imaginário conservador e limitado das pessoas. A mãe-realizadora entra constantemente em contradição com o que acredita, com o que luta, com a livre criação e com o próprio conceito de liberdade. Ao se “sentir perdida”, achou que “filmar seria a melhor maneira de traduzir o que estava acontecendo”. Sim, toda a ideia padronizada de ser uma coisa ou outra “caiu por terra”. Essa novíssima geração do agora não só “quebra as barreiras”, mas “coloca fogo no parquinho”. São tantos gêneros, subgêneros, infinitas possibilidades de ser e de existir que o que se achava que sabia foi substituído por um fluxo contínuo de aprendizagem. As “meninas com rosa” e “meninos com azul” do antes ganhou plena e confusa complexidade do agora, estimulando o primário juízo de valor de “O que é define um ser como mulher?”. Violeta-Andy-Noah explica o que cada coisa é: genitália (apenas uma “parte do corpo”) é diferente de gênero (“está na cabeça”), que é diferente de orientação sexual (“está no coração”), que é diferente de expressão.

O longa-metragem busca ressignificar pontes, à luz da contemporaneidade, consubstanciadas em depoimentos familiares, paralelos com o passado da mãe politizada, que foi para Israel, viveu o amor livre hippie (tendo sua filha – a diretora – em uma dessas comunidades) e depois encontrou na USP a “a turma da galera do cinema” para “transformar o jeito de viver além da política”. ”A geração dela (a filha) se beneficiou muito das fronteiras que nós rompemos”, diz. A filha, e seu olhar perspectiva, traz dúvidas. Será que “acabou inventando uma memória”? Toda a luta é conduzida por protestos. Do antes, pela mãe. Dela, no “espírito irônico” da “Marcha das Vadias” por causa do “feminismo em ebulição”. E da filha, com novos temas identitários.  Como já foi dito, tudo o que era quase entendido antes, hoje se pulula de rótulos dentro de rótulos para desconstruir rótulos. Sim, não é simples explicar a gerações antigas, especialmente a sua mãe, que “teve muitas dúvidas na vida, mas nunca se questionou por que era mulher”.

Entre Simone de Beauvoir (“Formalizar o casamento era burocratizar o amor”), tradições judaicas de quebrar o copo, revelações bissexuais, “Limiar” é um estudo imersivo. Um trabalho de campo. Uma temporal experiência de documentar o ouvir, o falar e o processar. Se partimos da ideia, quase factual, de que liberdade é apenas um conceito “da boca para fora” (como uma esperançosa crença “Eldorado” de acalentar a alma em turbulências), então ao se definir algo, este se limita e sem poder expandir, morre). O filme nos leva mais à conclusão de que, sim, “o ser humano é nosso inferno”. Nosso aliciador. Nosso sequestrador. Nosso carcereiro. Mas é utópico crer também que podemos nos libertar disso tudo. Não, porque essa sociedade mantém a ordem conservadora do passado. Um padrão. Uma fórmula a ser seguida. A “oposição” aparece em forma de “pitaco” e “hater”. Não querer seguir uma regra é quase impossível. Para aqueles que desejam “arrombar a porta”, a vida é muito mais difícil. Insurportável, diríamos. É preciso amadurecer rápido. Ser perspicaz em dobro. Defensivo ao extremo. Violeta-Andy-Noah ainda consegue quebrar isso ao se expor pela razão. Não com grito, mas com comprovações científicas. Ainda que sua mãe e avó (“filhas longe das árvores”) “sofram” com o querer “questionador” da lógica (de colocar cada coisa em seu devido lugar), o ser não binário, andrógeno, nascido filha, argumenta com arte, desenhos, atitude e internalização processual do que quer ser no futuro.

“Limiar” é um filme sobre “desapegar do afeto do nome” (e “rituais de despedida” – sempre com o objetivo de formalização) . “Violeta não era só um nome, era uma história”, diz. Essa mesma sociedade (“o maior perigo da Humanidade”) “fofoca” sobre nós. Há uma imposição condicionada e estrutural em “preservar” aparências perante os outros. A avó daqui acha que a neta retirar os seios é uma “mutilação”, mas lá dentro, pensou: “O que os outros acharão disso tudo”. Só que essa nova “geração vira tudo do avesso”, absorvendo espetros e mitigando o oito e oitenta do feminino e masculino. E quando a decisão final chega e bate o martelo, os pais, até então lutadores pela liberdade plena, entram num “dilema” e não querem ter a “responsabilidade” da decisão. Sim, discurso é uma coisa. Ação é outra completamente diferente. A maestria de “Limiar” está na exposição dessa hipocrisia orgânica e humana. Um humanismo pautado. E com cenas pós créditos.

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