Liborio

Estética-arte à serviço da ancestralidade

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Rotterdam 2021

Exibido na mostra competitiva do Festival de Roterdã 2021, “Liborio”, do estreante Nino Martínez Sosa, é uma experiência que conjuga os elementos, de forma notável, do cinema independente de arte com o do comercial. Aqui, há um tempo único, entre a contemplação (e o silêncio) e a ação. É um maduro exercício de linguagem que busca a metáfora bíblica-histórico pelo meio direto e não simplesmente pela inferência de um conceito. E/ou pela filosofia coloquial, da escuridão-caverna à luz. Espíritos e ancestralidades são evocados pelos batuques de músicas africanas, mas sem a caricatura-performance de sua criação. Quer materializar a presença sobrenatural. Um “retorno do céu”. O público adentra em uma versão “Game of Thrones” da República Dominicana. “Acredite! Continue procurando. Dê-me seu diabo”, sussurra-se, entre enterros. No seriado da HBO, menciona acima, em uma das cenas, um personagem pergunta: “Sabe o que se deve dizer à morte? Hoje não.”

“Liborio” conduz-se por uma realista atmosfera fabular. Uma conto de terror social, mais à moda dos Irmãos Grimm, sobre a sobrevivência diária em uma terra hostil, violenta, sangrenta e desumana. De um curandeiro “mestre” (um novo Santo-Cristo) que “afronta” a Igreja com seus “milagres”. De brancos que querem escravos negros e não respeitam os limites dos quilombos. Nosso protagonista, Olivorio (‘Liborio’) Mateo, desestrutura o “ordem” do lugar. A narrativa do filme constrói uma aragem sensorial, naturalista, orgânica-corporal e altamente sexualizada. Como se nós fossemos avatares viajantes a um tempo congelado e convidados sentir a experiência. “A morte nos mostra que estamos vivos”, diz-se.

O longa-metragem foi considerado pelo Vertentes do Cinema como o melhor filme da seleção ao prêmio Tigre de Ouro. “Liborio” é também sobre a luta de uma terra melhor, que consequentemente traz a paz. Contudo, é quase inquestionável afirmar que ninguém sai imune desse processo. Ideias, crenças e esperanças transmutam-se e, muitas vezes, perdem o pragmatismo da lógica. Ao amar e “acreditar” demais na positividade-vitória do resultado, aproxima-se da loucura e sua instabilidade psico-emocional, gerando assim um poder indestrutível que apaga o medo. E quando isso acontece, não há mais parâmetros de comparação.

De um fazendeiro pobre à revolta “insolência”. A trama, ambientada nos primeiros anos de 1900, “retorna” um ser desaparecido, um messias que inspira a liberdade. “Liborio” apresenta-se como um filme-ritual. Um resgate-reconstituição da memória cultural, identitária e coletiva de um povo, que ainda mantém o “Liborismo” vivo e pulsante. É uma forma de reconexão para que o presente não desapareça com o passado. Sim, muitos filmes podem ser referenciados. Do brasileiro “S. Bernardo”, de Leon Hirszman, ao mais recente “Isso Não É um Enterro, É uma Ressurreição”, de Lemohang Jeremiah Mosese, da África do Sul, exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo 2020. “Liborio” não tem vergonha em pincelar-importar estruturas de longas-metragens para assim costurar e bordar um filme único. Que pode servir de aula a todas as obras brasileiras que buscam a forma etérea do sobrenatural.

Trailer

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