Crítica: Leo e Bia

Por Fabricio Duque

Ficha Técnica

Direção: Oswaldo Montenegro
Roteiro: Oswaldo Montenegro
Elenco: Paloma Duarte, Françoise Forton, Emilio Dantas, Fernanda Nobre, Pedro Nercessian
Fotografia: André Horta
Figurino: César Dante e Carolina Li
Edição e Montagem: Pedro Gracindo
Assistente De Direção: Madalena Salles E Paula Horta
Trilha Sonora: Oswaldo Montenegro
Produção Executiva: Paloma Duarte e Daniela Gracindo
Distribuição: Copacabana Filmes E Produções
Duração: 97 minutos
País: Brasil
Ano: 2010
COTAÇÃO: MUITO BOM

A opinião

“Léo e Bia” é uma homenagem ao teatro e a Brasília (capital do Brasil). O longa metragem, estreia na direção do músico Oswaldo Montenegro, baseia-se no álbum de 1983, musical homônimo dos anos 80 e que atraiu para os teatros mais 500 mil espectadores, e aborda um grupo de jovens (com seus 18 anos) atores. Eles respiram a arte de interpretar. “Ser artista 24 horas por dia”, diz-se. O teatro entra em suas vidas quando estão tristes, alegres, desesperados. É uma forma de terapia. Expurgam aflições, medos, anseios, vivencias pessoais pelos exercícios que são determinados por um diretor. As histórias de suas vidas misturam-se as do teatro, revelando assim que a vida é um eterno jogo de máscaras. O filme acontece em um galpão, em Brasília. Lá, esses atores descobrem que não precisam sair para crescer profissional e ou culturalmente. No auge da ditadura militar, sete amigos, jovens como a cidade em que moram, sonham viver de teatro. Liderado pelo diretor Léo (Emílio Dantas), o grupo leva adiante os ensaios de uma peça que tece comparações entre Jesus Cristo e o cangaceiro Lampião. Enquanto a repressão política rola solta na capital federal e a liberdade sexual ainda é tabu, Bia (Fernanda Nobre) se mostra cada vez mais prisioneira da obsessão de sua mãe (Françoise Forton – excelente), fazendo com que todos questionem, cada vez mais, os conceitos e valores da sociedade. O grupo torna-se uma família. Trocam confidências e todos se ajudam, como uma sessão psicanalítica. O roteiro ambienta o presente que representa o ano de 1973.

Época de ditadura militar e final da era hippie. Os personagens comportam-se como burgueses (por desejarem o conforto de artefatos materiais), porém os seus discursos contrastam com o que querem. Os diálogos são de andorinhas que desejam fazer verão mas estão sozinhos. Assim, soam degastados, datados, clichês, repetitivos e ingênuos. Essa ingenuidade é o que faz o filme ser o que é, porque conserva a atmosfera nostálgica das ideias do passado. Montenegro experimenta a linguagem cinematográfica quando limita o espaço trabalhado, inserindo uma estética diferenciada. As cenas do galpão lembram “Dogville”, de Lars Von Trier. A diferença é que o elemento teatro participa apenas como metalinguagem para o que está realmente no interior sentimental de seus personagens. “A insanidade é um descuido de Deus”, diz-se entre inúmeras frases de efeito. Traspassam-se à tela características inerentes a essa idade. São impulsivos, sonhadores, estão descobrindo o novo – e o medos, determinados, puros – e virgens – nos quereres, revolucionários – com ressalvas, transgressores – com limitações, libertinos, repetidores de discursos massificados, simplistas, simplórios, agitados, dramáticos, defensivos, tudo é captado, com sinestesia, pelo espectador. A narrativa trabalha inúmeras tramas paralelas que se conectam por meio do teatro. Há a filha que é dominada por uma mãe autoritária, cruel, sádica e “estranha”. Há a gravidez impensada de uma jovem imatura. Há a amiga (Marina – Paloma Duarte – que é baseada em Madalena Salles, amiga e parceira de longa data de Oswaldo Montenegro em sua produções) apaixonada pelo melhor amigo. Há o homossexual. Há o Encrenca, nome escolhido por causa dos discursos realistas e radicais, contrários ao senso comum.

E há música, que funciona como um elemento temporal e ou por exemplificar o sofrimento e ou alegria. Eles são o que são por vivenciar o meio em que se encontram. Brasília, criticada no início como “prisão a céu aberto” – de Clarice Lispector, transforma-se na base estrutural de suas vidas. Os discursos políticos e existencialistas buscam o humor natural e cotidiano, para que com isso, possa deixar leve a forma com que se conta a história. O amadorismo, como um ensaio de teatro, é proposital e mitiga a prepotência. O espectador sente uma experiência única, embarcando na vida dos personagens, questionando-se sobre a própria vida e impulsionando um desejo latente de fazer teatro também. “França: Edith Piaf e Sartre”, “Brasil: Xangô com Cristo”, embate-se, saudavelmente, sobre bairrismos e nacionalidades. Concluindo, é um filme que merece ser visto e revisto por despertar, de forma ingênua, uma época datada de uma forma tão moderna e atual. Os atores estão entregues a seus personagens, por isso a excelência e competência. As questões pessoais dos jovens continuam as mesmas. A política também. Tudo sempre será o que já é. O longa foi filmado em 10 dias, mais cinco meses para os movimentos de camera, produzido inteiramente com recursos próprios e sem patrocínio. Ganhador do Cine PE (Festival do Audiovisual), de Pernambuco: Melhor Atriz (Paloma Duarte) e Melhor Trilha Sonora (Oswaldo Montenegro).


Texto falado pela personagem Marina, no avião, quando deixou Brasília, com os amigos, para tentar a carreira no Rio de Janeiro

Quando a gente viu Brasília lá em baixo, eu comecei a achar que era mais do que tudo aquela possibilidade de vôo.
Eu sentia a dor que o Léo tava sentindo, mas era inevitável achar tudo pequeno. Era céu demais! Era demais!
Eu amava o Léo. Ele sabia disso. Bia, todo mundo sabia.
Eu amava a possibilidade do novo.
O Rio me assustava. Eu tinha um medo tão grande. Mas até ter medo era novo.
A gente tinha um tédio lindo, porque era tédio de tudo.
E aí, eu percebi que seria diretora e protagonista do filme da minha vida. E que nós faríamos esse roteiro. E eu não ia permitir que nenhum patrocinador influísse. Não ia mesmo!
Começou o nosso filme! E ele não é bom nem mal. É o nosso filme!
Mesmo que doa, é o nosso filme! E daí por diante nós conduziríamos o barco. E para mim, o caminho era mais lindo que o barco. E muito mais lindo do que qualquer lugar para onde pudesse ir.
Valeu Brasília, já fomos!


O Diretor

Oswaldo Viveiros Montenegro nasceu no Rio de Janeiro, 15 de março de 1956. É músico e, agora, cineasta. Além de cantor, compõe trilhas sonoras para peças teatrais, balés, cinema e televisão e foi casado com a atriz Paloma Duarte. Tem uma das parcerias mais sólidas da MPB ao lado de Madalena Salles, que o acompanha com suas flautas.

A decisão de se tornar um músico profissional veio com a mudança para Brasília, em 1971. Na capital federal, começou a ter contato com festivais e grupos de teatro e de dança estudantis. Fez seus primeiros shows e aos 17 anos a decisão de viver da música se tornou definitiva. Mudou-se novamente para o Rio, mas já havia adotado Brasília como a terra de seu coração e tema constante de sua obra. Também seus parceiros preferidos foram amigos que fez ali, como José Alexandre, Mongol e Madalena Salles, entre outros. São mais de 14 peças musicais, todas recorde de público e algumas, como Noturno”, “A Dança dos Signos” e “Aldeia dos Ventos, estão em cartaz há mais de 15 anos e com montagens por todo o país.

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