Mostra LC Barreto de Curtas 2026

La Belle Année

Fragmentos e reinterpretações

Por Vitor Velloso

Assistido online no Festival de Roterdã 2026

La Belle Année

Alguns projetos são difíceis de categorizar dentro de um único prisma cinematográfico, seja por uma múltipla associação de estilos, formas e características, seja por experimentações feitas dentro de uma lógica particular de sua estrutura. “La Belle Année”, de Angélica Ruffier, é um projeto bastante peculiar nesse sentido, pois se articula enquanto uma autobiografia que não pretende apenas contar a história de uma paixão na época da adolescência, mas se debruçar sobre os sentimentos de anotações “antigas”, a forma da escrita, as diferentes sensações daquele contexto e um registro que transita organicamente entre o banal e o performático.

O interessante aqui é a forma como esse arquivo-memória se transforma em criação, em proposta estética anos depois, com uma base dramatizada e performática desse documento que atravessa o tempo e é relido e reinterpretado à luz de uma maior maturidade. Assim, “La Belle Année” se modifica constantemente: ora como um documentário padrão, ora como ensaio, ora como drama. É nesse jogo performático, de mutações e transformações, que a articulação do projeto ganha força, enquanto constante movimento e fluidez. Porém, é nesse vai e vem que se abre margem para que o espectador se distancie do longa, pois sua proposital disritmia torna-se cansativa com o passar do tempo, com uma série de planos bonitos, mas que carregam um referencial europeu clássico que vai se saturando ao longo da projeção.

Ainda que a fotografia, assinada por Simon Averin Markström, tenha ótimos momentos, alternando entre uma abordagem mais rigorosa e um estilo distinto com a câmera na mão, é como se uma certa sombra consensual pairasse sobre essas diferentes formas de projeção, sem um distanciamento entre as partes. É como se houvesse uma necessidade de reafirmar constantemente as referências que já estão sendo expostas na tela.

Não por acaso, é possível enxergar, de Rohmer a Harry Kümel — especificamente em “Escravas do Desejo” (1971) — de forma mais aguda. Dessa forma, “La Belle Année” se desenha como uma saudosa maneira de homenagear o cinema e consegue, por meio da oralidade, transmitir uma interessante perspectiva dessas sensações e sentimentos que vão se modificando com essa maturidade inevitável. A montagem, assinada por Anna Eborn, embaralha um pouco essas “cartas”, na intenção de transformar esse “arquivo-memória” em algo que possua tração própria. Funciona parcialmente, já que as “barrigas” provocadas no ritmo e no andamento da produção são visíveis.

Há, contudo, um elemento estruturante que atravessa silenciosamente o projeto: a morte do pai, ponto de partida que desencadeia esse movimento de retorno e reorganização do passado. O luto não é tratado como ápice dramático ou explosão catártica, mas como um estado ambíguo, difuso, que comporta tanto a dor quanto uma espécie de libertação tardia. É a partir desse acontecimento que o gesto de revisitar cadernos, cartas e registros audiovisuais ganha outra espessura, menos nostálgica e mais concreta, como se a necessidade de ordenar os vestígios materiais fosse também uma tentativa de reconfigurar internamente aquilo que permanece em aberto.

A casa herdada, nesse sentido, não opera apenas como cenário, mas como dispositivo físico dessa memória em trânsito. O esvaziamento dos cômodos, o manuseio de objetos acumulados, a redescoberta de fitas e papéis deslocam o filme para uma dimensão tátil, em que a memória se manifesta enquanto matéria. Não se trata apenas de recordar, mas de tocar, abrir, folhear, escutar novamente. Esse processo ancora a fluidez ensaística da obra em um espaço concreto, dando peso a um percurso que poderia facilmente se dissolver na abstração performática.

Além disso, a presença do irmão estabelece um eixo afetivo que tensiona e, ao mesmo tempo, estabiliza o conjunto. A cumplicidade entre ambos, atravessada por uma identidade dividida entre França e Suécia, inscreve no filme uma dimensão relacional que impede que o gesto autobiográfico se feche sobre si mesmo. Paralelamente, o passado familiar é sugerido menos por confrontos diretos e mais por uma atmosfera de instabilidade que permeia as entrelinhas do relato. Ao optar por essa contenção, Ruffier evita a dramatização excessiva e reforça a ideia de que certas marcas não se impõem por espetacularidade, mas por permanência — como um ruído de fundo que continua a reverberar mesmo quando a imagem parece tranquila.

Ainda assim, “La Belle Année” carece de algo mais sólido para seu ritmo e densidade estética, mesmo que essa pareça estar presente.

3 Nota do Crítico 5 1

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