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Kurt Vonnegut: Desprendido do Tempo

So it goes

Por Bernardo Castro

Durante o É Tudo Verdade 2022

Kurt Vonnegut: Desprendido do Tempo

“But things were much better now. He had a pleasant little apartment, and his daughter was getting an excellent education. His mother was incinerated in the Dresden restorm. So it goes.” (“Mas as coisas estavam muito melhores agora. Ele tinha um pequeno apartamento agradável, e sua filha estava recebendo uma excelente educação. Sua mãe foi incinerada na nova tempestade de Dresden. Assim vai.”), em Matadouro 5 (Slaughterhouse-Five), de Kurt Vonnegut.

Depois de passar décadas armazenado, ainda como um rascunho disforme, o público finalmente é agraciado com o lançamento de “Kurt Vonnegut: Desprendido do Tempo”. Dirigido por Robert B. Weide, nome conhecido pelos fãs de Larry David por aparecer nos créditos de “Curb Your Enthusiasm”, o documentário conta a história deste ser de pujante extravagância – ou, se preferirem, extravagante excentricidade. Sendo um dos mais influentes escritores da segunda metade do século passado nos Estados Unidos, Kurt Vonnegut moldou as mentes de inúmeros jovens, revoltados com a opressão do governo, o teatro do horror e os injustificáveis conflitos da Guerra Fria. Assim como outro Kurt, Vonnegut foi um ícone iconoclasta e revolucionário da contracultura dos anos 60 e 70. Ele ficou conhecido pelo seu estilo lacônico e direto, rico em sátiras e críticas pontuais a sociedade – provavelmente, ele odiaria ler essa crítica cheia de palavras pomposas e exageros gramaticais.

O rompimento da fria distância entre sujeito e documentarista é quebrado. Porém, ao contrário do que pode ser intuído, o ato de se rebelar contra o princípio do cinema documental – tendo tal ato alicerce na própria filosofia vonnegutiana – cria laços com o espectador e o imerge na história contada e se torna um dos aspectos mais fascinantes da obra. Assim, a cadência é diluída e as duas horas de duração são regidas em uma velocidade palatável. Como amigo íntimo, Robert Weide decide partir para uma abordagem pouco ortodoxa. Ele entrelaça uma série de depoimentos seus e relatos próprios com a vida de Kurt, deixando de ser o demiurgo por trás da câmera intransponível para um fã e grande admirador, facilitando a relação com quem está assistindo. No entanto, em alguns momentos, ele se excede e os relatos pessoais começam a interferir em demasia, passando o foco do documentário para o próprio diretor.

“Kurt Vonnegut: Desprendido do Tempo” não escapa à aparente tendência dos documentários modernos. Todo processo de confecção, desde a montagem até a gravação de locuções em off, é explicitado ao longo do filme. A estratégia tem a intenção de ser o fio condutor entre as gravações e garantir a consistência da narrativa documental.

É um mergulho profundo na pessoa por trás do mito. Suas origens, a relação com os pais e com a família no geral e não deixa de frisar o impacto que a Segunda Guerra Mundial teve em seu ser. Entende-se o caráter primordial de sua escrita: a necessidade dele de tornar a tragédia irrisória, como um caminho para se desvencilhar do trauma. Outra forma de assimilar os traumas foi a própria escrita e a criação de alter egos, a exemplo de Kilgore Trout e Billy Pilgrim. Tendo falecido no começo da primeira década do milênio, Kurt não só vivenciou, como participou boa parte dos eventos históricos que marcaram o século XX – uma espécie de Forrest Gump da vida real. Observa-se como o horror da Segunda Guerra incrustado na mente do escritor e o horror da invasão ao Iraque atam as duas pontas de sua longa vida. Vendo desta maneira, torna-se mais fácil ainda compreendê-lo.

Como bom estudo de personagem, os responsáveis pela concepção de “Kurt Vonnegut: Desprendido do Tempo” não se escoram na memória afetiva e não hesitam em mostrar a faceta obscura do escritor, que, no âmbito familiar, foi ausente como figura paterna e se divorciou da esposa que o tanto apoiou depois de atingir o tão almejado sucesso. A inconsistência da fotografia também não afeta a história como um todo, sendo justificada pela longa elaboração do produto.

O encerramento, que parece simplório, esconde uma camada de certa forma hermética da narrativa. Genialmente, o diretor cria um arco dramático para si mesmo e usa a produção de “Kurt Vonnegut: Desprendido do Tempo” como maneira de lidar com o luto. A última cena caracteriza o estágio derradeiro do processo: a aceitação. Quando ele escreve no glossário a data de falecimento de seu ente querido, o arco da ‘personagem’ é brilhantemente concluído. Diante disso, vê-se a consequência positiva da introdução da perspectiva do cineasta, que se contenta com o legado e com o tempo que passou ao lado dessa pessoa tão querida que foi Kurt Vonnegut. So it goes. Seleção competitiva internacional do Festival É Tudo Verdade 2022.

4 Nota do Crítico 5 1

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