Judas e o Messias Negro

A performance de uma luta

Por Fabricio Duque

A necessidade das “condições humanas” faz o indivíduo social buscar armas únicas e possíveis contra as injustiças de uma sociedade hostil e violenta, que não encontra limites para expor sua superioridade perante os “diferentes” de um povo “porco”. Assim, os “vulneráveis”, impotentes à força opressora, precisam construir suas próprias vozes, reverberadas por líderes, antes ou depois de Malcolm X e Martin Luther King, estes considerados modernos Messias negros em prol da paz entre raças e cores. Em “Judas e o Messias Negro”, um dos filmes indicados ao Globo de Ouro 2021, conta-se parte da história do movimento “vanguarda” revolucionário Panteras Negras pela perspectiva de vida política e morte de seu presidente, o ativista Fred Hampton (interpretado pelo ator Daniel Kaluuya, de “Corra!”). O cenário de 1968 infelizmente se repete em 2020, explicado pelo ressurgimento do fascismo e de “soberania branca” capitaneada por Donald Trump.

“Judas e o Messias Negro” também busca evocar a atmosfera cinematográfica de Spike Lee em “Infiltrado na Klan”, mas invertendo o argumento. Sim, aos novos cineastas negros, o diretor de “Faça a Coisa Certa” é um ídolo. Um modelo de sucesso que já inclusive se tornou um gênero, como Quentin Tarantino, por exemplo. O realizador, em seu segundo longa-metragem, Shaka King, notoriamente importou elementos de séries listadas em sua carreira. Dessa forma, a narrativa daqui se distancia de Spike para dar lugar à estrutura mais de novela. De edição comercial (cortes rápidos) em diálogos palatáveis, auto-explicativos e discursos de efeito, ora sentimentais demais, ora tentando a naturalidade, mas sempre com a aura de não se rebelar tanto contra o conservadorismo. Só até o limite permitido.

A interpretação aprofundada (de complexidade psicológica) vira performance (de padrão emocional mais ensaiado e técnico), que apenas projeta a ideia, ainda em construção não lapidada. O cineasta soviético Sergei Eisenstein, em “O Sentido do Filme”, define por “autenticidade da esfera da técnica interior do ator”. “É o estado, a sensação, a experiência sentida, em consequência direta em grau máximo de expressividade”. Sim, um ator deve naturalizar seu personagem a ponto dissociá-lo da própria construção. Isso confirma a tese de que o mundo mudou. Ficou mais superficial em sua criação. Há uma pressa, uma urgência em produzir antes e logo. Será que assim ainda é possível criar uma revolução consistente ou só teremos ativismo pelas redes sociais? “Judas e o Messias Negro” nos mostra, e, por incrível que pareça, a edição do Big Brother Brasil 2021, que somente pela educação e pelo conhecimento se consegue deter a ignorância estrutural, retro-alimentada por anos à fio, como propagandas sublimares. “A revolução é apenas uma solução”, diz-se.

Esta é uma história real. De mais uma voz negra abatida pelo sistema. “Judas e o Messias Negro” apresenta a ressignificação da parábola bíblica da traição de Judas a Cristo pelo “selvagem” Bill a Fred. Um infiltrado “irmão” à serviço do Klan (estes que acreditam que o “discurso dos Panteras Negras é o mesmo da KKK”) em uma Chicago do final dos anos sessenta. Que queria “ser” branco a exibir um distintivo do FBI (por “causar mais medo que uma arma”). O roteiro de Shaka King precisa muito da parte técnica. A fotografia, majoritariamente noturna, saturada ao neon, cria a margem e o clandestino. A música pulula jazz raiz com toques africanos. Tudo para manipular a emoção pela catarse, especialmente quando inserir os discursos inflamados (de “um milhão de dólares”) e de efeito, em alta carga dramática a fim de traduzir o “espírito do ativismo”, “ensinar” a diferença entre “revolução e reforma” e lutar contra o “capitalismo que explora o povo”. Como foi dito, a performance. “É a cultura da revolução”, altiva-se.

“Judas e o Messias Negro” intercala o passional e o ingênuo. Imagens de arquivo reais da época e outras reconstituídas com a ficção. Poesia, utopia, luta armada, democracia, socialismo, Declaração de Independência e que “guerra é política sem matança e política é uma guerra sem matança”. Ensinamentos que mudarão as ideias do povo. Um contemporâneo Karl Marx. Quanto mais cultura, melhor o argumento. O filme quer se manter longe do front de batalha. Quer “governar” de dentro, sem “colocar a mão na massa”, apenas ouvindo sútil “(I Can’t Get No) Satisfaction” dos Rolling Stones. A fragilidade do roteiro está em suas escolhas condutoras, seguindo caminho, não se sabe se por preguiça e/ou imaturidade, nos gatilhos comuns, como confrontar de forma óbvia o antagonista aos mesmos lugares de onde tudo começou. Sim, nós entendemos que um filme no patamar do Globo de Ouro pode ajudar a mudar a mentalidade atrasada. Mas acreditar que ao fazer, o mundo se resolverá como um passe de mágicas é inocência.

Spike Lee, em suas obras, inflama, caçoa, faz rir e consegue nossa raiva. Talvez o maior problema deste é se fazer sério demais. Em tom seriado demais. “Selma” e “Detroit em Rebelião” “prenderam” a atenção do espectador pela conjugação de sensações. “Judas e o Messias Negro” compara seus camaradas a “discípulos”, metaforizando até o “café preto e doce”, entre intimidações, “juramentos pelos filhos”, “terroristas”, “muçulmanos”, “mortes revolucionárias”, “sacrifícios”, impulsividade e “12 anos de julgamento” (“o mais longo da História americana”). “Eu sou o povo e não um porco”, finaliza a fala do mártir real a uma entrevista. Na música-tema de “Detroit em Rebelião”, diz-se que “a salvação está no fogo”. Pois é, faltou isso em “Judas e o Messias Negro”.

O elenco também conta com Algee Smith (“O Ódio que Você Semeia,” “Detroit em Rebelião”), Darrell Britt-Gibson (“Luta por Justiça”, “Três Anúncios Para Um Crime”), Dominique Thorne (“Se a Rua Beale Falasse”), Amari Cheatom (“Roman J. Israel, Esq.,” “Django livre”), Caleb Eberhardt (“The Post – A Guerra Secreta”),) e Lil Rel Howery (“Corra!”).

A equipe criativa dos bastidores inclui o diretor de fotografia Sean Bobbitt (“12 Anos de Escravidão”, “Widows”), o designer de produção Sam Lisenco (“Shades of Blue: Segredos Policiais”), o editor Kristan Sprague (“Random Acts of Flyness”) e a figurinista Charlese Antoinette Jones (“Raising Dion”). A música é de Craig Harris e Mark Isham.

Trailer

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *