Jean-Luc Godard

Artigo

Jean-Luc Godard e o cinema na era do vírus

Por João Lanari Bo

Avesso a homenagens e rasgações de seda, Jean-Luc Godard por algum motivo resolveu aceitar que Festival Internacional de Cinema de Kerala, na Índia, lhe carimbasse um lifetime achievement em março passado, com direito a uma conversa virtual de 85 minutos: munido de charuto e celular, trafegou pelas perguntas e falou o que quis, bem humorado e paciente. Para ele, o incontornável vírus que nos assola é uma forma de comunicação, é informação: não sabemos muito sobre ele – talvez alguns cientistas saibam – assim como não sabemos muita coisa do cinema. Na mosca: o vírus é um código genético, logo informação que se transmite, assim como a (codificada) linguagem cinematográfica. “Estou terminando minha vida no cinema – sim, minha vida de cineasta – fazendo dois roteiros”, lançou aos 90 anos, sobre seu plano de se aposentar em um futuro próximo. “Depois, direi: Adeus, cinema”.

Kerala é a província mais ao sul no mapa indiano, a base do cone que conforma esse país que, a exemplo da China, desafia a lógica cartesiana ocidental. Um dos roteiros chama-se, hélas, “Roteiro”; o outro chama-se “Guerras Engraçadas”. Se algum desavisado espera roteiros de manual, esqueça: depois de reiterar sua (des)preocupação com os roteiros, Godard desfilou na tela da live sua versão poético-visual das “Guerras Engraçadas”; junção de palavras e imagens no estilo do seu último longa, “Le livre d’image”, de 2018, que no Brasil recebeu o título de “Imagem e Palavra”. Perguntado sobre a famosa asserção de Giorgio Agamben – contemporâneo é aquele que percebe a sombra de seu tempo como algo que lhe incumbe e que não cessa de interpelá-lo – sorriu, apenas. Quem se recorda do seu curta na virada do milênio, “Dans le noir du temps – “No breu do tempo”, na feliz versão de Mateus Araújo – sabe o que se passou pelos neurônios godardianos. Logo na introdução desse fabuloso poema-filme, poesia em forma de diálogo:

“Porque a noite é escura”? pergunta uma jovem, banhada pela luz intermitente de uma lareira. “Talvez o universo tenha sido jovem como você”, responde o interlocutor, “e o céu todo brilhante”. E completa: “o mundo ficou mais velho; quando olho o céu entre as estrelas, só vejo o que desapareceu”.  As estrelas são pontos de luz que remetem a uma fonte luminosa e brilhante: a razão. O tempo traz a obscuridade, que permeia as existências e transfigura os valores. Os breves e fulgurantes fragmentos escolhidos por Godard costuram a poética desse percurso: imagens de sua lavra, “Viver a Vida”, “Rei Lear”, “Le Petit Soldat” e “Made in USA”; homenagens radiantes, “Evangelho segundo São Mateus” e “Ivan o Terrível”; e registros anônimos de cenas de guerra e campos de concentração.

Frame do Filme “Adeus à Linguagem”

“Quando soube que Orson tinha feito seu primeiro filme aos 25 anos, quis fazer o meu antes dos 25 anos”, revela. Cinema era, a um só tempo, hobby e job: mas também era uma intuição, ou uma doença, a pulsão de captar a realidade, como os Irmãos Lumière queriam. Godard começou no vácuo da 2ª guerra e da libertação, focado na produção: fazer filmes era aprender a olhar o mundo com um olhar técnico-religioso. Hoje, asseverou, talvez mais importante do que a produção seja a distribuição, um serviço de utilidade pública. O percurso godardiano, sete décadas de cinema, é extenso: longas, curtas, manifestos políticos, clipes, cartas abertas, publicidade, programas de TV, película, vídeo ou digital. Grosso modo, são três ciclos: nouvelle vague, filmes dos anos 60 nos quais muita gente se identificou pelo comportamento libertário dos personagens, como “Acossado”, de 1959, e “Viver a vida”, de 1962;  pós-maio de 68, com a radicalização política e o afastamento do circuito comercial, como “Vento do Leste”, de 1969; e a volta ao “sistema de produção burguês”, no final dos 70 até hoje, com uma produção abundante e melancólica, no sentido romântico da palavra, como “Salve-se quem puder (a vida)”, de 1982, e “Para sempre Mozart”, de 1996. Mas, melancólico? Afinal, em plena era da internet, seria Jean-Luc algo como um poeta romântico?

“Romântico” não significa aqui um sujeito passivo, à espera de uma inspiração emotiva. Dirigir e montar, relacionar tempo e espaço, é uma operação mental e quer ser percebida como tal: não é simplesmente reproduzir um fluxo narrativo ameno e confortável para nossos sentidos. Os filmes de Godard interrompem esse fluxo e instauram no espectador lacunas, dúvidas e questões. Nesse preciso momento, cai a internet em Kerala: mastigando o charuto, Godard interroga seu interlocutor, um crítico indiano: você pode elaborar uma imagem do silêncio? O escritor Jules Renard, completa, tinha a sua: “neve na água, silêncio sobre silêncio”. O isolamento, diz Godard, “me permite olhar o som e a fúria” do que se passa do lado de fora da janela. Para Nicole Brennez, as propostas estéticas de Godard têm três níveis: articulação das imagens na montagem; potências simbólicas atribuídas às imagens; e relações da representação das imagens com uma efetividade histórica. A “dialética fundadora na economia das imagens em Godard”, prossegue, “é uma forma de pensar a partir do que está faltando, ou seja, imagens que não foram registradas ou vistas, filmes que não foram acabados, gestos que foram encobertos, vidas muito cedo interrompidas”. O solo epistemológico é o Witz, conceito forjado pelos românticos alemães, uma forma de pensamento crítico que identifica poesia, conhecimento e verdade.

Frame do Filme “Acossado”

Como seus últimos filmes encontraram essa forma fragmentada, de ruídos, clipes? pergunta o crítico. Resposta: “falta linguagem na língua…palavras, palavras, palavras, como dizia Shakespeare; hoje o master é o alfabeto Google”. Foi filmando “Atenção à Direita”, em 1987, que Godard, alertado pelo seu diretor de fotografia, se deu conta que seus filmes não seguiam o padrão habitual de enquadramento, ou seja, limitar, na câmera e no olhar, o que se pretende fotografar ou filmar. Seus quadros cinematográficos, par contre, são como os quadros impressionistas, pensados a partir do centro da imagem. “Adeus à linguagem”, de 2014, foi mal compreendido: o título correto deveria ser “Bom dia, linguagem”. Em “Eu vos saúdo, Maria”, de 1985, Godard percebeu que “basta estar em close para Maria não emocionar mais”: numa era em que a ciência opera a reprodução humana por meio da disjunção dos corpos, como representar o dogma da geração divina de Cristo? A solução, na dialética fundadora das imagens do franco-suíço, foi mostrar Maria, em meio a convulsões que lembram o arco histérico dos corpos de Charcot, recitar, em off, uma linha do genial herege Antonin Artaud: “quero que a alma seja corpo”.

E as plataformas digitais? interroga o crítico, atento às novas tecnologias. “Não assisto…só tenho o celular!”, brada o cineasta, colocando o aparelho no centro da tela: “de vez em quando mando imagens para uns poucos amigos, como esta”, mostrando um homem pescando e olhando para o rio; “é como jogar uma garrafa no oceano”. E arremata: “o que a água, toda a água do rio, está dizendo?”


  • Texto brilhante e atualíssimo. Uma combinação de consistência sintética racional com pinceladas de cores emocionais, que proporciona um raro deleite estético agridoce ao pensar o cinema na encruzilhada da pandemia.

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