I’m Your Man

O amor em tempos de algoritmos

Por Fabricio Duque

Durante o Festival de Berlim 2021

Antoine Laurent Lavoisier há mais de duzentos anos já ensinava que “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Assim, a arte do cinema apresenta-se toda vez como uma experiência química em processos relativos de ressignificar substâncias. Esses elementos buscam existir nas referências de outros filmes, outros gêneros e outras narrativas, os amalgamando em uma complexo e equilibrado processo final. Mas não é fácil. Pelo contrário. Encontrar verdade na ficção pela naturalidade gera árduas e intermitentes tentativas e erros. “Ich bin dein Mensch (I’m your Man)” quer ser assim: uma sensorial experiência química, quando se substancia de importações condensadas de gêneros plurais.

Exibido na mostra competitiva oficial do Festival de Berlim 2021, “Ich bin dein Mensch (I’m your Man)”, da realizadora alemã Maria Schrader (atriz de “Aimée & Jaguar”), baseada livremente na  história homônima de Emma Braslavsky, é um filme propositalmente estranho (de contato pela perspectiva da protagonista), que se conduz por uma coleta emaranhada de gêneros, que vai de “AI – Inteligência Artificial”, de Steven Spielberg a Jacques Tati. Esta é uma crônica-distopia sobre um mundo futurista no presente. Uma ficção-científica “conto de fadas” que “ajuda” pessoas a não ficarem sozinhas, entre hologramas e máquinas “top de linha”. “Encontrar a pessoa perfeita”. “Um amante sexual”. Numa atmosfera distante, de realidade paralela, como se fosse um sonho acordado e desestabilizando o sensorial etéreo.

“Ich bin dein Mensch (I’m your Man)” não satisfeito em apresentar apenas uma estranheza, resolve construir sub-camadas surreais com o objetivo de perder o controle e as rédeas da condução (especialmente pela falta de tom da trilha sonora “tecladinho”). Em minutos, o filme salta a outro gênero. Uma típica (comum e cliché) comédia romântica norteamericana com ares alemães. Problemas com o pai. Problemas no trabalho (“estudo sobre raros artefatos persas”, “uma poesia com metáfora”). E um “pretendente máquina” comprado para “testá-lo em três semanas” (“programado para ser um parceiro romântico”)., que inclusive a “repreende por suas lágrimas egoístas”. Essa comédia de costumes potencializam o ridículo das situações pelo humor pastelão tentando ser sério (quando a personagem principal observa “famílias felizes”, desejando o mesmo para si) e constrangedor. O longa-metragem, que remete imediatamente, de fora mais ingênua (por exemplo a falta de apuro técnico na cena em que o robô se movimenta em alta velocidade) ao seriado “Black Mirror”, quer traçar um paralelo entre a robótica vida moderna das pessoas sem tempo, que cada vez se tornam mais máquinas, e a do robô que a cada conhecimento vira mais humano (“corrigindo substantivos”, “calibrando o algoritmo”), deixando mais de lado as estatísticas quando aprende as idiossincrasias, subjetividades e livre-arbítrios. Tudo aqui pode ser também uma crítica às características pragmáticas dos próprios alemães.

A ingenuidade mencionada é que essa ideia de fazer um robô ter sentimentos humanos é muito ultrapassada (vide os filmes “O Homem Bicentenário”, de Chris Columbus; “Ex_Machina: Instinto Artificial”, de Alex Garland; os seriados “Better Than Us” e “Westworld”), como assistir a “vídeos de tombos” para saber se é engraçado ou não. Mas o que incomoda em “Ich bin dein Mensch (I’m your Man)” é que não sabemos qual caminho se deseja chegar. É potencializado, afoito, sentimental, moralista, impulsivo, teatral, bagunçado, banal, desengonçado demais. Está sempre um tom “estúpido” (palavras no próprio filme) abaixo do necessário para acontecer o clímax.

E quando o final chega, a narração, que insinua um capítulo de um livro, explica o que ainda não estava mastigado. Usando poética, definições e adjetivos para traduzir toda a experiência que passamos em cento e cinco minutos. “Ich bin dein Mensch (I’m your Man)”, com a vinheta inicial da Paramount, tenta conjugar arte com comercial, prendendo o público em algoritmos-fórmulas narrativos.

Trailer

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