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Il buco

O cinema é a música da escuridão

Por Pedro Mesquita

Durante a 8 1/2 Festa do Cinema Italiano 2022

Il buco

O início de “Il buco”, o mais novo filme do realizador italiano Michelangelo Frammartino, é arrebatador. Da escuridão total, vemos se formar uma paisagem bucólica, cujos elementos — o céu, as plantas — vão gradativamente se destacando do fundo preto do qual saíram. Do silêncio, surge o som daquele lugar, e o retrato está, enfim, completo.

O tal ambiente retratado é a região italiana da Calábria. A partir de novos planos, justapostos ao anterior, vemo-lo tomar forma quase à maneira de uma sucessão de “vistas Lumière”: através de uma série de tomadas de duração mais ou menos similar, aquela região nos é apresentada. O filme, neste início, parece não querer contar uma história: os seus planos independem uns dos outros; não há um encadeamento que faça com que um “chame” o outro; não há conjunção entre eles (em linguística, chama-se isto de parataxe). Não há sequer um drama que se desenvolve no interior de cada um deles: predomina aqui a descrição minuciosa daqueles campos — se existe um filme do ano de 2022 que faz por merecer o rótulo de “realista”, este filme é “Il buco” —, descrição essa que, apesar de lenta, nunca se torna cansativa ou autoindulgente, principalmente graças ao incrível trabalho de fotografia do experiente Renato Berta.

Aos poucos, porém, os enunciados paratáticos vão dando lugar a uma narrativa minimamente convencional. Vemos surgir um grupo de personagens que será recorrente daqui em diante: os integrantes do Grupo Espeleológico do Piemonte (GSP), cuja identidade conseguimos reconhecer apenas graças às cartelas do início da sessão, já que o filme em si não os introduz propriamente. Este é, aliás, um filme de pouquíssimas palavras (e quando elas existem, não aparecem legendadas), e as personagens se definem exclusivamente por meio de suas ações. Os espeleólogos aparecem no filme, realizam o seu trabalho e, quando este se encerra, também o faz o próprio filme. 

E qual seria esse trabalho retratado no filme, então? O evento — baseado em fatos reais, acontecidos em 1961 — que “Il buco” toma como assunto principal é a expedição do GSP com o objetivo de explorar o Abismo Bifurto, uma caverna de quase 700 metros de profundidade situada naquela região. É nesta jornada, portanto, que o filme investe boa parte de sua duração. E é nela também que encontramos o seu maior ponto forte: não é exagero caracterizar a fotografia de Berta como um pequeno milagre, na medida que os espaços retratados — pequenos e escuros vãos situados a centenas de metros do chão — são restituídos com uma beleza ímpar. A iluminação natural da caverna é praticamente nula, e igualmente ínfima é a possibilidade de arrumar um esquema de iluminação dentro daqueles espaços apertados e inacessíveis aos homens comuns; só resta ao diretor de fotografia, portanto, a luz fornecida pelos próprios capacetes dos espeleólogos. O que resta como produto final são imagens dominadas pela escuridão, apenas parcialmente banhadas por um ou outro feixes de luz que lhes dão a dimensão espacial daquele lugar. Particularmente fascinantes são os planos dos homens usando as próprias vozes — que reverberam intensamente ali dentro — como instrumento de comunicação com os demais situados em outras porções da caverna, ou mesmo os planos em que objetos flamejantes são jogados caverna abaixo, a fim de que os espeleólogos tenham uma noção da profundidade do local que estão prestes a adentrar. 

“Il buco” é, grosso modo, um filme sobre o mapeamento de uma caverna. Mas o que essa descrição banal ignora é o tamanho de sua dimensão poética e reflexiva, pois as suas imagens, ora maravilhosas, ora assustadoras, nos põem a pensar o tempo todo sobre o árduo processo por meio do qual o homem amplia os seus horizontes (sejam eles físicos, sejam eles intelectuais). Este é, portanto, um filme sobre a Modernidade, período no qual o homem empreendeu aumentar a sua área de influência sobre a natureza, sobretudo no plano vertical, conquistando os céus (não à toa o filme também nos mostra, por meio de imagens de arquivo, a construção do edifício Pirelli, em Milão) e também a terra (simbolizada aqui pelo Abismo Bifurto). Por isso, quando a última das personagens é vista concluindo o mapeamento da caverna nos seus mínimos detalhes, pensamos menos no sucesso daquele empreendimento particular que no sucesso de um projeto coletivo de organização social.

Enfim, pode ser que “Il buco” seja tudo isso e muito mais, de acordo com a interpretação que lhe fazemos. Mas o que ele é de fato, concreta e inegavelmente — e isso independe de interpretação —, é uma experiência visual e sonora impressionante, daquelas que só são produzidas mediante um estudo meticuloso do seu objeto de estudo (como transformar um objeto tão pouco dado à contemplação, como uma caverna, numa obra de cinema?). E é por isso que não se deve perdê-lo.

4 Nota do Crítico 5 1

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