Ichimei

O vazio e o absoluto

Por João Lanari Bo

Festival de Cannes 2011

Takashi Miike é certamente o mais antropofágico diretor em atividade no Japão: sua caudalosa obra incorpora vários remakes, sem constrangimentos. “Ichimei”, de 2011, é um elegante remake do clássico de Masaki Kobayashi, realizado em 1962, conhecido como “Harakiri”. A história se passa entre 1619 e 1630, período em que o Japão começou a se isolar do resto mundo, sob o xogunato Tokugawa. O personagem principal, Hanshiro Tsugumo, é um ronin, ou seja – um samurai sem patrão, despossuído. Os samurais, verdadeiros capangas ou milícias com supostos atributos de honra, faziam a guarda dos senhores feudais que controlavam o Japão. Se fizessem parte de um clã derrotado, ficavam à deriva, errantes: ronins muitas vezes procuravam clãs vencedores a fim de cumprir o bushido, literalmente “caminho do guerreiro”, o código de honra que regia a vida e a morte dos samurais. Cumprir o bushido significava pedir para cometer seppuku – ritual mais conhecido no vernáculo cinematográfico como haraquiri – no pátio de pedras do palácio dos senhores feudais vencedores. Claro, muitas vezes tudo não passava de um blefe: os ronins estavam à procura de algum tipo de esmola, de piedade dos vencedores. Não era o caso de Tsugumo, quando resolve procurar o clã vencedor: seu blefe era mais radical, era um desmonte do bushido; sua argumentação sobre os vazios e absolutos do código de honra desarticulou a posição do chefe local, humilhando-o diante de seus seguidores.

Excesso é a palavra comumente utilizada para definir o cinema de Takashi Miike. Excesso que pode ocorrer nos mais diferentes domínios: na sexualidade; no terror; na escatologia; na diversidade étnica; na violência; na incrível capacidade de produção; enfim, na facilidade de usar o dispositivo cinematográfico para narrar as histórias, uma após a outra, boas ou más. Nos primeiros onze anos de carreira, de 1991 a 2002, foram 50 filmes, três séries de TV, dois vídeos musicais, um documentário e um comercial. Sua produtividade, assim como o pendor para pôr em xeque padrões estabelecidos de bom gosto, tornaram-se um mito. Alguns dos seus trabalhos sofreram cortes, em diferentes mercados, em função de cenas potencialmente ofensivas. Samurais, imigrantes, yakuzas, marginais, prostitutas, crianças, família, assalariados, estrangeiros, sádicos e masoquistas participam desse festim diabólico. Mangás e a tradição pictórica japonesa são invocados, ao lado de um visual corroído e apocalíptico, cheio de cores fortes, neons, claros e escuros. Em “A cidade das almas perdidas”, realizado no ano 2000, o herói é um imigrante brasileiro no Japão, Mário, que enfrenta poderosos yakuzas e anseia em fugir com a namorada para a Austrália. Futuro e passado atravessam o fluxo da narrativa em jump cuts, incluindo um vilarejo brasileiro (terra natal de Mario) que parece cenário de western spaguetti, no comentário de Tom Mes. “Sukiyaki Western Django”, de 2007, é um caldeirão de referências, samurais e cowboys: no meio do tiroteio entra em cena Quentin Tarantino, em um papel descrito pelo press-release da produção da seguinte forma: “um sujeito misterioso chamado Ringo que duela com um oponente desconhecido japonês, que por sua vez é amante da assassina disfarçada de habitante do vilarejo”.

A transgressão em “Ichimei” é ser mais clássico do que o clássico: foi o primeiro filme em 3D a disputar a Palma de Ouro em Cannes, 2011. Foi filmado a cores: e o compositor e pop star Ryuichi Sakamoto fez a música. Ao mesmo tempo que vai fundo nos pilares melodramáticos do original de Kobayashi, o filme duplica sem parcimônias personagens e situações. É um jidaigeki da cabeça aos pés: réplica fantasiosa de um passado mítico, codificada segundo as leis do espetáculo moderno. Donald Richie, o decano dos críticos ocidentais do cinema japonês, dizia que o Japão é uma image factory. Já por volta da década de 1920 a quantidade de produções jidaigeki rivalizava com o output dos filmes de faroeste americanos. O cinema de gênero catapultou a indústria cinematográfica do país do arquipélago, até o desastre da 2ª Guerra Mundial. Na retomada, foi um jidaigeki, “Rashmon”, de 1950, realizado por Akira Kurosawa, que ganhou respeitabilidade e recolocou o país no circuito cinematográfico internacional.

Nascido em 1960, Miike queria ser corredor de motocicleta, mas acabou entrando na escola de cinema de outro grande cineasta, Imamura Shohei, em Yokohama. Logo abandonou as aulas para colocar a mão na massa, indo trabalhar na TV. Sua produtividade é assombrosa: além de “Ichimei”, 110 títulos constam da sua lavra como diretor. O excesso é o traço dessa obra, um excesso que configura, nos altos e baixos, uma inevitável sensação de contemporaneidade.

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