Honeyland

Respeite a Natureza!

Por Adam William

Durante a Mostra de São Paulo 2019

Se eu pudesse resumir “Honeyland” em uma única frase, esta seria “respeite a natureza e ela o respeitará de volta”. Isso porque a ligação com a terra e os animais é algo praticamente onipresente na vida de Hatidze, uma apicultora que vive quase completamente só em sua casa de pedra, na Macedônia do Norte. Suas únicas companhias são sua mãe, seus cães e gatos e, claro, suas abelhas. Embora, à primeira vista, o foco do documentário seja a singela rotina da senhora, mostrando a colheita do mel e seus diálogos com a mãe, o resultado de três anos de filmagens realizadas pelos diretores Tamara Kotevska e Ljubomir Stefanov logo se torna algo mais, uma obra rica – e até poética – sobre quão impactante a interferência do homem no meio-ambiente pode se tornar. É algo único, comovente e incrivelmente pessoal.

“Metade para mim, metade para vocês” recita Hatidze enquanto recolhe o mel das abelhas. Fica nítido para o espectador o cuidado da senhora com todo o ecossistema ao seu redor, já que não apenas há o cuidado na colheita do mel – deixar metade do melado para que a produção continue normalmente –, mas um visível respeito e carinho por todos. Acompanhá-la, ainda que apenas sua rotina, é bastante agradável pelo fato de acabarmos nos apegando a essa figura tão encantadora e após testemunharmos sua colheita e sua jornada para chegar até a cidade vizinha de Skopje, vê-la vender o mel e conseguir o reconhecimento pela ótima qualidade de seu produto, é profundamente recompensador, pois sabemos que é fruto de muito zelo. Já alguns diálogos dela com sua mãe Nazife tratam de estabelecer não só a relação entre as duas, como também explicam – nas entrelinhas – algumas características do lugar onde vivem.

Conforme vamos acompanhando os diálogos, percebemos por exemplo, que somente elas residem naquela região, o que traz uma sensação de pacificidade, mas notamos que por vezes, Hatidze se sente solitária. Tudo muda de forma drástica quando novos vizinhos chegam, invadindo de forma barulhenta e abrupta o pequeno mundinho de Hatidze. E assim que somos apresentados a Hussein e sua esposa, seus 7 filhos, sete filhos, galinhas e vacas, a quebra do ritmo evidencia as mudanças que virão. De repente, a jornada regida pela calmaria na vida da carismática protagonista é tomada por personagens diferentes e uma dinâmica inédita. Vemos Hatidze saindo de sua rotina, se divertindo e até mesmo ensinando uma das crianças de Hussein sobre seu estilo de vida com as abelhas, mas a presença daqueles personagens funciona também por criar um conflito natural – até previsível –, já que logo tomamos conhecimento que o patriarca da família está interessado pelo negócio do mel.

A presença de tais personagens chega a retirar um pouco a atmosfera documental do filme, dado que em certos momentos os diretores constroem a narrativa de maneira que a obra pareça roteirizada demais. Nada que atrapalhe o andamento da história, mas ainda assim, é de se impressionar que as coisas ocorram – espontaneamente – de forma tão benéfica para a trama. Ainda que os personagens não sejam exatamente “vilões” da história – há de se lembrar que é somente a vida ocorrendo, pessoas sendo como elas são, para o melhor ou para o pior –, o conflito trazido com eles é o que impulsiona “Honeyland” em sua segunda metade. É também quando o filme atinge um ponto doloroso, pois após entendermos como funciona o trabalho da apicultora, sua dedicação e consideração pela vida e pelo equilíbrio da natureza, ver Hussein tentando cultivar suas próprias abelhas sem respeitar o ambiente como Hatidze, é simplesmente de partir o coração, principalmente quando as consequências de suas ações refletem no trabalho dela.

A montagem de Atanas Georgiev é um dos elementos técnicos mais importantes para atribuir a obra a sensação de antagonismo, principalmente pela necessidade evidente de mais cortes conforme mais personagens são agregados a trama. À medida que a trama avança, nota-se a sensação de afastamento dos personagens, mesmo quando lado-a-lado. Nesse aspecto, a presença de um dos filhos de Hussei que se afeiçoa a Hatidze é relevante, pois ele demonstra um interesse genuíno pelo trabalho que ela faz, em contraste ao pai que na verdade só está preocupado com o dinheiro que conseguirá com o mel. O ótimo trabalho de cinematografia fica por conta de Fejmi Daut e Samir Ljuma, responsáveis pela traduzirem visualmente a beleza do pequeno microcosmos de Hatidze, ou a eventual falta dela conforme seu espaço pessoal é “corrompido” pelos atos dos outros.

“Honeyland” é uma obra bela que fala de assuntos relevantes para os dias atuais de forma íntima e por um olhar de uma cultura que poucos devem conhecer – algo que só torna o documentário mais interessante –, o que faz dele um filme bastante cativante para aqueles que gostam do gênero, ainda que por vezes soe como se os diretores tivessem, de alguma forma, roteirizado a vida. Assim, uma história real ganha contornos de uma fábula sobre o meio-ambiente, mas é também um estudo sobre o conflito de humildade e ganância. E como seus pequenos atos podem impactar – bem ou mal – no fluxo natural das coisas. Uma tocante poesia, afinal.

 

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