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Homebound

Qual é a sua casta? Qual é sua religião?

Por João Lanari Bo

Festival de Cannes 2025

Homebound

Homebound”, o melodrama social indiano dirigido por Neeraj Ghaywan em 2025, não conseguiu, no último minuto, entrar para a lista dos indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Com produção executiva de Martin Scorsese, o roteiro foi baseado em artigo escrito por Basharat Peer para o The New York Times, intitulado “Uma Amizade, uma Pandemia e uma Morte à Beira da Rodovia” (que pode valer também como sinopse) – a história narra sonhos e decepções de dois amigos jovens em busca de emprego em um vilarejo na província de Guzerate, no norte ocidental do país. Faltou pouco para a exposição global que a academia norte-americana proporciona, apesar do “padrinho” poderoso nos créditos de produção.

Produto de Bolywood, “Homebound” interage também com uma densa tradição de cinema social indiano – Satyajit Ray é o nome mais conhecido no Ocidente, mas muitos outros cineastas se destacam, inclusive em nível de expressão regional. A despeito da imagem bollywoodiana remeter ao puro entretenimento com abundante trilha musical, eventualmente produções críticas com pano de fundo político vem à tona. No filme em tela, cujos principais protagonistas são estrelas nacionais, não há lugar para canções, coreografias ou mecanismos estilísticos “escapistas”. Mesmo ancorada em parâmetros convencionais, o filme toca no nervo mais sensível dessa colossal e diversa nação que é a Índia, ou seja, nos preconceitos relativos à casta, por um lado, e religião, por outro.

Em 1950, a constituição adotada pela recém-independente Índia estipulou em seu Artigo 15:

O Estado não discriminará nenhum cidadão com base apenas em religião, raça, casta, sexo ou qualquer um deles. Em particular, nenhum cidadão estará sujeito, apenas por motivos de religião, raça, casta, sexo ou qualquer um deles, a qualquer deficiência, responsabilidade, restrição ou condição no que diz respeito à:

(a) Acesso a lojas, restaurantes, hotéis e locais de entretenimento público, ou

  1. b) A utilização de poços, tanques, banhos públicos, estradas e locais públicos de abrigo mantidos total ou parcialmente com receitas do Estado ou destinados ao uso do público em geral.

Malgrado a lei, no terreno complexo das relações sociais a situação é outra: relatório da Anistia Internacional, publicado em 2018, sublinha que 100 crimes de ódio foram perpetrados nos primeiros seis meses daquele ano, com base em preconceito social. Violência contra minorias muçulmanas são igualmente frequentes, aberta ou veladamente apoiadas por autoridades. Pois nossos dois protagonistas, Mohammed Shoaib Ali (Ishaan Khatter) e Chandan Kumar (Vishal Jethwa), estão no centro dessa turbulência: um é muçulmano (Shoaib), e outro “dalit” (Chandan), pertencente à casta inferior. Ambos têm consciência dos múltiplos obstáculos com que se deparam no dia a dia, ambicionam ascender para obter respeito e bem estar para suas famílias, mas as barreiras, visíveis ou não, persistem. Entrar para a Polícia mediante concurso público é a opção redentora – mas a procura é enorme, mais de setecentos candidatos por vaga.

Homebound” evolve entre idas e vindas da dupla, fracassos e pequenas vitórias, rupturas entre os dois reconciliação. As situações sobre o nacionalismo hindu e o persistente preconceito de classe são recorrentes no melodrama, mas embora evidentes, são relativamente curtas. A sucessão de eventos termina por construir, naturalmente, uma percepção aguçada do contexto social em que se movem os personagens. Por vezes, tais situações são sutis – Chandan evita revelar seu sobrenome para uma estudante que eles conhecem na estação de trem, Sudha Bharti (Janhvi Kapoor, também atriz de renome em Bollywood), a fim de não indicar sua casta. O envolvimento romântico que se desenvolve entre os dois é pautado por uma permanente discussão de como emancipar-se desse ambiente preconceituoso e divisionista – ela, também uma “dalit”, estimula Chandan a estudar em uma faculdade, e ele hesita.

O sistema de castas vigora há mais de dois mil anos na Índia e é baseado em uma condição hereditária, passada de pai para filho. Já a fissura entre hinduísmo e islamismo, o primeiro com cerca de 80% da população, e o segundo com 15%, é mais recente – mas acirrada nos últimos anos, sob o governo conservador do Primeiro-Ministro Modi. Shoaib tenta se firmar como vendedor, é elogiado pelo seu talento, mas é obrigado a apresentar documentos de residência e ficha criminal limpa para obter o emprego.

Não há tergiversações nesse mundo – só há um inescapável princípio da realidade.

4 Nota do Crítico 5 1

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