Histórias do Marco Zero
Sobrevivendo nos Escombros
Por João Lanari Bo
Festival de Taormina 2024
“Histórias do Marco Zero” é uma coleção de curtas-metragens filmados na Faixa de Gaza, rodados em meio a um dos maiores tormentos humanos na era dos conflitos modernos. Mesclando documentários sobre tragédias particulares, depoimentos subjetivos e perplexos, atividades artísticas envolvendo crianças, a obra reúne 22 cineastas palestinos que se empenharam em registrar sua visão do que se passa na rotina de terror que se abateu sobre a população desde que Israel começou a bombardear a área. O violento ataque do Hamas em outubro de 2023 – e a resposta totalmente desproporcional israelense que se seguiu – catapultaram o conflito na região para um novo e inédito patamar, que parece não ter fim.
Hoje seriam 50 mil as vítimas palestinas, a maioria crianças, mulheres e cidadãos sem relação com o Hamas – simples habitantes locais. A Faixa de Gaza e seus poucos mais de dois milhões de habitantes são o produto, entre outros, de um esforço regulatório em cima de uma situação territorial complexa, que começou com a criação do Estado de Israel pela ONU em 1947. Faltou combinar com os palestinos que ali residiam – seguiram-se guerras e a expulsão de centenas de milhares de pessoas que residiam nos territórios ocupados pelos israelenses para a faixa estreita ao sul, cercada por Israel, o Mediterrâneo e o Egito, conhecida como Faixa de Gaza.
Supervisionado pelo diretor e produtor Rashid Masharawi, “Histórias do Marco Zero” é sem dúvida um feito notável. Michael Moore, o combativo cineasta norte-americano, atuou como produtor executivo. É evidente que as condições de produção eram as mais precárias possíveis, em geral as tomadas foram feitas com celular – esse pequeno aparelho que se disseminou no globo terrestre e impactou radicalmente captação e memória de imagens e sons. Eventualmente, são utilizados câmeras e equipamentos, há também animação e stop-motion: movimentos de câmera podem ser esquivos e velados, registrando uma pulsação do olhar que remete diretamente à guerra em curso. Podem ser também movimentos imprevistos, o grau de sofisticação varia entre os curtas, mas todos eles têm um solo comum – informar e alertar o resto do mundo sobre o estado limítrofe em que se encontram.
Algumas constantes atravessam o documentário e fornecem um fio condutor para a apreensão do contexto. Praia e a contemplação do espaço cênico infinito do mar funcionam como alívio visual momentâneo; zumbido assustador de drones patrulhando o espaço aéreo de Gaza assombram invisíveis; corpos presos sob pilhas de escombros em locais antes populosos; tendas de refugiados que ficaram sem casa, e são obrigados a conviver com todas as limitações imagináveis em termos de infraestrutura. A tortura que são as noites – quando se intensificam os bombardeios, e chegam notícias de mortes e feridos – é outro ponto frequente abordado nos testemunhos.
“Histórias do Marco Zero” não tenciona descrever em detalhes gráficos a vida em Gaza – objeto, aliás, da cobertura da grande mídia, que impõe suas regras de espetáculo, como o ciclo efêmero das notícias e o viés editorial com que são produzidas. Os curtas são uma espécie de ponto de entrada, um meio pelo qual esses cineastas processam seu presente doloroso e esboçam visões esperançosas do futuro. Com três a seis minutos em média de duração, foram resultado de encomenda por Masharawi, que simplesmente pediu a um grupo heterogêneo de moradores que idealizassem projetos que mostrassem a vida cotidiana no território palestino. Não havia nenhum gênero pré-determinado: muitos, sobretudo os que registram atividades artísticas de crianças, tem um propósito alentador. Outros narram vivências de morte, deslocamento e sobrevivência. E outros fixam, de alguma forma, o fato de ainda estarem vivos.
Em janeiro de 2025, uma paz temporária suspendeu os ataques israelenses, mediada pelas bravatas populistas do Presidente Trump. Não teve vida longa: na madrugada de 17 de março, Israel lançou uma série de ataques que romperam com a trégua entre as duas partes e deixaram 413 mortos e 660 feridos, segundo o Ministério da Saúde de Gaza.
Para o Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu, que comanda uma coalizão de direita em Israel, a guerra contra o Hamas está mudando a face do Oriente Médio. E conclui: é uma guerra de renascimento.
Numa conjuntura em que a contenção preconizada pelo sistema multilateral da ONU parece ter colapsado de vez – os anseios de conquista territorial de Trump, a invasão imperialista russa da Ucrânia – sobram poucas saídas para os palestinos em Gaza.