Histórias do Cinema com Sílvio Tendler

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HISTÓRIAS DO CINEMA EM QUESTÃO: AS INDÚSTRIAS DE SONHOS, no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro, é uma série de oito palestras que traçam um breve panorama dos cinemas brasileiro e americano, especialmente em algumas de suas manifestações mais representativas.

O evento quinzenal, toda terça-feira, de 23 de fevereiro e 01 de junho de 2010, que tem entrada gratuita, com a retirada de senhas uma hora antes, estimula a memória do cinema brasileiro e internacional pelos olhos de convidados que fizeram fama no meio cinematográfico.

Saroldi apresenta o palestrante da vez, Sílvio Tendler, colocando a história no cinema e o cinema na história. O encontro começa com o áudio de um programa de rádio em primeiro de abril de 1964. Era o depoimento especial JB. Jango tinha ido a Brasília. Classe média feliz, pela queda do poder, e porteiros cabisbaixos.

Carioca de 1950, cineclubista, em 1970 saiu do Brasil para o Chile, e de lá foi para a França estudar cinema no Institut des Hautes Études Cinématographiques (IDHEC), em Paris. Fez cursos do cineasta Jean Rouch e foi assistente de direção de Chris Marker no filme La spirale (1973/75). Em 1976, já de volta ao Brasil, começou a reunir material para o documentário Os anos JK, uma trajetória política (1980), um de seus filmes mais importantes, prêmio de melhor montagem no Festival de Gramado e ganhador do troféu Margarida de Prata, da CNBB. Após este filme, dirigiu propaganda política para partidos de esquerda e foi chamado para dirigir programas para a TV Manchete. Em 1981 dirigiu O mundo mágico dos Trapalhões, um documentário em longa-metragem. Realizou em seguida Jango (1984), premiado nos festivais de Gramado e Havana. Em 1999 finalizou Castro Alves. Tendler leciona na cadeira de comunicação social da PUC-Rio. Em 2004 lançou o documentário de longa-metragem Glauber, o filme – Labirinto do Brasil. Outro é Milton Santos ou O mundo global visto de cá. O Seu último é UTOPIA E BARBÁRIE – que estreou em 2010 – Verger por Verger e Ter 18 anos em 1968 – este último, um projeto em parceira com a editora Garamond e que envolve, além do filme, um livro.

Cinema era uma tecnologia nova, permeada com a história da humanidade. O Século XX foi diferente de todos os outros anteriores. Documentavam os acontecimentos do mundo. Como seria a quebra da bastilha se tivesse sido documentada? Nelson Rodrigues diz que seria apenas quebra-quebra.

A invenção do cinema possui a dúvida de seu inventor. Thomas Ava Edison (Milan, Ohio, 11 de Fevereiro de 1847 — West Orange, Nova Jérsei, 18 de Outubro de 1931), americano, que buscava o entretenimento, registrando mais de mil patentes sobre elementos do cinema. Do outro lado, os franceses Auguste Marie Louis Nicholas Lumière (Besançon, 19 de outubro de 1862 — Lyon, 10 de abril de 1954) e Louis Jean Lumière (Besançon, 5 de outubro de 1864 — Bandol, 6 de junho de 1948), os irmãos Lumière documentavam cinematograficamente o conhecimento social. Enquanto o primeiro aumentava o capitalismo, com sua arrecadação das fontes de lucro, os últimos almejavam dividir os objetos e as experiências com a sociedade e o mundo.

Jean-Luc Godard, cineasta francês, que está com seu último filme “Film socialism”, no Festival de Cannes deste mês, comparava as técnicas dos Lumiere com Pierre-Auguste Renoir (Limoges, 25 de fevereiro de 1841 — Cagnes-sur-Mer, 3 de dezembro de 1919) que foi um dos mais célebres pintores franceses e um dos mais importantes nomes do movimento impressionista.

Irmãos Lumiere. A primeira projeção pública de apresentação do invento ocorreu em 28 de Setembro de 1895 na primeira sala de cinema do mundo, o Eden, que ainda existe, situado em La Ciotat, no sudeste da França. A sessão foi inaugurada com a projeção de La Sortie de l’usine Lumière à Lyon (A Saída da Fábrica Lumière em Lyon). As imagens com camera fixa, parada, realizam o primeiro estudo da sociedade não encenado, com as roupas da época (de piquenique, de beiras de lago). L’Arrivée d’un train en gare de la Ciotat (Chegada de um Comboio à Estação da Ciotat) mostra plano único, um registro do que acontecia naquele momento.

Thomas Edison. Em 1891, um processo da imagem com o da construção direciona o estilo da brincadeira, de teatro. Experiências de trabalho armam cenas para ser filmadas, teatralizadas. Os filmes estão no MOMA, Museus de Arte Moderna de Nova Iorque. Não existe o primeiro plano. É diferente, porque há encenação. Os “atores” posam para a camera. The Execution of Mary Stuart, Fatima’s Coochee-Coochee Dance, Blackton Sketches, No. 3, Blackton Sketches, No. 2, Butterfly Dance, The Passion Play of Oberammergau, Electrocuting an Elephant, Parsifal, Frankenstein or the Modern Prometheus, alguns de seus filmes mudos que abordam temas como um homem músculo, briga entre dois gatos, participante de um circo. Nascimento de uma linguagem permeando o século XX, arquétipos do cinema, desenvolvimento deste tipo de registro.

Os irmãos Lumière desenvolveram também o primeiro processo de fotografia colorida, o autocromo (‘’autochrome’’), a placa fotográfica seca, em 1896, a fotografia em relevo (1920), o cinema em relevo (1935), a chamada ‘’Cruz de Malta’’, um sistema que permite que uma bobine de filme desfile por intermitência. Já Thomas Edison teve um papel determinante no surto da indústria do cinema. São estes os aparelhos que inventou ou lançou no mercado: Cinetógrafo, máquina de filmar; Cinescópio, caixa com imagens filmadas vistas no seu interior; Cinefone, versão do cinescópio com som síncrono gerado por um fonógrafo; Vitascópio, projetor de filmes em tela.

Conteúdo dos filmes. Há a integração cinema e historia. Visitas ao passado e ao futuro. O passado é retratado em The Great Train Robbery (O Grande Assalto ao Trem Pagador), um filme de 1903 dirigido por Edwin S. Porter, antigo operador de câmera de Thomas Edison. Com doze minutos de duração, considerado o primeiro western. O elenco inclui A.C. Abadie, Broncho Billy Anderson e Justus D. Barnes, embora nenhum ator tenha sido creditado. O filme ainda não encontra a linguagem.

Há apenas um panorama da camera. Seus personagens (figuração expressiva) e a fumaça da pólvora são colorizados, fotograma a fotograma. Com efeitos de movimentos, tudo muito teatral. Repare no saco murcho dos ladrões para facilitar o deslocamento de seus atores e o transporte. Neste filme há o plano famoso quando se atira para a plateia, a fazendo abaixar no cinema, por incrível que pareça. O cinema americano não vivenciou essas histórias, portanto vai trabalhar com a bíblia e arte medieval.

O futuro é mostrado em A Viagem do Homem à Lua (Le voyage dans la lune, 1902),
obra satírica de ficção científica baseada na obra de Júlio Verne. Este curta-metragem de Georges Melies mostra uma das visões fantasiosas que os homens possuíam da Lua nos primeiros anos do século XX. Cinema como experimentação. Um dos tripulantes da nave é o Presidente da França junto com políticos franceses. Imagens possuem ritmo diminuído.

A viagem futurista é toda construída em estúdio. A tripulação é surrealista, vai a Lua, um lugar exótico, de guarda-chuva. Uma crítica ao novo e a própria arrogância da França. É um cinema invenção. As 30 cenas apresentam qualidades de estilo e imaginação. Neste momento há quase tudo, menos a linguagem cinematográfica, que foi percebida por um italiano em uma gôndola: efeitos especiais, trucagem.

A Vida e Paixão de Cristo (La Vie et la Passion de Jésus Christ), 1908/1909, 31 cenas, Pathé Frérès, França; diretores: Ferdinand Zecca e Lucien Nonguet. Passou muitos anos durante a semana santa. É puro teatro. Colorizada manualmente, diferenciando roupas.

A queda da dinastia Romanov (Padenie dinastii Romanovykh), de Esther Shub
União Soviética, 1927, 35mm, preto-e-branco , 88 minutos, usando imagens de arquivo, apresenta uma cronologia da Rússia de 1913 a 1917. Mostra os líderes do Duma, a nobreza e os camponeses, soldados e marinheiros, a burguesia e o Czar. Documentário pós-segunda guerra. O objetivo: conhecer o mundo pelo cinema, pelo Cine Atualidade. O cinema supria a informação pelo mundo, já que não havia televisão, que faz o cinema perder o lado político. Panorâmica aérea. Posam para câmera. Há aqui todos os elementos cinematográficos.

O nascimento de uma nação (The birth of a nation, 1915), dirigido por D. W. Griffith, com fotografia de G. W. Bitzer, tendo no elenco Lilian Gish, Mae Marsh, Henry Walthall. Brancos indefesos cercados por multidões de negros. A controvérsia que o filme causou gira em torno da premissa de que a primeira Ku Klux Klan restauraria a ordem no sul pós-guerra, que estaria “ameaçado” por afro-americanos “incontroláveis” e seus aliados: abolicionistas, mulatos e republicanos do norte.

O diretor é racista e transpassa para o filme. Introduz-se a política no cinema. Há montagem, planos, topas medievais, em movimento de camera, salvando os brancos. Representa um enorme salto de qualidade técnica. Hollywood politizou o cinema. Quem começou foram os comunistas. “O cinema é o mais importante das artes”, dizia Joseph Stalin, ditador da ex-URSS. Era um ponto de vista. Propaganda e cinema, assim como Adolf Hitler fazia na Alemanha.

“A Mãe” (Mother, 1926), de Vsevolod Illarionovich Pudovkin, diretor russo, que é o mestre da montagem, aborda a história de uma mãe envolvida na revolução de seu filho e seu marido. É um filme de propaganda política. Com Vera Baranovskaya, a mãe; Nikolai Batalov, o filho; Aleksandr Chistyakov, o pai; Vsevolod Pudovkin, o oficial. Há a cena da metáfora realista. A lágrima que pinga em uma bacia que se encontra em baixo de uma torneira.

“O Encouraçado Potenkin” (Bronenosets Potyomkin,1925), dirigido por Sergei Eisenstein. Roteiro de Nina Agadzhanova e Sergei Eisenstein. Fotografia de Vladimir Popov e Eduard Tisse. Música de Edmund Meisel. Beatrice Vitoldi é a mulher que carrega a criança, na cena mais famosa do massacre de Odessa. Durante a revolução bolchevista de 1905, marinheiros estão no cruzador Potenkim e se revoltam devido os maus tratos sofridos. A população de Odessa apóia-os, organizando-se em praças públicas em protestos contra o czarismo. As tropas do governo massacram os rebeldes, o que causa mais revolta. Há a solidariedade da população.

A Revolta da Chibata (1910) de Antônio Cândido, no Brasil, foi pensada por causa deste filme. Uma obra de arte. O massacre da escadaria nunca aconteceu na história, mas seu diretor disse que seria impossível passar por ali e não ver aquelas mortes. Foi a maior encenação do inconsciente coletivo.

“Miséria no Borinage” (Misère au Borinage, 1933) é belga, dirigido por Henri Storck e Joris Ivens. Primeiro filme militante sobre uma greve de mineiros de carvão. Cinema de não atores. Os “atores” interpretam o próprio papel na vida real. A mãe não é atriz, deixa-se filmar. Lá, derrama-se o leite, aqui, no Brasil, queima-se o café. Uma colagem do cine atualidades dentro deste filme político. Operários diferentes da polícia pelo detalhe do chapéu. Há cenas da crise dos Estados Unidos em 1929. Foi rodado clandestinamente com a ajuda dos próprios mineiros, que queriam registrar para o mundo a história dos seus 204 mortos por má condição de trabalho.

“O Assalto ao Trem Pagador” é um filme brasileiro de 1962, do gênero policial, dirigido por Roberto Farias. Baseado em fatos reais, o assalto ao trem de pagamentos da Central do Brasil ocorrido em 1960, no Rio de Janeiro. Enquanto a polícia chega a suspeitar de uma quadrilha de bandidos internacionais pela ousadia do plano, os assaltantes se misturam à realidade da pobreza e da violência brasileiras. A trilha sonora do filme é de autoria de Remo Usai. Com Reginaldo Faria, Grande Otelo, Eliezer Gomes, Jorge Dória, Ruth de Souza. Governo de João Goulart.

“O Evangelho Segundo Teotônio” é um documentário brasileiro lançado em 1984. Traça um perfil do usineiro e político alagoano Teotônio Vilela, da infância até sua morte, vítima de câncer. Conta com depoimentos do próprio Teotônio e de Miguel Arraes, Leonel Brizola, Carlos Castelo Branco, Tancredo Neves, Luís Inácio Lula da Silva e Fernando Henrique Cardoso. “Tuma é o embaixador do arbítrio”, diz-se. Uma criança deita o ouvido a terra, fazendo alusão a sua pátria, à alma nacional.

“Zuzu Angel” é um filme brasileiro de 2006, do gênero drama biográfico, dirigido por Sérgio Rezende. A produção é de Joaquim Vaz de Carvalho, a produção executiva de Heloísa Rezende, a trilha sonora de Cristóvão Bastos, a direção de fotografia de Pedro Farkas, a direção de produção de Laís Chamma e Mílton Pimenta, a direção de arte de Marcos Flaksman, o figurino de Kika Lopes e a edição de Marcelo Moraes. Conta a história da estilista Zuzu Angel que teve seu filho torturado e assassinado pela ditadura militar. Ela também foi morta em um acidente de carro forjado pelos militantes do exército ditatorial em 1976. Com Patrícia Pillar, Zuzu Angel e Daniel de Oliveira, como Stuart Angel. É um filme político, histórico e eficaz. “Mais tempo, mais dor. Menos tempo, menos dor”, trecho do longa.

Fiz um percurso da história do cinema e a relação do cinema com a história.

Respondendo ao Público

Muito difícil colocar os filmes em bancas de jornal, em vender os filmes a preços populares. A minha produtora é pequena, os custos são altos. Poderíamos propor ao MEC (Ministério de Educação e Cultura) passar filmes nas escolas desde a infância dos alunos.

Cinema Novo impregnou, deu para o Brasil novos atores, novos filmes, renovação política. Cacá Diegues, o único remanescente deste gênero, que visava expurgar a violência social.

Meu arquivo foi feito aos poucos. Consegui muita coisa no lixo, em galpões vazios. Não havia memória. Celina Vargas, quando assumiu o Arquivo Nacional, organizou e catalogou tudo. Agora é um arquivo público, um patrimônio nacional. Do lixo fui montando o acervo. Há muita gente de olho no meu arquivo porque ele é bom. Pago sala, IPTU, ar-condicionado, faço tudo isso e ele não me dá retorno. Se você quer algo dele, terá que me ajudar a mantê-lo. Todos riem.

Ensino Youtube aos meus alunos. Os jovens democratizam a educação quando compartilham arquivos, filmes. Não vou dizer que sou a favor, mas também não sou contra. Quem baixa um filme é porque não tem dinheiro. Quem compra na loja gosta do acabamento, da qualidade. Não posso competir com o camelô da esquina.

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