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HISTÓRIAS DO CINEMA EM QUESTÃO: AS INDÚSTRIAS DE SONHOS, no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro, é uma série de oito palestras que traçam um breve panorama dos cinemas brasileiro e americano, especialmente em algumas de suas manifestações mais representativas.

O evento quinzenal, toda terça-feira, de 23 de fevereiro e 01 de junho de 2010, que tem entrada gratuita, com a retirada de senhas uma hora antes, estimula a memória do cinema brasileiro e internacional pelos olhos de convidados que fizeram fama no meio cinematográfico.

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O CCBB mantém a pontualidade em seus eventos. A segunda edição de HISTÓRIAS DO CINEMA, com o teatro I lotado, começou no horário, com a apresentação do curador João Máximo.

O convidado da noite foi apresentado pelo curador como “o escritor que escreve sobre vários assuntos, que ressuscitou a bossa nova e que gosta mais do flamengo que de futebol. Ele amou o cinema. Forneceu matérias-primas com seus livros. Deu mais prazer por ser um apaixonado por cinema. Há os que gostam de musicais e os que detestam musicais. Ruy gosta de musicais”.

Ruy Castro entra calmo, enche o seu copo com água e a bebe lentamente. Pega o microfone e começa a sua verborragia do ensino. “Aqui, território do Banco do Brasil santificado do Rio. Aqui o povo do Rio de Janeiro expulsou os franceses a poder de pedradas, facas e águas quentes jogadas dos prédios. A humilhação da pirataria causou represálias. Trezentos anos depois, estamos a falar do humor de Hollywood (a comédia do cinema americano). Nova Iorque (NY) está em tudo. Comédia é mais visível e mais risível”

Enquanto Ruy expõe as suas palavras, intercalam-se trechos dos filmes que ele comenta.

“Max Linder, comediante francês, antes dos americanos. Antes de Charlie Chaplin, antes de Buster Keaton. O cinema francês era extraordinário na época de 1910. A indústria européia precisava recomeçar por causa da guerra e da destruição dos seus estúdios. Irmãos Max, Oscarito, Chaplin. Eles copiavam Max Linder, o vidro quebrado, a fuga do circo por muitos policiais.

Os filmes mudos eram uma comédia filmada na rua com filmes filmados por cameras leves, manuais. Era a correria. Não havia a necessidade dos estúdios de sonorizar. Mas não eram mudos, só não eram falados. Havia uma orquestra tocando músicas feitos para o filme.

A comédia é uma consequência do teatro popular que fazia de tudo, com pé no circo. Não havia dublês, os próprios atores realizavam as cenas perigosas. Só nos Estados Unidos, por semana, 60 milhões de pessoas iam ao cinema.

Agora todo mundo é diretor. No tempo mudo havia o coreógrafo, chamado de diretor de dança do cinema. Os filmes não eram feitos de qualquer maneira, as sequências eram rigorosamente escritos, com a programação das ações e ideias. Parece espontâneo, mas não é. Era bem ensaiado.

Buster Keaton retratou o pesadelo no cinema. Ser perseguido por dez mil noivas. A psicanálise tinha muito a debater nos filmes dele. De 1923 a 1928. Em 1928, o cinema sonoro apareceu. Ele tinha um grande problema com o alcoolismo. Acabou reduzido a nada, criando gags ‘piadas’ para outros comediantes. Morreu aos 73 anos.

Harold Lloyd, atlético e miope. No filme “O Homem Mosca”, de 1923, ele escalava prédios do lado de fora. Este é seu mais conhecido filme, com aquela famosa imagem dele pendurado num grande relógio. Dirigido por Fred C. Newmeyer e Sam Taylor, faz suar nas mãos com a sequência da subida. Uma grande comédia. Harold tinha um dedo a menos na mão direita. Neste momento, o mesmo homem grita “Igual ao Lula”. Ruy continua dizendo que o jornal New Yorker fez a cena com um relógio digital. Ganhou muito dinheiro. A piscina dele era tão grande que regatas eram disputadas. Um dos três nomes individuais do cinema mudo. Os outros eram Chaplin e Keaton.

Naquela época, havia tantos cinemas como locadoras hoje em dia. O filme era trocado todo dia. Os encontros sociais, namoros aconteciam nestas salas. Havia no cinema Paissandu, no Flamengo, um exemplo assim: uma saleta para fumantes com vidro para que se pudesse conversar, fumar e assistir o filme. Cada estúdio fazia cinquenta filmes de uma hora e meia por ano”.

“Você sabe tudo de cinema!”, um homem grita da plateia, causando risos do público.

Ruy continua “Havia a simetria das imagens. A camera sempre no ângulo da simetria. Como a cena da perseguição por cem policiais. Ele contra o mundo e ganhando sempre. O vagabundo contra o opressor”

“Charlie Chaplin teve mais tempo para ir a comédias mais sérias, com conteúdo, ao invés das físicas. Colocou sentimento de uma maneira visual. Ele nunca quis entender a palavra no cinema. Em “O Grande Ditador”, “Luzes da Cidade”, cenas infantis como o cozinhar o couro de uma bota para matar a fome ou quando ele olha a camera e morde a flor.

O amor e a comédia nem sempre tem a ver com a euforia. Transformar uma situação da realidade em uma situação irreal. Alguns filmes eram coloridos fotograma por fotograma, desde 1900. O cinema americano dos anos 1920 possuía uma altíssima qualidade técnica. Um requinte visual.

O Cinema mudo havia uma qualidade. Há musicais mudos incríveis. Hoje, quanto mais evidente os efeitos especiais, mais parecem gostar. Antigamente, os efeitos eram escondidos. Como a projeção por trás (back projection), porém provocava uma aura na figura do ator.

O Gordo e o Magro. O magro Stan Laurel (1890–1965) e o gordo, Oliver Hardy (1892–1957), O bucha e estica em Portugal, adaptaram-se ao cinema falado. Tudo foi passado a palavra. As plateias se apaixonaram pela voz de Oliver. O líder do grupo era Stan. O gordo gostava de jogar golfe e só aparecia para filmar na hora. Oliver era cantor, dialogava com a camera, que era a sua cúmplice para denunciar a burrice do magro. A cena da guerra dos pastelões deu nome ao cinema pastelão. Oliver morreu mudo. Ironia do destino.

O cinema falado já estava famoso no pedaço. Exceto por Chaplin que ainda fazia filmes mudos. Os realizadores importavam humoristas de Nova Iorque para Hollywood. Estes roteiristas foram autores de frases incríveis.

Em 1934, a instauração da censura fez com que a mulher fatal ‘a super piranha’ fosse impedida de ganhar o mocinho. O politicamente incorreto sempre ganhava no fim antes deste ano.

Os Irmãos Max. Nos primeiros filmes, havia um quarto irmão, que servia de escada aos outros. Eram anarquistas, violentos e indisciplinados na Paramount. Quando a Metro entra, eles mudam e ficam mais contidos. Os grandes escritores de NY, como o filme da cabine lotada. Um dos irmãos, pão-duro e judeu, bebia de graça na casa de Carmem Miranda. “Uma noite na ópera” e “Room service””.

Eram Chico (Leonard Marx, 22 de março de 1887 – 11 de outubro de 1961), Harpo (Adolph Arthur Marx, 23 de novembro de 1888 – 28 de setembro de 1964), Groucho (Julius Henry Marx, 2 de outubro de 1890 – 19 de agosto de 1977), Gummo (Milton Marx, 23 de outubro de 1892 – 21 de abril de 1977), e Zeppo, (Herbert Marx, 25 de fevereiro de 1901 – 30 de novembro de 1979). Outro irmão, Manfred, nasceu em janeiro de 1886, mas morreu na infância em 17 de julho de 1886. Em 16 de janeiro de 1977, Os IRMÃOS MARX colocaram seu nome na Calçada da Fama.

“O cinema falado leva para a tela o melhor que havia no teatro americano. A comédia maluca, sofisticada, temperada com correrias. Equívocos sobre o casamento. Como Cary Grand em “A levada da breca”.

Preston Sturges, roteirista e diretor, fez uma obra prima atrás da outra. “O homem que se vendeu”, “Contrastes humanos”, “Papai por acaso”, “Herói de mentira”. Era diferente, por haver uma baixíssima comédia no meio de uma sequência dramática. Seu filme sobre o inventor da Penicilina, Thomas Alva Edison (1847-1931), foi um fracasso e destruiu a sua carreira.

Billy Wilder. Outro comediante importante. O maior de todos os tempos. Ele fazia comédias de situações. “Farrapo humano”, “A montanha dos sete abutres”, sobre o jornalismo. Mudou o estilo em “Sabrina”, “Quanto mais quente melhor”, “Se meu apartamento falasse”. A reputação dele cresceu mais após sua morte. Quando tinha 65 anos foi impedido de fazer filmes, porque os estúdios o achavam velho para liberar o seguro. Morreu aos 80 anos.

Os Três Patetas. Entre 1940 e 1950. Comédia baixa o tempo todo. Chute na bunda, dedo no nariz. Usavam a brutalidade e a violência. Hoje já faz mais sentido.

Jerry Lewis e Dean Martin. Jerry fazia quase o débil mental. Dean, roteirista de Pernalonga, era o mais querido do público. Jerry não era muito aceito em Hollywood, mas virou diretor e construiu a fama nos estúdios. No filme “O terror das mulheres”, usa a orquestra de Harry James, preferida de João Máximo.

A comedia dos anos 70. Mais sofisticada do que no passado. Ousavam muito mais. Woody Allen, óculos, tímido, personagem indefinido e exteriores a ele, incorporou o ser do que interpretava e tornou-se um. Os melhores filmes são quando começou a filmar em NY. Ele, em seus 80 filmes, usava o intelecto das mulheres, escritores e artistas. Dá para fazer uma palestra só com as traduções de título de cinema”.

“Tenho que terminar, porque a partir de agora não sei mais nada”, a plateia gargalha. “Não vou mais ao cinema. As pessoas dizem que tenho que ver Avatar. As pessoas falam, mas ninguém vai me obrigar a ver. Sou um alienado que achava que Chitãozinho e Xororó eram um casal de homem e mulher. O mesmo homem da plateia grita “Guerra ao terror, horroroso”. Ruy segue dizendo “Só leio Balzac. Quando se vai ao cinema, parece que está vendo televisão, cheio de propagandas. Comendo pipoca parecendo que a pipoca fosse acabar naquele dia. A minha peça estreia sexta no Teatro João Caetano”.

Ruy Castro (Caratinga-MG, 27 de fevereiro de 1948) é um jornalista, tradutor e escritor brasileiro, reconhecido pela produção de biografias e reportagens extensas que vieram a se desenvolver na qualidade de livro-reportagem. A partir de suas obras, consagrou-se como um dos escritores brasileiros mais respeitados da atualidade.

Além da literatura de não-ficção, Ruy Castro já publicou ficção, como o livro de literatura juvenil, O Pai que era Mãe, e adaptações para as histórias de Frankenstein, de Mary Shelley, e Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll. É autor das biografias de Nelson Rodrigues, Garrincha e Carmen Miranda. Nasceu na mesma cidade do cantor Agnaldo Timóteo, do cartunista Ziraldo e da jornalista Miriam Leitão.

Obras publicadas

1990 – Chega de Saudade: A história e as histórias da Bossa Nova
1992 – O Anjo Pornográfico: A vida de Nelson Rodrigues
1994 – Saudades do Século XX
1995 – Estrela Solitária: Um brasileiro chamado Garrincha
1999 – Ela é Carioca
2000 – Billac Vê Estrelas
2001 – O Pai que era Mãe
2001 – A Onda que se Ergueu no Mar
2003 – Carnaval no Fogo
2004 – Flamengo: Vermelho e Negro
2004 – Amestrando Orgasmos
2005 – Carmen: Uma biografia
2007 – Tempestade de Ritmos
2007 – Era no tempo do rei: Um romance da chegada da corte

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