Hamnet: A Vida Antes de Hamlet
O Fantasma do Pai
Por João Lanari Bo
Telluride Film Festival 2025
“Ó, toda essa hoste do céu! Ó, terra! Que mais?
E acoplarei o inferno? Oh, vergonha!
Aguenta, meu coração, E vós, meus músculos, não envelheçam de súbito,
Mas me sustentem firmes. Lembrar-te?
(Ato I, Cena V de Hamlet, tradução Geraldo Silos)
“Hamnet: A Vida Antes de Hamlet” – a proximidade dos nomes, Hamnet e Hamlet, pode parecer um ato falho freudiano, mas não é – os dois poderiam ser usados indistintamente. Ato falho é a versão brasileira do título, que acrescenta uma explicação redundante, liquidando a dúvida da proximidade linguística. “Hamnet” é o romance de Maggie O’Farrell, sucesso de público e crítica, traduzido no Brasil como “Hamnet”, simplesmente – Maggie escreveu o roteiro com a diretora do filme, a chinesa Chloé Zhao: Sam Mendes e Steven Spielberg produziram.
Wiliam Shakespeare é desses territórios míticos da literatura universal que poucos, muito poucos, conseguem equiparar-se. Claro, se não tivesse escrito em língua inglesa, talvez não chegasse a tanto, mas…historicamente situado na transição renascentista do século 16 para o 17, o bardo fundiu tradição de textos latinos, bíblia, folguedos de amor e anarquia, além de escaramuças de poder mais ou menos contemporâneas – para criar um conjunto único de peças e poesia, algo que resiste mesmo no turbilhão digital em que transitamos. Transformá-lo em personagem, inseri-lo em um fluxo de ações e reações, digamos, humanas, é um ato de audácia criativa, que Zhao e Maggie não se esquivaram.
Audácia que começa, como é sabido, pelas escassas informações sobre a família de Shakespeare, e pelas incontornáveis dúvidas que cercam o assunto. A dimensão de pesquisa sobre o poeta não tem par na academia, sendo os textos, também objeto de inquirição em si mesmos, a fonte primária. Na vida civil, as lacunas se avolumam: sabe-se que em 1582 William Shakespeare, então com 18 anos, casou-se com Anne Hathaway, de 26 anos, que estava grávida de sua primeira filha, Susanna. Três anos depois, nasceram os gêmeos Judith e Hamnet: em 1596, quando tinha apenas 11 anos, Hamnet morreu. Quatro anos depois, nascia “Hamlet”. E é só.
A escritora, naturalmente, admite uma tal escassez – ninguém sabe, por exemplo, se Anne sabia ler e escrever. Mas aventurou-se. Em “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet”, Anne – ou Agnes, como é chamada por sua família – é uma personalidade determinada, suspeita de ser “filha da floresta”, dedicada ao seu falcão de estimação, colhendo ervas e fungos para suas poções. Jessie Buckley, a atriz, consegue dar vida ao mito, e Paul Mescal, o William tutor de latim tentando desvencilhar-se do pai autoritário, responde com atuação à altura. Agnes, decidida e altruísta, concorda com a partida do marido para Londres: o que importa era o autor Shakespeare e sua arte. William não está presente quando ela dá à luz os gêmeos, Hamnet e Judith. Apesar disso, uma infância feliz para os filhos, mesmo com as longas ausências do pai.
Tantas licenças dramáticas e a narrativa cai – em alguns momentos, a despeito da excelência dos cenários e dos atores, estamos em uma biopic típica da BBC. É quando entra em cena a proposta mais audaciosa do filme: relacionar a morte de Hamnet ao processo criativo, e doloroso, da escritura de “Hamlet”. O gancho para uma tal especulação veio com o ensaio publicado em 2004, “A Morte de Hamnet e a Criação de Hamlet”, do crítico literário Stephen Greenblatt. Hamnet e Hamlet, o ato falho, nomes intercambiáveis, estaria na origem da inspiração shakesperieana: se o filme não resolve o mistério, aprofunda-o e adiciona um páthos sedutor a olhos e ouvidos modernos.
A hipótese de Greenblatt parece não ter entusiasmado os exegetas da vida e obra do bardo – sobretudo os mais ortodoxos. Mas sem dúvida elevou “Hamnet: A Vida Antes de Hamlet” a um patamar diferenciado dentro da narrativa fílmica. Agnes vai ao Globe Theatre acompanhar a estreia de “Hamlet”, onde uma floresta, sombria e farsesca, aguarda o jovem Hamnet (Jacobi Jupe) – uma narrativa que é a vivência emocional da morte do filho, editada com maestria pela dupla de montadores, a diretora Zhao e o brasileiro Affonso Gonçalves.
Nesse momento Hamlet, interpretado na peça dentro do filme pelo irmão mais velho de Jacobi, Noah, declama os versos hamletianos, e William, representando o pai-fantasma de Hamnet, espreita ao fundo.
PS. Completando a cegueira da distribuidora, a tradução para os subtítulos das falas teatrais de Hamlet parece ter sido feita com Google translator, descoloridas e amorfas. Não chega a derrubar o filme, mas é lamentável.


