Habemus Papam

Habemus Nanni Moretti

Por Fabricio Duque

Só mesmo o diretor italiano Nanni Moretti para trazer o questionamento religioso por meio da picardia sutil da psicanálise. Imagine a cena! Um Papa prestes a ser coroado, descobre-se em crise existencial, questionando o verdadeiro eu e discorrendo sobre os conflitos do real querer e da necessidade social – e “profissional”. O que o diretor faz é desmistificar a Igreja Católica, humanizando a figura dos sacerdotes, dizendo que há um homem, uma figura individual palpável, por trás da “construção santíssima”, pela ironia das problemáticas do mundo, desembocando numa crítica social intransigente, de deboche ingênuo e de um perspicaz comportamento adolescente. Há vigor e inteligência. Há discussão de teses com racionalidade contemporânea, respeitando o tempo que cada um leva para absorver novidades e inovações, tanto com o espectador, quanto os personagens participantes da trama fictícia. A fim de entender o humor presente em “Habemus Papam”, é necessário conhecer a forma interpessoal dos italianos. É um povo que fala com as mãos, que diz o que pensa, que expressa reações vitimadas, que reclama exageradamente quando algo não está satisfatório, e que segue à risca os preceitos católicos. São puros, mas não idiotas. E não esquecem, nunca, quem são na essência. O roteiro “cutuca” o que está quieto. Após a morte do Papa, o conclave do Vaticano se reúne para escolher seu sucessor. Após várias votações e uma falta de luz, que gera tombos dos cardeais, enfim há um eleito. Os fiéis, amontoados na Praça de São Pedro, aguardam a primeira aparição do escolhido (Michel Piccoli, de “Sempre Bela” e “Espelho Mágico” do cineasta português Manoel de Oliveira; “A Pequena Lili”), mas ele não vem a público por não suportar o peso da responsabilidade. Tentando resolver a crise, os demais cardeais resolvem chamar um psicanalista (Nanni Moretti, o nosso diretor em questão aqui, de “O Quarto do Filho”, “Caos Calmo”, “O Crocodilo”, “Caro Diário”) para tratar o novo Papa. Está formalizada e instaurada a terapia, visando ajudar o protagonista, mas estendendo, inevitavelmente, a Igreja como um todo, questionando regras, tradições e limitações, mesclando o exagero paspalhão e o tédio existencial, este último, primordial a própria salvação da instituição milenar.

Em “Habemus Papam”, os medos, os anseios e os desejos de continuarem apócrifos pululam a mente destes homens cardeais. “Não me escolha para ser Papa”, transfere pensamentos em reflexões audíveis, captados apenas por quem assiste, no caso nós e Deus. A sutileza da crítica atinge aos meios midiáticos, quando um jornalista despreparado, ao vivo, perde-se nas palavras, explicitando o desconforto e a inaptidão de realizar a cobertura vista com futilidade. O Conclave é a reunião em clausura muito rigorosa dos cardeais durante a eleição do Papa, que permanecem incomunicáveis com o exterior até um Papa ser escolhido. Quando a votação chega ao fim, os outros aplaudem por alivio, enquanto é visível o olhar em um misto de excitação e preocupação do Sumo Pontífice, que se acovarda pela tamanha responsabilidade. Nanni retira a pompa, o glamour, e procura pela base, pela causa, pela naturalidade e pelo estado intrínseco, tanto das ações, quanto dos olhares interpretativos, nos mostrando que é só retirar a roupa para que sejamos iguais. Mas a Igreja precisa continuar sendo Igreja, então a manipulação necessita acontecer. É dar ao povo a fantasia, contornando a situação com alterações de evidências. A psicanálise retira o poder do Papa a fim de trata-lo. Há o diálogo sobre limitações terapêuticas, que é fantástico e genial. “Quanto posso falar da infância?”, “Pouco, quase nada, e com muita discrição”. Mesmo assim, o terapeuta personagem descobre como tentar salvar os outros. Ele percebe os problemas reais dos cardeais, e resolve estimular por brincadeiras, jogos (como o voleibol), academia, quebra-cabeças e ensinamentos sobre soníferos, antidepressivos e ansiolíticos, retratando o que são quando retiram a “roupa”, e gerando a felicidade, a diversão e o bem-estar.

Uns fumam, outros gritam como forma de catarse e punição. São pessoas comuns e normais. “Habemus Papam” comporta-se como um documentário ficcional, trabalhando a mitigação da vergonha pela explosão do medo. Se só fosse isso, já seria muito, mas o cineasta deseja transcorrer outras metafóricas, como o real querer, de atuar, ser um ator, do suposto Papa. Com o intuito de autodescobrimento, foge, causando “sinusite psíquica”, porque ser o que pretendem que ele seja é ser solitário, estar em solidão, recluso, sem pessoas. Resolve, então, passear pela cidade, assim como Cristo, encontra a irritação, solidariedade, a ajuda dos outros. “Às vezes, quebrar o protocolo é bom”, sentencia-se. Enquanto isso, Nanni, ou melhor, o personagem terapeuta, alfineta a bíblia e recebe a replica. “O Senhor, por sentido profissional, vê depressão em todo lugar”, dito quando traduz do livro sagrado “Senso de culpa, perda de peso, pensamentos suicidas”, é tão sarcástico, que denota o radicalismo do humor negro. É “vulnerável e de forma narcisista excepcional”, libera a verborragia sobre a estrutura política e atual do mundo. “Papa é um ator que não foi convocado”, resume-se. O final busca o cotidiano, o dia-a-dia, um complemento com o hoje (de se estar lendo esta opinião, agora, como exemplo). Concluindo, “Habemus Papam” é um filme único, que analisa o papel da Igreja perante seus integrantes, os colocando como humanos, e logicamente, os igualando a mim e a você. Seria polêmico, se não fosse sutil. Há inteligência, perspicácia, competência. Estes adjetivos tornam, permitida, a abordagem realizada pelo diretor italiano inquieto. Vale à pena assistir. Imperdível! Indicado à Palma de Ouro do Festival de Cannes 2011. Indicações de Melhor Ator – Michel Piccoli e Melhor Cenografia no European Film Awards 2011. Orçamento estimado de 9 milhões de euros.

Trailer

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *