Guará

Um Lobisomem brasileiro

Por Pedro Guedes

Durante a Mostra Sesc de Cinema 2019

O Lobisomem é um folclore conhecido internacionalmente. Participou de histórias contadas ao longo de séculos, inspirou centenas de obras cinematográficas, foi vivido por um monte de atores e marcou até uma presença ilustre no clipe “Thriller”, de Michael Jackson. O Lobisomem, portanto, é de todos. O lobo-guará, por outro lado, é latino-americano. Só isto já torna interessante o fato de um filme brasileiro sobre Lobisomem se chamar “Guará” – e o curta-metragem propriamente dito se diverte ao readaptar um monstro tão clássico para o contexto de Goiânia em pleno Século XXI.

Escrito, dirigido e montado por Fabrício Cordeiro e Luciano Evangelista, “Guará” se passa em uma única madrugada e acompanha os ataques feitos por um sujeito que, diante da lua cheia, se transformou em uma criatura peluda, selvagem e sedenta por sangue e carne humana. Sim, estou falando do Lobisomem (ou, caso prefiram, do “Lobo-Guarásomem”). Bebendo um pouco na mesma fonte de “As Boas Maneiras”, de Juliana Rojas e Marco Dutra, este curta-metragem se sai bem ao construir uma atmosfera imprevisível e incômoda – mesmo que, a rigor, o filme em si não tente necessariamente assustar o espectador, preferindo, em vez disso, deixá-lo apreciar o exercício de gênero criado por Cordeiro e Evangelista.

De um ponto de vista técnico, aliás, “Guará” acerta ao manter o Lobisomem mergulhado em sombras e enfocado através de sugestões na maior parte do tempo: um plano-detalhe de sua boca aqui; uma imagem de uma de suas vítimas gritando ali; um rugido acolá; nada muito explícito (e nota-se o esforço da produção em retratar o personagem da forma mais convincente possível, indo aos limites do que é permitido pelo orçamento). Infelizmente, nos minutos finais da projeção, Cordeiro e Evangelista empregam um plano abertíssimo e longo (deve durar uns cinco minutos) que mostra o Lobisomem da cabeça aos pés, deixando o espectador vê-lo com todos os detalhes e percebendo as limitações de sua caracterização, o que é meio risível.

Ainda assim, é curioso – e promissor – que cineastas brasileiros demonstrem tamanho interesse em produções de gênero. Vejamos o que será daqui para frente.

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