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Garra de Ferro

Maldição nos ringues

Por Pedro Sales

Garra de Ferro

“Desde pequeno, diziam que minha família era amaldiçoada. E não sei se eu e meus irmãos acreditávamos nisso, mas coisas ruins aconteciam. Mamãe tentou nos proteger com Deus. Papai, com a luta livre”. A frase que inicia “Garra de Ferro” sintetiza toda a trajetória da família Von Erich em tela: uma história de maldição e luta livre. É por meio dessa mescla, aliada a um tom familiar muito bem delimitado pela união dos irmãos, que o diretor Sean Durkin adapta a maior tragédia familiar nos ringues das lutas dos Estados Unidos. Com uma condução bastante consciente do caráter performático dessa luta-espetáculo e do drama inerente aos personagens, o cineasta lida muito bem com uma narrativa clássica fatalista, de ascensão e queda, de sucessos e perdas. Quanto vale abdicar de quase tudo pelos cinturões? Esta é uma questão que paira a todo momento na rodagem.

Fritz Von Erich (Holt McCallany), famoso lutador de luta livre durante a década de 60, passou tal paixão para os filhos. Do mais velho, Kevin (Zac Efron), ao mais novo, Mike (Stanley Simons), todos lidam com a pressão paterna para manter o legado nos ringues. Os irmãos extremamente unidos possuem no íntimo dois grandes desejos: conquistar um cinturão de campeão mundial para família Von Erich e orgulhar o pai. O que poderia ser uma bela historia de superação e honra às raízes, como em tantos outros filmes esportivos em que o pai é mentor profissional-emocional, neste longa essa noção é subvertida. O tom sombrio que invade a família como uma maldição inescapável abala a estrutura familiar, evidenciando fragilidades e dando vez às lágrimas em detrimento da alegria e união anterior. Mesmo com sucessivas desgraças que acometem a família, a figura paterna nunca cessa desse caráter impositivo de quem força os demais até os limites, sejam físicos ou emocionais.

Neste sentido, “Garra de Ferro” se apresenta como um estudo sobre a paternidade e, por extensão, a masculinidade. O sempre sisudo Holt McCallany (“Infiltrado”) dá alma a um pai que se importa apenas com o sucesso, até hierarquizando os filhos em uma lista dos mais queridos, mas deixando claro que a ordem pode mudar. Em um discurso que reforça símbolos de masculinidade ele diz aos filhos que chorar é demonstrar fraqueza, mesmo diante de uma grande perda. Ele incentiva a competição, vista como necessária, seja na luta ou no futebol americano no quintal. Coleciona armas e rejeita tudo que não é masculino suficiente, como a preocupação de Mike com os ângulos de câmera durante a transmissão das lutas. É interessante, inclusive, como Mike é o que mais se afasta do ideal paterno de afeição. Não tão musculoso e ligado à música, ele é deixado de lado em relação aos irmãos, ocupando o fim da lista de afinidade. Os outros bebem cerveja nas refeições, ele, leite. Há apenas uma cena em que ele consome cerveja. Mas até ele se rende ao maior símbolo de masculinidade: a luta livre, o wrestling.

A grande questão da direção de Durkin para ambientar o espectador neste universo tão próprio do wrestling é a compreensão da mística e da performance por trás do esporte, da coreografia às provocações e discursos. O plano inicial do longa mostra um ringue em preto e branco para depois fundir o plano com os golpes. É como se ele apresentasse o palco de um teatro, onde tudo pode acontecer do dramático ao cômico. Da câmera na mão quando Kevin é atirado ao chão, em que a contagem é grande indutor de tensão, à performance coreografada-sincronizada do irmão mais velho com David (Harris Dickinson) e Kerry (Jeremy Allen White) ao som de “Tom Sawyer”, do Rush, Durkin demonstra a amplitude que a luta-espetáculo pode assumir. Contrastando a ação de golpes plásticos em câmera lenta – que com certeza vão agradar os fãs de luta – com o drama familiar – os irmãos que se fundem pela montagem dividindo as mesmas dores -, o filme mantém um controle tonal bastante acertado. É uma obra que consegue colocar um sorriso no rosto por meio da interação dos irmãos ou pelas lutas com a mesma facilidade que emociona pelos eventos, sobretudo apoiado na atuação de Zac Efron (“Ted Bundy”). Lançado em High School Musical e famoso por comédias besteirol, o ator tem a performance de sua carreira vivendo um homem que lida com perdas, o desejo de corresponder às expectativas do pai e de proteger a esposa Pam (Lily James) e os filhos da maldição que parece tomar conta da família.

Portanto, “Garra de Ferro” trata-se de um filme que dialoga muito bem com a ação advinda da luta livre, desde a coreografia à teatralidade excessiva no balé violento de corpos. e com a dramática trajetória de ascensão e queda que permeia os Von Erich. O diretor para contar tal história se vale do uso do fatalismo. É como se o destino já tivesse marcado aquela família, tal qual uma maldição de oráculo de tragédia grega. Como um Sófocles moderno, Durkin consegue trazer esse teor metafísico em que a racionalidade não parece ser capaz de explicar o porquê dos fatos se desenrolarem deste jeito. O uso deste dispositivo e da força do destino acrescentam ainda mais dramaticidade à narrativa, que por si só já é bastante emotiva, como na cena do reencontro. Por fim, a pressão paterna que parece infectar todos os filhos com um desejo excessivo pelo sucesso, materializado em um cinturão, é enfraquecida conforme toda essa competitividade parece não ter nenhum sentido, sequer para suprimir o vazio da perda. Da mesma maneira, a masculinidade agressiva deixa de ser determinista e compartilhada a partir do momento em que a nova geração afirma que, sim, homens podem chorar.

4 Nota do Crítico 5 1

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