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Ficha Técnica

Direção: Joann Sfar
Roteiro: Joann Sfar
Elenco: Eric Elmosnino, Lucy Gordon, Laetitia Casta, Doug Jones, Anna Mouglalis, Mylène Jampanoï, Sara Forestier, Claude Chabrol
Fotografia: Guillaume Schiffman
Música: Olivier Daviaud
Figurino: Pascaline Chavanne
Edição: Maryline Monthieux
Produção: Marc Du Pontavice, Didier Lupfer
Distribuidora: Imovision
Estúdio: Studio 37, Universal International Pictures, France 2 Cinéma, Canal+, France Télévision, Orange Cinéma Séries, One World Films, Lilou Films, Xilam, Uni Etoile 6, Région Ile-de-France
Duração: 130 minutos
País: França / Estados Unidos
Ano: 2010
COTAÇÃO: MUITO BOM

A opinião

“Você conhece a música, mas você conhece o homem?”, com essa frase, a campanha de marketing do filme “Gainsbourg – O Homem que Amava as Mulheres” fornece o tom à história do cantor francês Serge Gainsbourg, que é mergulhada em traições, transgressões e liberdades. Ele nasceu em Paris, filho de judeus russos que haviam emigrado para a França, fugindo da revolução de 1917. O pai era pianista e tocava em clubes da cidade. O filme é extremamente cuidado em sua parte técnica e narrativa, que mescla fantasia com realidade, surrealismo com epifania. O longa-metragem fica ainda mais interessante quando se sabe que quem está atrás da direção é um judeu considerado um dos mais importantes artistas por escrever histórias em quadrinhos com grande quantidade de informações históricas e teológicas. Joann Sfar escreveu e dirigiu o filme em questão, inserindo a atmosfera de seus quadrinhos. O diretor quer o lado mais humanizado do protagonista, enaltecendo características físicas, como a orelha e o nariz grandes. Logo no início, o roteiro busca a reação de choque da plateia ao mostrar Lucien Ginzburg (o seu verdadeiro nome) fumando em uma praia. Em outra cena, ele negocia cigarros com os soldados, a fim de conseguir a estrela judaica. “Insolente”, diz-se sobre nosso personagem. Ele manipula tudo e todos a fim de conseguir os seus quereres. O pai pianista o obriga a acertar as notas, Lucien o enfrenta.

“Ele toca melhor à noite”, diz o patriarca da família não se dando conta que ao lado de seu filme encontra-se um amigo imaginário, que o ajuda a tomar decisões. Era pintor de flores, mas queria retratar mulheres nuas. Ele sabia exatamente o que queria, tinha noção perfeita do que fazer. Por conta disso, transpassava a aura de prepotente e blasé. “A música não é para sua idade”, “Não tem idade para malandragem”, rebate quando canta uma música proibida em um bar envolto a muitas prostitutas, levando todos às gargalhadas. Na escola desenhava pêlos pubianos de mulheres. “Um sovaco peludo. Você é um caipiria mesmo”, sobre o gosto de seu colega. Ele transgredia as regras a todo instante, citando “O Último dos Moicanos”. A fotografia do filme é um show à parte, tendo inúmeros estilos e técnicas. Como por exemplo, na cena do jardim, é viva e deseja ser um quadro, na cena da banheira, a luz incidental dá o tom sensual, com velas que complementam a plenitude do olhar. Tudo é contrastado com a imagem seca e apagada dos passeios infantis na praia. Caminha entre o limite tênue da realidade e da fantasia. Entre a infância e a maturidade (o estado adulto). Este também utilizado na narrativa, que intercala períodos temporais por intermédio de elipses. “Baudelaire logo cedo?”, diz-se com Charles Aznavour na vitrola. Até o seu amigo imaginário modifica-se ao passar do tempo, torna-se adulto. De fofo a comum.

“Todo escritor tem um diabo. Um duplo”, diz-se. O olhar confiante faz de Serge Gainsbourg (o seu nome artístico) vivenciar o seu ser como único, sem tentativas de agradar aos outros. Isso contribuiu para que namorasse mulheres bonitas e famosas, como Juliette Gréco, Brigitte Bardot, casando-se com Jane Birkin, mãe da sua filha Charlotte Gainsbourg, e que participa do sucesso “Je t’aime moi non plus”, música que havia sido composta originalmente para Brigitte, mas ela, insegura com o escândalo que a música poderia causar (e certamente causou), preferiu não lançar o dueto. A música é de 1976 (mesmo ano de nascimento desse que vos escreve), período que mundo questionava os efeitos da maconha e os julgamentos nazistas. “É preciso sacrificar as coisas”, diz quando frequenta guetos e submundos. “É da natureza humana insistir”, sobre a curiosidade. “De perverter a juventude eu gosto”, defini-se. “Você tem medo ou eu a intimido?”, sobre a sinceridade do flerte. Ele assume as suas “imperfeições” físicas. Ao fazer isso, conhece as limitações, não se importando com julgamentos. A confiança dele era sem limites, nada o impedia de buscar os seus desejos. Entregava-se de corpo e alma, da mesma forma que saia de um relacionamento que não mais o interessava. Ele foi a Jamaica, fez músicas políticas por lá, aprontando lá também. O filme finaliza com “Trago-lhe de volta por suas mentiras”, fornecendo ao espectador a dúvida de que o que se viu pode ser realidade e ou fantasia. Concluindo, um filme incrível, com uma fotografia arrebatadora, misturando epifanias e transgressões. O diretor não suavizou a vida de Lucien, fez bem, porque deu veracidade narrativa. Acreditamos e nos convencemos da história apresentada. Vale muito a pena assistir. Recomendo. Eric Elmosnino venceu a categoria de Melhor Ator no Festival de Tribeca.

Na foto: o verdadeiro Serge Gainsbourg.

Curiosidades de Bastidores

A intenção original de Joann Sfar era que Charlotte Gainsbourg, filha de Serge Gainsbourg, interpretasse o pai no filme. A atriz até aceitou a proposta mas, seis meses depois, desistiu do filme por ser doloroso demais interpretar o próprio pai. Sfar estava prestes a desistir do filme quando conheceu Eric Elmosnino, que ficou com o papel. A atriz Lucy Gordon, intérprete de Jane Birkin, faleceu quando o filme estava em pós-produção. Gainsbourg é dedicado a ela. Foi o último filme que Claude Chabrol esteve envolvido. Ele interpreta o produtor musical de Serge Gainsbourg. Chabrol faleceu em 12 de setembro de 2010. As filmagens ocorreram entre 19 de janeiro e março de 2009. A abertura em animação foi desenhada pelo próprio Joann Sfar. A cena em que Gainsbourg pergunta a France Gall se queria compor com ele uma “canção suja” sobre uma garota chupando pirulitos é um referência a “Les Sucettes”, composta por Gainsbourg e Gall em 1966. O filme foi o único a receber o apoio de sua família.

O Diretor

Joann Sfar, nascido 28 de agosto de 1971 em Nice, é considerado um dos mais importantes artistas da nova onda de quadrinhos franco-belga . Muitos de seus quadrinhos foram publicados por L’Association que foi fundada em 1990 por Jean-Christophe e seis outros artistas. Ele também trabalhou em conjunto com muitos dos principais artistas do movimento novo, David B. e Lewis Trondheim. Alguns de seus quadrinhos são inspirados por sua herança judaica como o filho de judeus (um Ashkenazi mãe e um sefardita pai). Suas principais influências são Fred e André Franquin, Marc Chagall, Chaim Soutine, Will Eisner, Hugo Pratt e John Buscema. De 2009 a 2010, Sfar escreveu e dirigiu “Serge Gainsbourgh: Une Vie héroïque”, uma cinebiografia do compositor francês famoso, de quem ele é um fanático confesso. O filme foi aclamado pela crítica em geral.

“Como muitas crianças francesas, quando vi pela primeira vez na televisão Serge Gainsbourg Encontrei-o engraçado. Quando criança, eu só iria vê-lo como um homem bêbado que disse palavras rudes – e eu estava grato por isso. Ele é o tipo de homem que faz você acreditar que seria divertido ser um adulto. Um judeu russo que falava 10 idiomas, que treinado para ser um rabino, mas cuja ocupação principal era fazer sexo, dizendo palavras rudes e me ensinando coisas”, disse o diretor de 38 anos.

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