Future Lasts Forever

Perda e Memória

Por João Lanari Bo

Mubi

Ozcan Alper é um diretor e roteirista turco, descendente dos Hemichis – pessoas de origem armênia, originalmente cristãos e membros da Igreja Apostólica Armênia, mas que ao longo dos séculos se converteram ao Islã sunita, após as conquistas dos otomanos durante a segunda metade do século 15. Seriam cerca de 50 mil na Turquia e 100 mil espalhados pelo mundo, sobretudo Geórgia e Rússia. Oriundo de uma região do mundo onde as camadas arqueológicas projetam uma permanência premente e instável do tempo – a qualquer momento pode ocorrer uma tragédia – Alper realizou em 2011 um longa-metragem, seu segundo, em que nada, ou quase nada, acontece: mas que, em alguma camada subterrânea, muito pode acontecer, as acomodações são tectônicas. O filme, “Future Lasts Forever”, o futuro dura para sempre, conjuga um enredo simples – um possível encontro romântico em cima de uma perda amorosa – com o registro documental de vozes perturbadas e sofridas dos parentes de mortos e desaparecidos curdos, contando ou cantando suas histórias de desgraça, algumas recentes, outras preservadas em velhas gravações, com pano de fundo de fotografias individuais das vítimas.

Sumru (Gaye Gürsel), a protagonista feminina, é uma jovem etnomusicóloga de Istambul, também de ascendência Hemichi: viaja com um gravador, registrando elegias; também procura pegadas do antigo amante, de origem curda, desparecido há três anos. Seus gestos, aparência, e roupas são ocidentais. Viaja para Diarbaquir, bela cidade histórica a beira do rio Tigre, onde encontra Ahmet, curdo e cineclubista, cujo pai foi baleado em plena luz do dia – sem culpados ou incriminações. Conversam sobre “O Céu de Lisboa”, de Wim Wenders; ele imita Belmondo de “Acossado” no espelho. Falam de poesia, e compartilham o apreço por Andrei Voznesensky, poeta russo que foi uma das expressões da dissidência soviética. Juntos, pesquisam um arquivo de gravações dos parentes das vítimas, em sua grande maioria mortas ou desaparecidas nas décadas de 80 e 90, quando o PKK (Partido dos Trabalhadores do Curdistão) e o exército turco entraram em guerra aberta. Os curdos representam perto de 20% da população turca, entre 14 e 20 milhões de pessoas, predominantemente distribuídos no sudeste do país, onde desponta Diarbaquir – o restante está no Iraque, Síria e Irã, com total estimado em 30 milhões, talvez 35, ou mais. Dezenas de milhares desapareceram ou foram mortos nos reiterados ciclos de violência dos últimos 30 anos, desde conflitos por autonomia e resistência política até a luta pura e simples pela sobrevivência, como ocorreu durante a emergência do grupo terrorista ISIS – Estado Islâmico do Iraque e da Síria – entre 2014 e 19.

Não é uma vida fácil. Como se não bastasse a repressão que sofre nos diferentes países, as guerras na região são uma constante, e o povo curdo fica no crossfire. “Future Lasts Forever” pode ser lido como esforço para propagar a denúncia do massacre turco, um filme político no sentido mais imediato: a leveza das situações, a câmera suave e a luz melancólica contribuem, entretanto, para relativizar o aspecto explícito da denúncia, sem que com isso se dilua a gravidade das acusações. Não há cenas de violência, mas há um testemunho eloquente do apagamento histórico perpetrado. Os curdos, considerados um povo “apátrida”, têm até mesmo o status de etnia sob ameaça de extirpamento. Etnia: coletividade de indivíduos que se diferencia por sua especificidade sociocultural, refletida principalmente na língua, religião e maneiras de agir. Durante muito tempo o ensino e difusão da língua curda foram proibidos: entre 2009 e 15, não obstante, prevaleceu uma certa distensão política entre as autoridades da Turquia e a minoria curda, fato que permitiu, entre outros, a produção e distribuição de “Future Lasts Forever” – o filme não foi censurado nem impedido de circular em festivais internacionais. Depois de 2015, sobretudo com a desestabilização regional na Síria e no Iraque em função das ações terroristas do ISIS, das quais os curdos foram um dos principais alvos, a situação voltou a ficar tensa. Em paralelo, a censura, moral e política, voltou a apertar.

A Turquia, país moderno e secular, historicamente complexo, tem nos curdos a sua principal alteridade interna. Quando “Future Lasts Forever” se encaminha para o final – Sumru e Ahmet partem em direção a Hakkari, província perto da fronteira com o Iraque e o Irã, não longe da Síria – as paisagens são deslumbrantes, malgrado a tensão dos checking points e helicópteros. Nesse momento, prevalece a viagem interior dos personagens, e o futuro dura para sempre.

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