Frantz Fanon – Black Skin, White Masks

Uma Brancura que queima: Frantz Fanon como teórico e homem

Por Roberta Mathias

Nascido em 1927, na  Martinica, terra caribenhas sob domínio francês, Frantz Fanon foi um importante psicólogo e teórico do pensamento decolonial se destacando principalmente em sua luta pela independência da Argélia(que tomou como sua pátria). Resumindo dessa forma, parece que a vida de Fanon, cuja leitura foi retomada nos últimos anos pelas mais diversas áreas de estudos que se voltem ao pensamento decolonial e afrodescendente,  foi simples e linear.

“Frantz Fanon – Black Skin, White Masks”, docudrama inglês lançado em 1997 e disponibilizado de ontem para hoje na plataforma Vimeo durante 24 horas pelo Instituto Goethe de Salvador, no entanto, mostra o contrário. Ao utilizar imagens e vídeos de arquivo depoimentos de referências nas áreas de estudos Culturais como Stuart Hall e Homi Bhabha, além de parentes, o diretor Isaac Julien permite-se também aventurar-se por uma linguagem poética na qual inclui encenações de momentos importantes da vida de Fanon e também metáforas sobre a luta interna que ele vivia.

Fanon vinha de uma família interracial e acabou casando-se com a francesa branca Josie Fanon. Essas informações poderiam não ter a menor relevância para alguns , no entanto, o próprio Fanon tinha suas dúvidas entre as possibilidades de relações entre negros e brancos que superassem o colonialismo. Apesar de ser amigo do casal Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir. Mais do que pensar de um modo simplista essas relações estabelecidas por Fanon, podemos , de maneira mais produtiva, entender que ,assim como seu pensamento, sua vida foi muito complexa. O psiquiatra Fanon se sentia solitário em sua luta por uma psiquiatria que humanizasse os pacientes e, logo, entende que ,de alguma forma, esse incomodo de não pertencer a somente a uma pátria ou não se sentir pertencente de apenas uma cultura o coloca em um lugar de inconformidade de uma maneira diferente, porém semelhante ao que trata cotidianamente.

Fanon se angustia e por diversas vezes tenta se enquadrar no padrão francês até entender que esse não é o seu lugar de luta e pertencimento. “Frantz Fanon – Black Skin, White Masks”, nome que dá título a esse docudrama vem do livro Pele Negra, Máscaras Brancas, de 1952. Escrito por um jovem Fanon que procurava entender as repetições de certos olhares e rejeições do corpo negro, escondidos por traz de um desejo pelo diferente, é entendido por Stuart Hall como uma própria maneira que Fanon elaborou para lidar com seus sentimentos conflitantes. Obviamente, Hall não reduz o livro somente a isso, mas o entende como isso também.

Muito tem se falado sobre Fanon desde a década passada e seus estudos publicados em português geraram uma série de antropólogos, filósofos , sociólogos, literatos e ativistas que trabalham com e sobre o pensamento de Fanon. O interessante do filme de Julien é que ele não coloca Fanon em um pedestal. Algumas de suas teorias são sutilmente debatidas e respeitosamente repensadas pelos teóricos que participam do filme, mas ao ouvir o depoimento da família e dos amigos mais próximos chegamos perto do Fanon fronteiriço. Aquele que não encontrou seu espaço até que decidiu lutar vigorosamente pelo lado da Argélia no movimento de descolonização com a França. Foi na África que Fanon ,finalmente, achou seu lugar.

“Frantz Fanon – Black Skin, White Masks” mostra-se cansativo durante algumas encenações ,recurso que considero de difícil utilização em filmes documentários. Algumas sequências simbólicas são repetidas em exaustão, o que nos faz indagar se o diretor imagina que não entendemos sua referência ou se é, simplesmente, parte de sua linguagem. Em pouco mais de uma hora do filme, ficamos com a impressão de que ele poderia ter explorado melhor os arquivos ou depoimentos. De qualquer maneira, isso não diminui de forma alguma a importância do filme.

Ao trazer o Fanon homem e não somente o Fanon símbolo da luta racial e decolonial, podemos compreender melhor algumas de suas costuras e decisões de escrita. Afinal, um teórico dessa envergadura não poderia ter vivido sem seus conflitos internos, ainda mais se considerarmos a época e o território pelo qual decidiu lutar. O melhor de “Frantz Fanon – Black Skin, White Masks” para aqueles que desejam pensar as reflexões de Fanon ,certamente são os depoimentos dos demais teóricos sobre sua obra, pois abrem- pelo menos para mim, abriram- novas maneiras de se entender a obra do estudioso. Para aqueles não são tão afinados ao pensamento decolonial , porém que têm interesse, talvez a maneira como diretor consegue passar um Fanon brilhante, porém como homem comum, seja o destaque. Parece-me o  momento de nos agarramos à ideia de que homens comuns também podem iniciar uma revolução.

O vídeo será exibido por 24h dentro da Mostra Perspectivas Vila Sul do Goethe-Institut Salvador-Bahia: das 18h de 11/05 às 18h de 12/05. Assista ao filme AQUI

Trailer

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    Olá Roberta, Adorei seu texto. Parabéns !
    Agora, como faço para encontrar o filme?
    Tem alguma indicação? o link acima não funciona mais…
    Obrigado!

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