Fogo Contra Fogo

A Liberdade é uma Ideia

Por Jorge Cruz

Em uma sociedade que ainda debate até mesmo a necessidade de um Dia da Consciência Negra, o termo cunhado por Nelson Rodrigues como “complexo de vira-lata” por si só é extremamente problemático. Qualquer análise à luz da percepção pessoal trilha um caminho com grande potencial para se fundamentar em generalizações esdrúxulas, devendo ser de imediato repelida. “Fogo Contra Fogo“, biografia de Solomon Mahlangu (Thabo Rametsi) aporta nos cinemas brasileiras na semana do feriado de 20 de novembro com alguns fatos em sua bagagem. São a eles que devemos nos ater.

Como obra cinematográfica o longa-metragem da África do Sul segue o padrão estabelecido de filmes desse subgênero dramático. Partindo de duas linhas do tempo, a primeira mostra o julgamento do protagonista em 1977 por homicídio e a outra tem início antes dele decidir se tornar um militante na luta contra o regime do apartheid no ano anterior, período que teve como momento agudo o Levante de Soweto, em 16 de junho daquele ano.

Um primeiro ato de apresentação de personagens, com boa parte deles se inserindo didaticamente na trama de “Fogo Contra Fogo” – se encerrando na epifania social do protagonista que seria condenado à morte com apenas 21 anos de idade. O diretor Mandla Dude desempenha um papel bem seguro nas representações. Seu roteiro, ao lado de Leon Otto, evita a exploração do sofrimento e o melodrama. As humilhações sofridas por Solomon, à época das fricções sociais de 1976 um humilde vendedor ambulante, evita carregar nas tintas – o que acaba provocando sensibilização já que o processo de identificação e empatia se dá justamente pela sensação de que estamos sempre próximos de testemunhar episódios como aquele. Há alguns momentos em que a inserção em CGI de imagens no meio de um diálogo formal deixa o espectador transitando entre as intenções da cena – uma escolha estética não tão bem costurada, mas longe de ser comprometedora.

Quando no segundo ato o grupo ao qual se inclui o personagem foge para Moçambique, “Fogo Contra Fogo” sente o peso de ser bem expositivo. Todavia, esse talvez se torne o principal motivo para que a receptividade da produção no Brasil seja positiva junto ao público. Tal qual “Uma Noite de 12 Anos” em 2018, um processo de divulgação mais afetivo, trazendo o público-alvo progressista e politizado para os cinemas, permitirá que a passagem do longa-metragem dure um pouco mais nas salas das maiores capitais. A carga emocional de “Fogo Contra Fogo” não se compara ao filme sobre o uruguaio José Mujica, deixando quase que para os momentos finais todo o sentimentalismo que perpassa a obra de Alvaro Brechner. Para quem se opõe às causas defendidas pelo protagonista – não necessariamente por formação de caráter, podendo o benefício da dúvida chamar apenas de “não identificação” – o filme não deverá despertar interesse de pronto. Por isso, esforços para que o furo da bolha seja profundo talvez caia melhor aos serviços de streaming ou canais de TV – como a Netflix fez com a produção sul americana aqui citada.

Há na maneira como a história se desenvolve em Moçambique uma aproximação cultural do grupo de militantes ao qual fazia parte Solomon com o Brasil. O português como língua do colonizador oficializada permitiu que “Pedagogia do Oprimido“, obra-prima de Paulo Freire se fizesse presente, por exemplo. Ao protagonista é dedicado esses momento de leitura como cenas de transição. O educador e filósofo brasileiro, tão referenciado em estudos das áreas de humanidades ao redor do nosso redondo planeta, é posto ao lado do milenar “A Arte da Guerra“, por exemplo. Essa dupla referência bibliográfica nos faz voltar à questão inicial de “Fogo Contra Fogo”, aquela que menciona a valorização do olhar estrangeiro e da iconografia de outros povos. Talvez seja apenas no Brasil onde esses dois livros, recebidos quase como clichês da formação social de qualquer cidadão, parecem se opor: enquanto o livro de Sun Tzu é reembalado em novas criações editoriais, que vão do paramilitarismo à auto-ajuda, os escritos de Freire são capazes de despertar os instintos mais primitivos em determinadas pessoas, sem que seja possível uma fundamentação consistente para isso.

É irônico – ou não – que “Fogo Contra Fogo” seja lançado nos cinemas brasileiros no mesmo dia que deveria ficar marcado com a estreia de “Marighella” no país onde foi produzido. O filme dirigido por Wagner Moura segue campanha em mostras e festivais da Europa, enquanto a desculpa burocrática impede que os brasileiros assistam ao longa-metragem. O ato final da história de Solomon Mahlangu, que foca no julgamento ao unir as duas linhas do tempo, pode ampliar essa visão ainda colonialista da elite do país. A produção sul africana se faz valer do trabalho da Comissão da Verdade do país, que reconheceu nos final dos anos 1990 erro proposital de julgamento do biografado.

Os motivos são bem expostos pela obra cinematográfica, que ganha muita força em seu trecho final. Apresente com propriedade a tese de que a vida do negro é vilipendiada ao conflitar interesses do poder supremacista branco. Em um país onde essa política foi elevada à máxima potência, um filme como “Fogo Contra Fogo” escancarar tal atrocidade faz dele um produto digno de ser consumido em qualquer lugar do mundo. Ainda mais em um país que convive com julgamentos questionáveis e tenta promover o apagamento de um negro que se posicionou politicamente contra um regime de exceção.

 

Anuncie no Vertentes do Cinema

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *