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Flowers of Taipei: Taiwan New Cinema

O lugar mais perigoso da Terra

Por João Lanari Bo

Flowers of Taipei: Taiwan New Cinema

Flowers of Taipei: Taiwan New Cinema”, documentário realizado em 2014 sobre o notável surto de cinema nos anos de 1980 no país insular asiático, vai fundo – e mapeia o advento de uma nova mirada cinematográfica que se espalhou pela região. A afirmação pode parecer desproporcional: em torno da minúscula Taiwan, geográfica e historicamente, estão o colosso China e o infatigável Japão, duas potências mundiais. Mas o new cinema taiwanês não se fez de rogado e influenciou alguns dos melhores cineastas desses e outros países, que não hesitam em prestar seus depoimentos laudatórios no documentário. Se você aprecia os cineastas chineses Jia Zhangke e Wang Bing, além do multiartista Ai Wei Wei; ou alguns dos melhores diretores da geração que começou a filmar na década de 1990 no Japão, Kiyoshi Kurosawa e Hirokazu Kore-eda; ou ainda, o talentoso e original Apichatpong Weerasethakul, da Tailândia – poderá conferir o alcance do filme de Chinlin Hsieh, taiwanesa que emigrou para a França. Todos eles têm em comum a admiração por esse momento criativo especial que eclodiu em Taiwan, que produziu grandes artesãos do cinema como Edward Yang e Hou Hsiao-Hsien, os mais conhecidos no Ocidente – ao lado de vários outros de igual talento, mas com menos rotatividade no circuito internacional de festivais, como Zhang Yi, Chen Kunhou, Wan Ren, Sylvia Chang, Wang Tong, Yu Kanping e Zeng Zhuangxiang. A lista não é exaustiva: basta citar Ang Lee e Tsai Ming-Liang, mais jovens que os precedentes, também reconhecidos no mundo inteiro, mas não diretamente ligados à geração do new wave. Como entender, enfim, que um país com pouco mais de 23 milhões de habitantes, sob permanente ameaça de ser anexado à força pela China continental – a revista The Economist publicou recentemente matéria de capa com título alarmista, Taiwan the most dangerous place on Earth – tenha sido capaz de funcionar como matriz estética para tantos cineastas de talento?

Embora exagere um pouco na quantidade de entrevistas, “Flowers of Taipei: Taiwan New Cinema” dá conta do recado: é uma introdução eficiente à nova linguagem que surgiu na ilha, que alinhava um cinema direto, a um só tempo emotivo e rigoroso, com a modernização acelerada que o país experimentava. E mais: debaixo de um clima político duro e repressivo, graças à lei marcial em vigor prevalecente desde 1949, quando os nacionalistas de Chiang Kai-shek desembarcaram no país depois de perderem a Guerra Civil para os comunistas liderados por Mao Tsé-Tung. Os taiwaneses, que foram uma colônia do Japão durante a primeira metade do século 20, queriam a autonomia depois da derrota japonesa na 2ª Guerra: acabaram virando uma república sob o jugo autoritário do Partido Nacionalista de Chiang, sempre temerosos de uma invasão final dos chineses da mainland – que só não ocorreu em virtude do apoio militar e econômico dos Estados Unidos. Com Taiwan ainda sob lei marcial – a lei só foi revogada em 1987 – um grupo de jovens se reuniu para realizar dois filmes coletivos, “In Our Time”, de 1982, e “The Sandwich Man”, de 1983. Logo se tornaram a manifestação mais visível de um movimento transformador profundo, expressando o desejo de uma geração inteira por democracia e modernidade. Personificados por dois de seus melhores diretores, Hou Hsiao-Hsien e Edward Yang, esses diferentes realizadores deram origem a filmes com soluções inéditas de convergência entre revoluções modernas do cinema, como neorrealismo italiano e nouvelle vague francesa, e as tradições estéticas chinesas. Cinema na rua, cenários naturais, atores que aprenderam a atuar durante a produção – e, sobretudo, a habilidade em captar revezes e fantasias associadas à emergência do novo ambiente sociocultural, carregado de novas tecnologias e comportamentos, caracterizaram a new wave taiwanesa. O videocassete, por exemplo, foi uma novidade radical: ampliou da noite para o dia o acesso à produção internacional, turbinada pelos distribuidores de Hong Kong, sobretudo. Entretanto, ao contrário dos filmes realizados no enclave britânico, que seguiam a lógica comercial do cinema de gênero, alguns cineastas em Taiwan puderam optar por um caminho mais autoral – e foram rapidamente premiados e legitimados por festivais de renome internacional.

Depois do brilhante período inaugural, a qualidade dos filmes oscilou – paradoxalmente, como salientou Jia Zhangke, foi a democratização do final da década de 1980 em Taiwan um dos fatores determinantes da dispersão do movimento. Edward Yang e Hsiao-Hsien continuaram com obras singulares e estimulantes: Yang teve a carreira interrompida pela morte prematura em 2007. “Flowers of Taipei: Taiwan New Cinema” viajou até a Argentina, onde também floresceu comunidade de apreciadores desse cinema instigante e inovador.

3 Nota do Crítico 5 1

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