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Firaaq

No end story

Por João Lanari Bo

Firaaq

Firaaq”, filme indiano de 2008: nesse mundo polarizado à nossa volta, com rachas políticos e ideológicos potencializados pela perversão das redes sociais – o engajamento dos internautas é seis vezes maior com fake news do que com real news – revisitar um país onde persiste uma fissura profunda e sangrenta como acontece na Índia é mais do que oportuno. O primeiro longa-metragem da atriz e diretora Nandita Das chega a ser singelo, praticamente sem efeitos visuais de choque, sangue, matanças, violência gratuita – o trágico está na atmosfera. O foco é o day after dos tumultos e massacres ocorridos durante três dias em fevereiro de 2002 no estado de Gujarat, na costa ocidental indiana, quando 2 mil pessoas, a maioria de orientação religiosa islâmica, mas também hindus, perderam a vida. Baseado em mil histórias verdadeiras, como informam os produtores, o enredo organiza-se em torno de cinco histórias paralelas que se passam no mesmo dia, um mês depois do massacre, quando traumas e medos, ansiedade e indiferença, estavam na memória viva das pessoas. As histórias acompanham o cotidiano dos personagens, de diferentes classes e grupos religiosos, e eventualmente se cruzam: importa registrar as camadas de reverberação do choque que contagiou as relações sociais, depois dos três dias de caos, incêndios criminosos, estupros, sequestros, assassinatos – tudo isso com fortes evidências de ações premeditadas de limpeza étnica, sob o olhar complacente das forças de segurança.

A primeira sequência introduz o marco temporal do massacre: coveiros descarregam pilhas de cadáveres numa vala comum, reconhecendo amigos, familiares e vizinhos. É também o marco crítico de “Firaaq”: os mortos são muçulmanos. O punhado de personagens cujas vidas são alteradas irreparavelmente são muçulmanos, mas também hindus. Dois deles formam um casal inter-religioso, Sameer e Anu: comerciante abastados, assustaram-se com a loja incendiada durante a carnificina e decidem fugir para a cosmopolita Nova Delhi, onde Sameer poderá assumir a identidade muçulmana e evitar o uso do sobrenome da esposa para permanecer vivo. Em paralelo, Muneera volta para sua casa saqueada e incendiada com filho e marido, e acaba suspeitando que sua melhor amiga foi uma das responsáveis: ela também esconde que é muçulmana, especialmente quando exerce sua profissão de henna girl, a arte milenar de tatuagem indiana. Seu marido, condutor de tuk-tuk, triciclo de transporte popular, junta-se a amigos para uma vingança quixotesca. O contraponto é um casal classe média de hindus, ele inescrupuloso e desonesto, e ela, Arati, silenciosa e sofredora. Finalmente, o músico Khan Sahib, ladeado pelo criado leal e impaciente, que passou a vida cantando para pessoas de todas as comunidades em sessões baithaks – outra tradição milenar, cantar sentado, sugerindo evocações místicas e espirituais – parece distante da tragédia. Uma criança perdida perambula por esses ambientes, em busca do pai, sem saber que ficou órfã na carnificina. A diretora Nandita Das evita conotações políticas, optando por descrever o drama dos seres ordinários e as repercussões da violência coletiva.

Segundo dados oficiais, os distúrbios de Gujarat terminaram com 1.044 mortos, 223 desaparecidos e 2.500 feridos. Dos mortos, 790 eram muçulmanos e 254 hindus. Outras fontes estimam o número de mortos em mais de 2 mil. Assassinatos brutais e estupros foram relatados com detalhes, bem como saques generalizados e destruição de propriedades. Pelo menos 200 mil pessoas fugiram, deixando suas casas para trás. Narendra Modi, então Ministro-Chefe de Gujarat e hoje Primeiro-Ministro da Índia – líder de um partido nacionalista de direita, o Partido do Povo Indiano, conhecido pela sigla BJP – foi acusado de omitir-se e tolerar a violência, assim como a polícia e funcionários do governo, que teriam feito vista grossa e fornecido lista de propriedades de muçulmanos aos fanáticos hindus. Em 2012, Modi foi inocentado pela Suprema Corte da Índia, que também rejeitou alegações de que o governo estadual não havia feito o suficiente para evitar os distúrbios. A comunidade muçulmana reagiu com raiva e descrença: a suspeita é que, durante o processo, foram suprimidas provas do conluio oficial.

Na Índia, o Hinduísmo é de longe a principal religião: a crença hindu abrange todo o universo indiano, interferindo em sua forma de organização social e política. O Islã é a segunda maior religião, com 14 % da população do país, aproximadamente 172 milhões de pessoas, segundo dados do censo de 2011. A convivência é acidentada e sujeita a ciclos de violência e massacres, como o de Gujarat: Gandhi, um dos heróis da independência da Índia e símbolo universal de convivência pacífica, foi assassinado em 1948 por um hindu radical, em virtude de sua atitude complacente em relação aos muçulmanos. “Firaaq” é mais uma etapa dessa fratura histórica, que parece não ter fim.

3 Nota do Crítico 5 1

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