Coletiva “Não Devore Meu Coração!” | Brasília 2017

Coletiva de Imprensa de “Não Devore Meu Coração!” na quinquagésima edição Festival de Brasília do Cinema Brasileiro

Por Fabricio Duque

Uma coletiva de imprensa é uma forma do público aprofundar as questões abordadas no filme, entendendo aspectos, revelando segredos, curiosidades do processo, decisões, imposições e limitações. É importante porque um filme pode ganhar ou perder pontos (e interesse) dependendo das elucubrações levantadas.

Não Devore Meu Coração!“, com roteiro inspirado nos em contos de Joca Reiners Terron, foi o filme de abertura do Festival de Brasília 2017 e a primeira exibição pública no Brasil, após passar pelos festivais de Sundance e de Berlim. Leia a crítica completa de nosso site no final desta matéria.

Na mesa, o diretor Felipe Bragança, o ator Cauã Reymond, a atriz Claudia Assunção, a produtora Marina Meliande, entre outros, com mediação do curador Eduardo Valente.

Felipe Bragança, rouco por causa de estar terminando um outro longa-metragem, “Um Animal Amarelo”, e um cineasta inquietante e prolixo em suas produções de filmagens recorrentes, disse: “O processo foi bem longo. Recebi o livro no Festival de Cannes durante o lançamento de “A alegria”. Li o livro do Joca e tive vontade de talvez revisitar esta região. Não era uma crônica urgente. Era uma outra possibilidade: uma aproximação em um conto muito sensorial de paisagem humana. É sobre as pessoas e seus ritmos. Assim, nosso processo foi a composição de personagens. Eu viajava a este lugar (no Mato Grosso do Sul) há cinco anos para me aproximar e não ser um ovni. Sentir o lugar e fazer parte. Ser um filme do Felipe. Busquei a métrica e ritmo na linguagem. Não é um filme festivo. Não queria o catártico. É um filme para se levar. Estou mais preocupado com as lágrimas que com os pulinhos na plateia”.

Sobre a aventura passional e destemida dos jovens do filme, ele complementa: “Todos meus filmes busco a parte do processo criativo pelo espaço. Ser periférico é porque é o centro do mundo, porque venho deste lugar de periferia. É um processo pessoal. O espaço do filme novo eu não conhecia e buscava conexão com os personagens, as músicas nos bares, me fazendo de fantasma na cultura da cidade. Há vários centros no mundo. Não há um só ponto central para criar o imaginário do mundo. Tem que ter um nível de confiança e que você demora a conseguir. Usei a juventude que já tinha saído de ‘A Alegria’ e que ja tinha a mesma energia. No livro encontrei um outro lugar. Uma sensação de espanto, encantamento e imersão da juventude, esta que sai do universo da conformidade. Buscava o tipo de energia, a surpresa”. Os acasos também ajudaram. Uma personagem pesquisada “colocou a energia pra fora e tentou que eu a convencesse primeiro para acontecer meu pedido requerido.

Sobre a Fronteira

“Cuidado com os paraguaios, eu ouvi isto de um taxista, que complementou dizendo que o avó matou vários paraguaios”. Marina Meliande disse: “O Brasil está mais integrado com a América Latina do que a gente acha. É uma fronteira sem controle, de bicicleta, em que guaranis não se consideram brasileiros, tampouco paraguaios. São guaranis. É muita história escondida pra ser discutida e encontrada”.

O Tom do filme

Felipe disse: “Em uma intuição matemática, neste momento, é uma fabulação com embates com a realidade, um pouco niilista, só que mais aventureiro. São embates entre essas diferenças. Antes em meus filmes, a fabulação era dona, agora várias disputam territórios”.”Cínico é a única coisa que eu não tento ser na vida”. “O pai encarna infelizmente muitos personagens. Conversando com proprietários de terras, ouvi que ‘índio quer terra para quê?’. É um modelo de exploração agrária super explorada, machista e o pai é uma passagem por este lugar”. Eles tinham orgulho, mostravam armas e cabeças de onças”. Cauã disse: “Era impactante e chocante ver esse orgulho estúpido. Mas as onças continuam lá”. Marina disse: “Essas mulheres representam a resistência”.

Sobre Os atores

“Tinha acabado de filmar ‘Dois irmãos’ e estava exausto”. Felipe lembra que foi “Walter Salles que fez o ator decidir quando disse ‘Você vai fazer o filme do Felipe né?’. Cauã continua: “Os maiores desafios era fazer parte daquilo e nãoo ouvir das pessoas todos os dias que eu não era parte daquilo. Eu tinha que me tornar um deles”. E diz sobre a atriz Cláudia, que vive a mãe Joana, disse que a personagem “rompe essa ligação com o machismo. Ela é a onça do filme junto com a Basano”. Felipe disse: “É um gesto radical da mãe. É uma veterana de guerra que ja batalhou muito e que agora estamos vendo ela cansada”.

Sobre a Trilha Sonora

Felipe buscou referências (e “roubou”) em John Carpenter que compõe as próprias trilhas. “Gosto dessa esperança em ruínas. A música traz uma espiritualidade a partir de coisas mecânicas e industriais”.

Sobre o Exagero

Diz-se que trabalharam mais com uma estética à moda de Gangues de New York. Mais exagerada. Em um lugar que usava lâmpadas fluorescente. Motos como parte do cenário, descobrindo e usando os detalhes do lugar. Felipe finaliza “Quis pegar os elementos e aumentar o volume. Saturar a fábula, aí a gente decola um pouquinho. Tudo está em um estágio de sonho. Um lugar de sonho. Não consigo filmar se eu não me colocar num lugar de sonho”.

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