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Por Fabricio Duque

Editor do Vertentes do Cinema

Nós brasileiros sempre nos queixamos que nossos olhares e percepções sobre nossa política eram mitigados e alienados. O povo preocupava-se muito mais com samba, suor, cerveja, futebol e carnaval. E uma vez ao ano, o Oscar, claro. Agora não. Estamos vivenciando um terremoto. Sim, o gigante acordou. Saímos da cama, anos após uma dormência social, com uma potência à liberdade, à diversidade, à democracia, a uma luta esquecida, como personagens do filme “Gangues de Nova York”, de Martin Scorsese, e ou gladiadores de Ridley Scott e ou jogadores-torcedores fanáticos de uma final de Flamengo versus Fluminense. Tudo isto projetou uma rivalidade em que só pode existir dois lados maniqueístas. Assim, a liberdade de expressão foi adulterada por crenças individualistas, por rótulos, por guetos.

No documentário “Guarnieri”, dirigido por seu neto Francisco, sobre o mito dramaturgo-ator político, radicalmente de esquerda, o protagonista homenageado eleva a característica marxista ao extremo e à humanidade, quando diz que a diversidade e o respeito precisam ser analisados com coerência, inteligência, paixão, questionamento, sagacidade e ouvidos perspicazes, e não só uma passionalidade intransigente. Sim, Guarnieri acreditava que a liberdade de expressão era utopicamente necessária para que não se trocasse um ditadura por outra. Uma censura por outra.

Um dos meios visuais mais significativos é a trilogia: teatro, cinema e televisão. Todos têm o dever e o respeito de conviver juntos e aceitar ideias, pressupostos, elucubrações, pontos de vista, crenças, achismos e opiniões. Sim, esta aceitação é um princípio intrínseco da ética, que protege a individualidade dentro da coletividade. Se só tivermos duas vertentes a seguir, então limitaremos nossa pluralidade existencial. Seremos rótulos e não seres humanos. Seremos máquinas optando pelo Flamengo ou pelo Fluminense.

Desculpa, mas nosso site é do time Botafogo, gosta de Baseball, filmes “estranhos” e longos como os do filipino Lav Diaz e torce mais para a Espanha que para o Brasil, não por ir contra nossa brasilidade e sim pela técnica qualitativa de seus jogadores. Estas informações precisam ser desprezadas e são irrelevantes, até porque acreditamos que um veículo não tem crenças. Somos umbandistas, católicos, evangélicos, democratas, republicanos, esquerdistas, gays, heteros, transgêneros, inter-sexuais, direitistas, espíritas, indígenas, sociais, afro-descendentes, e muito mais. E não por isso, estamos em “cima do muro”. Buscamos somente potencializar a imparcialidade com técnica espirituosa, com conhecimento sem rótulos e definições, porque quando nos limitamos, morremos. Simples assim.

A polêmica sobre o Cine-PE reverberou confrontos subjetivos. Vamos entender! Tudo começou quando a curadoria do festival pernambucano selecionou o filme “O Jardim das Aflições”, um documentário de 2017 sobre vida, obra, pensamento e cotidiano conservador de um dos mais conhecidos filósofos brasileiros Olavo de Carvalho. Dirigido pelo cineasta e escritor pernambucano Josias Teófilo, com produção executiva de Matheus Bazzo e direção de fotografia de Daniel Aragão. Em retaliação à exibição do documentário no Cine-PE, a primeira pública no Brasil, a classe artística iniciou um boicote ao festival e sete cineastas cancelaram sua participação, alegando motivos ideológicos, apesar de suas militâncias “pela diversidade”.


Nota sobre a retirada de filmes da programação do Cine PE 2017

“Decidimos tornar pública a decisão, conjunta, de retirar nossas obras da seleção do XXI Cine PE Festival Audiovisual, a ser realizado entre os dia 23 e 29 de maio de 2017, na cidade de Recife. Apenas no dia 08 de maio, através de veículos de imprensa, tomamos conhecimento da grade completa dos filmes que foram selecionados para o festival.

Constatamos que a escolha de alguns filmes para esta edição favorece um discurso partidário alinhado à direita conservadora e grupos que compactuaram e financiaram o golpe ao Estado democrático de direito ocorrido no Brasil em 2016. Para nós, isso deixa claro o posicionamento desta edição, ao qual não queremos estar atrelados.
Reconhecemos a importância do Cine PE Festival Audiovisual, do qual muitos de nós já participaram em edições anteriores. Esperamos poder participar de edições futuras e mais conscientes, condizentes com sua grandeza histórica e relevância para a formação de público do cinema brasileiro.

Assinam os representantes dos filmes abaixo listados: 
“A Menina Só” – Santa Catarina

“Abissal” – Ceará
“Baunilha” – Pernambuco

“Iluminadas” – Pernambuco

“Não me Prometa Nada” – Rio de Janeiro

“O silêncio da Noite é que tem sido testemunha das minhas amarguras” – Pernambuco

“Vênus – Filó a Fadinha Lésbica” – Minas Gerais”


Hoje, quinta-feira, de Recife, dia 11 de maio de 2017, a diretora do Cine-PE, Sandra Maria Ramos Bertini Bandeira, divulgou uma nota oficial à imprensa sobre o caso, suspendendo e adiando a edição deste ano do festival por não haver tempo hábil para se remontar uma nova grade.

 

Nota da Direção do CINE-PE

“A Direção do Cine PE, em função das manifestações contrárias à programação do evento, que proporcionaram a retirada de alguns dos filmes selecionados, dirige-se ao público em geral, para esclarecer os pontos e comunicar as seguintes decisões:

1. Que ao longo de 20 anos de realizações, que tornaram o Festival uma das referências nacionais do setor, todas suas programações, indistintamente, foram pautadas pelo respeito aos valores básicos da liberdade, quais sejam o direito de expressão, o respeito à pluralidade e o combate ao instrumento da censura;
2. Que, por isso mesmo, jamais houve quaisquer formas de politização das programações, pois com uma simples pesquisa sobre as edições passadas, facilmente será revelado que o Festival sempre se pautou em mostrar tendências, linguagens, estéticas e ideologias da forma mais coerente possível, por entender e evidenciar que o conceito da diversidade dever ser de todos e para todos;

3. Que apesar dessas manifestações se colocarem em tempo impróprio da pré-produção do evento, posto que a surpresa por essa represália, evidentemente, proporcionou um ônus fora do planejamento, torna-se cabível, pelo verdadeiro princípio democrático, respeitar-se as decisões tomadas;

4. Que essa situação implica na substituição dos títulos por outros que também fizeram suas inscrições de modo espontâneo, que estejam em ordem classificatória da Curadoria e que ainda se revelem dispostos a entenderem os valores que são a essência de quem faz arte e cultura – a liberdade de produzir e o sentimento de consideração pelas obras realizadas, na maioria das vezes, com enormes esforços;

5. Que essa adequação da situação à nova grade de programação, por razões técnicas e burocráticas, demanda por um tempo superior ao prazo do período de realização agendado, de tal modo que, pelo dever da prudência que sempre inspirou o Festival, será necessária postergar a execução do evento, cuja nova data será divulgada oportunamente;

6. Que, por fim, destacamos e enaltecemos o papel da Curadoria, a quem foi confiada a árdua missão do processo seletivo dos filmes, justo por ela reconhecer a importância do respeito à pluralidade, desde a criação à difusão, enquanto princípio basilar a ser perseguido, irrevogável e indistintamente, quaisquer que sejam os produtos artístico-culturais.”


O idealizador e curador do evento Alfredo Bertini, marido de Sandra, foi Secretário do Audiovisual nos primeiros meses do governo de Michel Temer. Esta informação talvez tenha sido o divisor de águas deste ato, passional, mas com tradição de luta política enraizada, que só faz com que a tão sonhada liberdade e diversidade seja colocada à margem. E que a competência de um filme seja apenas atrelada a questões políticas e não técnicas-narrativas. Nova data do festival será anunciada em breve.

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