Feliz Aniversário

Pouca pimenta na loucura

Por Fabricio Duque

Com o intuito de ajudar no lançamento de “Feliz Aniversário”, a Imovision trouxe ao Brasil seu realizador, Cédric Kahn, que ajudou a compor a comemoração de trinta anos da distribuidora. O cineasta francês, cinéfilo de carteirinha, conversou com nosso site e assim pudemos descobrir que seu mais recente filme partiu de duas referências cinematográficas: “Festa de Família” (1998), de Thomas Vinterberg, e “Uma Mulher Sob Influência” (1974), de John Cassavetes. E que na verdade é uma obra auto-biográfica, tendo seu diretor também como um dos atores principais.

“Feliz Aniversário” é aquele típico filme awkward de reunião de família, em que segredos são desnudados e verdades constrangedoras-confessionais vêm à tona, como “O Jantar”, de Ettore Scola; “Feliz Natal”, de Selton Mello; “O Banquete”, de Daniela Thomas, entre tantos outros. Sim, há dois filmes em um. A primeira parte caminha entre o humor-passivo-agressivo-infantilizado-artificial (diálogos protocolares e verborrágicos, como sempre, é francês), quase anti-naturalista, para perder “literalmente” o controle das faculdades mentais, a segunda que se descortina com tom catártico, surtado, histérico e enlouquecidamente aprisionado, nos obrigando à co-dependência.

O longa-metragem convida seu público a participar dos dramas idiossincráticos de uma família envolta nas comemorações de aniversário da matriarca (a atriz Catherine Deneuve com seus 76 anos). Somos ambientados com crianças brincando e comidas sendo preparadas por improvisos encenados de seus atores. Há uma liberdade editada. Uma forma mais caseira de fazer cinema para que a essência-orgânica seja respeitada. A câmera próxima busca a imersão observadora. Uma peça “inventada”. Um teatro amador ficcional da própria vida mais bucólica, com um que de “viagens de filmes franceses ao campo”.

Quanto mais o filme acontece, mais percebemos a típica aura francesa de uma família do interior, extremamente preconceituosos (racismo e xenofobia) com tudo e todos: argentinas, brasileiras e principalmente negros (“Ele é negro, né? Bem negro” – Nós quase nos sentimos em “Corra”, de Jordan Peele). São pontuações ocasionais que incomodam veementemente o espectador mais pacifista. Aqui, a confusão do “mais” reverbera na arquitetura do próprio filme, quando alguém próximo resolve filmar a festa em “plano único”, almoços, jantares e particularidades guardadas. “Arquivos não mentem”, diz-se.

“Feliz Aniversário” adentra na própria loucura, e é nesse instante que se permite a desconstrução pela liberdade desbaratada. Mas há no roteiro a hesitação por querer uma forma mais americanizada de ser, com suas reações básicas e dos clichês, como as malas e sacolas que caem no chão por causa da corrida da chuva. E/ou pelas personagens que cantam no piano. E/ou pela música “L’Amour, L’Amour, L’Amour” que cola igual chiclete (“o amor é uma primavera com medo, uma ruína, uma pimenta do tempo”). Todas as personagens são cúmplices e entendem as manias-comportamentais dos outros. Suas ações são urgentes demais, impulsivas demais e “recheados” de referências literárias.

“Por que você não faz filme de verdade? Defina filme de verdade”, travam diálogos com barracos e tumultos. Ao mesmo tempo que soam arrogantes, deixam transparecer vulnerabilidades e olhares frágeis. São defensivos, ingênuos, gostam de implicar e “atiram facas” sem suavizações pelo simples fato de enaltecimento à crueldade mais primitiva. Estimulam confissões, desconfortos e questões mal resolvidas, transformando o clima em um pesado “pé de guerra”. Sim, são franceses, desengonçados e “idiotas” (esta última adjetivo do próprio roteiro).

“Feliz Aniversário” começa a se desenvolver com a exponenciação da loucura da irmã mais nova que abandonou a família e agora marca seu retorno sem resolver sua instabilidade bipolar. Os ânimos alteram-se. Entre entendimentos, intervenções, piadas de mau gosto, a passionalidade explode em um nível tão alto que travamos nosso olhar à imagem arrebatadora de perda da sanidade. “Minha amiga Rosa morreu esta manhã”, a música fornece o tom. A crise retroalimenta a família em desdobramentos co-dependentes. Vive-se a angústia. A briga. A violência. A direção inconsequente. Há uma bagunça generalizada, desesperada e sem ordem. De teatros amadores infantis que divertem a família.

Mas o filme se ausenta dentro de sua própria metafísica. Perdendo-se dentro de suas liberdades improvisadas. É um Happening de um artista. “Feliz Aniversário”  traça seu caminho no limite tênue da visceralidade-entrega total da filha-irmã Claire (a atriz Emmanuelle Bercot), que por sua vez representa o nome da personagem de um filme anterior de Catherine Deneuve, “A Última Loucura de Claire Darling”, de Julie Bertuccelli, e do amadorismo pressa em construir mecanismos suavizados. Pois é, este é uma obra que faltou apimentar a loucura no tempo.

 

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