Eu Preciso Destas Palavras Escrita

A poesia visual de Arthur Bispo do Rosário

Por Chris Raphael

Festival Cavídeo em Berlim

Em qualquer circunstância, um artista é sempre um artista. Não importa o quão transitório possa ser a sua permanência entre nós, a arte fica para sempre. É indiscutível.

Arthur Bispo do Rosário, artista plástico brasileiro, nascido “possivelmente” em 1909 ou 1911, foi diagnosticado com esquizofrenia-paranoica em 1938 e internado na Colônia Juliano Moreira em 1938, onde permaneceu por mais de 50 anos.  Sua obra artística produzida a partir de reciclagem de objetos descartados pela sociedade (lixo) é claramente à frente do seu tempo. Neste contexto de genialidade e desvario, o artista é figura recorrente em filmes, livros, palestras e exposições, no que tange à temática da mente humana. Na tentativa de recriar o universo à luz de sua consciência controversa e alucinações, vemos uma produção de  miniaturas, escritos, vestimentas e bordados, sendo sua obra mais relevante O manto da anunciação.

O curta-metragem intitulado “Eu preciso destas palavras escrita”, com direção e roteiro de Milena Manfredini e Raquel Fernandes e produção da Cavídeo em parceria com o Museu Bispo do Rosário (2017), tenta conduzir o público pelas paisagens iniciais de Arthur Bispo do Rosário em sua cidade natal, Japaratuba, numa licença poética experimental, visto que pouco se sabe de sua juventude.

Exibido no Encontro de Cinema Negro Zózimo Bulbul – 10 anos, “Eu preciso destas palavras escrita” é uma alegoria paisagística, com o folclore local , a paisagem de cidade do interior de Sergipe, e réplica do manto que o próprio Arthur criou e usava, enquanto aguardava o juízo final. O expectador vai sendo conduzida por uma teia de situações sugestionáveis e sua criatividade  é posta à prova sem cerimônia, uma vez que entender o inconsciente é uma árdua tarefa.  Surrealismo à parte,  retratar em uma película, o imaginário contido na vida e obra de Arthur Bispo do Rosário é atuar em um contexto peculiar, como uma paródia à própria vida. Em sua própria rota de colisão, este asteroide que é o artista irá abalroar-se com nosso planeta, cedo ou tarde, restando a emoção da transformação. E se não transformou o mundo, ao menos tentou explicá-lo, bordando suas próprias palavras.

 

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