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Ficha Técnica

Direção: Marco Bellocchio
Roteiro: Marco Bellocchio, Daniela Ceselli
Elenco: Giovanna Mezzogiorno, Filippo Timi, Fausto Russo Alesi, Michela Cescon, Pier Giorgio Bellocchio
Fotografia: Daniele Ciprì
Montagem: Francesca Calvelli
Produtor: Mario Gianani
Produtora: OffSide Rai Cinema
Distribuidora: Celluloid Dreams
Duração: 128 minutos
País: Itália
Ano: 2009
COTAÇÃO: MUITO BOM

A opinião

O longa inicia apresentando o discurso político de Benito Mussolini. “Dou cinco minutos para Deus me fulminar. Se não acontecer nada, Deus não existe”, diz, criticando a Igreja Católica e recebe o título de herege. Em uma narrativa ágil, com uma fotografia extremamente trabalhada, intercala imagens de arquivos históricos com a própria ficção. Há também digressões entre passado e presente, todos datando a época apresentada. De 1914 a 1917.

Há um segredo na vida de Benito Mussolini: uma mulher, Ida Dalser, e um filho, Benito Albino, que nasceu, foi reconhecido, e em seguida renegado. É uma página negra da história da Itália, ignorada na biografia oficial do Duce. Quando Ida conhece Mussolini em Milão, ele é um fervoroso socialista que pretende orientar as massas contra a Igreja e a monarquia.

Ela acredita nele e em suas ideias, e vende tudo o que tem para financiar Il Popolo d`Italia (O Povo da Itália), um jornal que Mussolini funda para ser o núcleo do futuro Partido Fascista. Quando a Primeira Guerra Mundial irrompe, ele se alista no Exército e desaparece. Ao reencontrá-lo algum tempo mais tarde casado com outra mulher, Ida exige seus direitos como verdadeira esposa e mãe de seu filho primogênito. Levada à força, fica trancada por mais de 11 anos em um asilo de loucos, onde é amarrada e torturada, e nunca mais verá seu filho. Mas Ida não desistirá de lutar.

A história é contada em saltos de tempo. “Viva o socialismo”, luta-se. “Não existe vitória sem ação”, diz-se. “Viva a república. Abaixo o Rei”, grita-se. O tom político movimenta o filme, mas o foco é a história, tumultuada, confusa e apaixonada, de Mussolini com Ida, que fica obcecada por ele. Essa confusão transpassa ao espectador, já que o roteiro utiliza a técnica da manipulação. O que é verdade, o que é mentira. Será que realmente aconteceu? Imaginação ou realidade?

A fotografia é um dos pontos altos do longa, que expressa a poesia das imagens simétricas, com sombras e com contrastes. A escuridão busca detalhes dos personagens, até com a luz do abajur. Não há pudores em mostrar o tesão implícito do casal. O sexo é mostrado com a sutileza quase explícita. O desejo acontece para eles e quem está do outro lado da tela sente a mesma vibração.

Há diversificação nas imagens, que ora apresentam legendas de manchetes sensacionalistas de um jornal, mas que podem ser utilizadas para explicar óperas. Sarajevo, Guerra, entre arquivos históricas. “A guerra é um suicídio para o proletariado”, uns defendem a guerra, outros o fim dela. “Guerra, a única higiene do mundo”, com outras imagens nostálgicas. É difícil definir o novo trabalho do diretor Marco Bellocchio. Pode ser um documentário, uma história de amor, um filme político, uma ficção de imagens. Tudo pode ser tudo.

Abordam-se temas como ética, moral, jogadas políticas e poder. Há metáfora quando cegos aparecem em cena, aludindo a alienação de um povo. “Viva a revolução nacional. Audácia. Abaixo o conformismo”, grita-se. A submissão de Ida, que faz qualquer coisa por Benito, mesmo nome do filho que tem com ele, e a omissão dos sentimentos do objeto amado geram a loucura psicótica (síndrome paranóica), tendo como consequência a internação em um manicômio. Ela, em uma excelente interpretação, demonstra o desejo e o amor doentio só no olhar.

Os saltos continuam. Cinema para os doentes. Exposição futurista em 1917. Revolução (caos) na Rússia, com o ditador Lenin. Vence-se a guerra. Tipos italianos passionais, que lutam até o fim por seus desejos, optando pela fidelidade platônica. “Ser ator para se salvar. Não gritar a verdade, calar-se”, diz-se. Mussolini destrói uma família, quando não assume um simples ato. Há referência a própria história ao escolher exibir trechos de “O Garoto”, de Charlie Chaplin. “A igreja é a única mãe que os fascistas temem”, diz-se.

O roteiro não pretende a explicação. Já parte do pressuposto que a informação sobre o tema é conhecida. Assim respeita a inteligência do espectador, mesmo com a manipulação confusa, proposital, da narrativa. Como disse, há mistura de gêneros apresentados. Até que ponto é manipulação, até que ponto é uma história verdadeira? Vale muito a pena ser visto. Recomendo.

O Facismo de Mussolini

Tornou-se o Primeiro-Ministro da Itália em 1922 e começou a usar o título Il Duce desde 1925. Após 1936, seu título oficial era “Sua Excelência Benito Mussolini, Chefe de Governo, Duce do Facismo, e Fundador do Império”. Mussolini também criou e sustentou a patente militar suprema de Primeiro Marechal do Império, junto com o Rei Vítor Emanuel III da Itália, quem lhe deu o título, tendo controle supremo sobre as forças armadas da Itália. Mussolini permaneceu no poder até ser substituído em 1943; por um curto período, até a sua morte, ele foi o líder da República Social Italiana.

Mussolini foi um dos fundadores do Fascismo Italiano, que incluía elementos do nacionalismo, corporativismo, sindicalismo nacional, expansionismo, progresso social e anticomunismo, combinado com a censura de subversivos e propaganda do Estado. Nos anos seguintes à criação da ideologia fascista, Mussolini conquistou a admiração de uma grande variedade de figuras políticas.

O Diretor

Depois de estudar na Academia de Arte Dramática de Milão e no Centro Experimental de Cinema, em 1965 dirige seu primeiro longa-metragem, “De Punhos Cerrados”, aclamado pelos críticos. Rompendo com o neo-realismo, suas obras politicamente engajadas atacam os símbolos do conformismo italiano. Após “A China Está Próxima” (1967), denuncia a religião com “Em Nome do Pai” (1971) e o exército com “Marcia Trionfale” (1976). “Salto no Vazio” (1980) deu a Michel Piccoli e Anouk Aimée os prêmios de interpretação em Cannes. Dirigiu ainda “O Processo do Desejo” (1991), “A Hora da Religião – O Sorriso de Minha Mãe” (2002), “Bom Dia, Noite” (2003) e “O Casamento” (2006). “Vincere” foi exibido em Competição no Festival de Cannes 2009.

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