O Curta-Metragem

 
Por Fabricio Duque
 

Uma das vertentes do cinema é o curta-metragem, “filme com duração de até 30 minutos, de intenção estética, informativa, educacional ou publicitária, geralmente exibido como complemento de um programa cinematográfico”, diz o Dicionário Houaiss. Sem este gênero de curta duração, talvez o cinema não existisse. Irmãos Lumière, Georges Méliès, Charlie Chaplin, Buster Keaton, entre tantos outros, experimentaram ideias, câmeras, cores, saturações de imagem, e por aí vai. Trocando em miúdos, o curta-metragem é a possibilidade, principalmente para um estudante de cinema, de expor criatividades, tendências, histórias, dando asas à imaginação pelo maquinário cinematográfico.

É mantida pelo Instituto Brasileiro de Audiovisual (IBAV), uma instituição sem fins lucrativos criada em 1998, com o objetivo de promover a educação e a cultura pela formação profissional, do ensino e da pesquisa, visando ao desenvolvimento do setor audiovisual. O Cinema Odeon Petrobrás apresentou no último dia 31 de julho, terça-feira, a 3ª edição da Sessão Carta Branca, com curadoria da Escola de Cinema Darcy Ribeiro – ECDR  que selecionou, entre a mais recente produção de seus alunos, 11 curtas com temáticas diversas.


Críticas dos Filmes Exibidos

“No Olho do Furacão” (de Michel de Souza, 4’47”). O diretor mostra genialidade unicamente pela simplicidade ao realizar um registro dos protestos recentes do Centro do Rio de Janeiro, utilizando a câmera como personagem live-action, e fornece a emoção pura e verdadeira pela sinestesia da trilha sonora otimista. Como a arte imita a realidade, enquanto o filme era exibido no Cinema Odeon, um novo protesto acontecia nos arredores. O vídeo já se encontra disponível no youtube e com 668.178 acessos. Uma pequena obra de arte de criatividade que se apropria da máxima “menos é mais”.


“Casas Marcadas” (de Adriana Barradas, Juliette Lizeray, Ethel
de Oliveira, Carlos R. S. Moreira, Alessandra Schimite e Ana Clara da Rocha, 10’). O documentário cria um paralelo histórico temporal sobre o Morro da Previdência. Mescla imagens de arquivo (da Recine – abertura da Av. Presidente Vargas) com a atualidade. O filme permite que o povo local tenham voz. “A parede é nossa e o chão é deles (governo). Casa Flutuante?”, diz a moradora com filosofia popular, entre “rostos esculpidos”. Um registro histórico e comparativo à posteridade.


“Tutti Frutti” (de Marcelo Engster e João Ademir, 7’41”). O filme opta por contar a história não linearmente. Mesclando o fim (a dúvida do que aconteceu) com fragmentos digressionais (a explicação). A mensagem pode ser inferida por amigas que rompem limites em uma noite de bebedeira. A fotografia, competente, altera-se quando indica realidade e lembrança (distorcida). Um tema comum apresentado de forma não convencional. Em relação às interpretações, o espectador não se convence, por causa da afetação dos diálogos.


“A Partir do Final” (de Luis Claudio dos Santos e Guilherme
Folly, 10’). O filme, logicamente, inicia-se pelo final, quando mostra a decepção em uma narrativa novelesca com música melodramática. A câmera escolhida revela mais realidade do que a visão cinematográfica, assim, excede a realidade, mitigando a “manipulação” da estrutura fílmica. É um filme simples. Bem contado (o querer da companhia paterna, tendo um jogo de futebol como fundo). Com fotografia competente buscando o estilo nostálgico e datado. Os diálogos apresentam-se afetados, teatrais e pouco ensaiados.


“Álgebra” (de Pedro Lauria, 12’). Confesso que até agora não saberia definir com certeza o tema específico do filme. A opinião será realidade pela sensação fílmica transpassada. A narrativa apresenta atmosfera de realismo fantástico pelo viés do surrealismo (principalmente pela presença história de Salvador Dali). A trama ambienta o espaço da sala de aula, com um professor “tirano”, durante uma prova. E pode gerar inúmeras interpretações. A de que a figura da prova é algo ultrapassado e ou que pessoas envelhecem estudando algo difícil. E que “Álgebra não faz sentido”. Concluindo,  o filme “Álgebra” é como álgebra, caminhando no limite tênue da pretensão e de um estilo autoral. Para mim, não fez sentido.


“Quinto Andar” (de Ricardo Mansur, 22’). O filme apresenta fotografia em preto-e-branco(que já encanta por ser si só), iniciando a explicação de um terceiro, quarto e quinto andares em uma praia deserta. Representa a metáfora do desencontro social nos dias de hoje (vide o final) personificando a solidão individual do ser humano, exacerbando os sons externos (o vento) e internos (a batida do coração). Assim, viram selvagens, projetados no ano de 2047, impossibilitados de se relacionar de forma normal. O simbolismo aparece na forma de filosofia epifânica e cria universos paralelos de ser (e de se viajar) dentro do próprio ser. A Cavideo, de Cavi Borges, apoia e ajuda a produzir. Interessante, provocativo, desafiador e meio estilo Bressane de ser.


“Flor de Lotus” (de Pedro Gui, 6’27”). O filme “apropria-se” do texto (de efeito) de Raul Lenk, uma filosofia realista, construtivista e existencial sobre uma relação homo afetiva. A narração personifica palavras que participam como personagem presente e sincero. Chega a ser quase transcendental a narrativa empregada com música indiana. “E o tempo? Para que o tempo? É poético, meio estilo Los Hermanos de ser. A fotografia complementa a história por trás das palavras. E em certos momentos, apresenta-se brega. E quem disse que quando se tenta definir o amor não é o clichê que toca fundo na alma? Saí com o querer de ler mais sobre Raul Lenk.


“Carta para Hayan Rubia” (de Bárbara Morais e Paula Sancier, 9’). O estilo é claro: filosofia existencial contemporânea. As diretoras conjugam de forma brilhante, a narração “meio Elena (de Petra Costa) de ser” com as imagens fragmentadas de registro de uma vida instantânea (documental ficcional). É uma carta visual, sonora, poética, sem a pretensão de querer chegar ao destino. Comporta-se como uma terapia individual de vencer a monotonia solitária, utilizando-se do outro como instrumento catalizador. A “mistura” cola “Cartas a um jovem poeta”, a diretora Naomi Kawase, Nicholas Ray e faz com que a inferência ao escritor Manoel de Barros seja mais do que lembrada. Uma experiência para repetir, degustar e sentir, principalmente pela voz magnética e tranquilizadora, que concretiza palavras abstratas em um universo lúdico da identificável projeção de cada espectador.“Amoresabortos”, (de Bruna Mastrogiovanni, 3’30”). São fragmentos de vidas (e experiências), como artistas circenses (ou de rua), imagens de um carro em movimento, peixes nadando, embalados por uma música estilo grupo islandês Sigur Rós. Um ensaio-videoclipe existencial.


“Paisagem Sonora” (de Sofia Guimarães e Felipe Drehmer, 1’12”). Quando o espectador acha que começou, na verdade acabou. É o curta mais curto da mostra. A imagem (uma paisagem) treme (como um cinema 4D) ao barulho de uma britadeira de obra. A câmera se afasta e o filme acaba. Metáfora do excesso de barulho na cidade?


“Corta-Metragem” (de Michel de Souza, Miłosz Więckowski e
Rafael Dantas, 4’43”). O filme é dedicado a Ivair Coelho e apresenta estilos de cinema pela metalinguagem. Quando o diretor (fictício) diz “Corta”, o gênero muda. Do terror (ao som de um bumbo gerando suspense) ao surreal. Finalizando com uma (?) homenagem (talvez?) a Godard. Pretensioso talvez, não sei. Uma crítica aos recém-cineastas (ainda estudantes de cinema) que usam a confusão narrativa como gênero? No mínimo, um filme intrigante.


Finalizo, mesmo sabendo que não é uma competição, entregando a PALMA DE OURO DARCY RIBEIRO aos filmes empatados “No Olho do Furacão” “Carta para Hayan Rubia”. E dizer que foi uma honra assistir a essas produções. Fico imensamente satisfeito de saber que o CINEMA puro e de arte tem futuro. E agradecendo a toda equipe da Darcy Ribeiro e do Odeon Br.

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