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Enter the Void: Viagem alucinante

Entre no Vazio

Por João Lanari Bo

Festival de Cannes 2009

Enter the Void: Viagem alucinante

A morte é uma experiência extraordinária…. ninguém pode realmente dizer como é, porque uma vez que você experimentou a morte, você acabou. Mas isso só acontece uma vez na vida. Por sua natureza é extraordinário. Se você está sofrendo ou com dor, a morte é a melhor coisa que pode acontecer. Me incomoda uma cultura em que a morte é sempre considerada algo ruim (Gaspar Noé)

Enter the Void”, ou “Viagem alucinante” – na pífia tradução dos distribuidores brasileiros – é um projeto radical do realizador franco-argentino Gaspar Noé. Radical é um adjetivo desgastado, ainda mais em se tratando de Noé: afinal, seus filmes são todos radicais, logo a expressão é redundante. O que não dá é ficar indiferente em relação à experiência fílmica: seus filmes envolvem um tal nível de violência, sexo e depravação (e uma mistura dos três), que um espectador desavisado poderia classificar de excessivo, ou repulsivo. A questão, entretanto, é que não dá para descartar o cineasta, pelo talento e sobretudo pela ousadia (outra palavra desgastada). Basta lembrar a cena de estupro anal de Monica Belucci em “Irreversível”, de 2002, para aventarmos a possibilidade de que a tela plana do audiovisual adquire uma camada rugosa de sobredeterminação do real, algo que pode ser definido como uma mesma realidade gerada por uma multiplicidade de causas. Esse excesso provoca, via de regra, desconforto na estabilidade do sujeito-espectador. No filme em tela, dois mundos extra-sensoriais limítrofes fundem-se a olhos vistos: a própria morte, ou o pós-morte da alma, uma espécie de reservatório mítico inspirado no Livro Tibetano dos Mortos, intervalo compreendido entre a morte e o renascimento, de acordo com a tradição do budismo tibetano; e a imersão transcendente estimulada pelo alucinógeno químico DMT (Dimetiltriptamina), encontrada em plantas da América do Sul. O diretor insiste que baseou parcialmente a premissa do filme na teoria de que nossos cérebros contêm quantidades limitadas de DMT, que são liberadas no evento da morte.

O desejo de transcender a individualidade autoconsciente é um dos principais apetites da alma, dizia Aldous Huxley no seminal “As Portas da Percepção”. Quem sofre desse desejo é Oscar (Nathaniel Brown), o centro gravitacional de “Enter the Void”: logo nas primeiras imagens, ele admite o vício no DMT, e recebe um telefonema de um amigo pedindo a droga num bar, The Void. Estamos em Tóquio, cidade que é uma image factory, como dizia Donald Richie, um crepitar permanente de neons, fetiches visuais e strippers clubs. Oscar tem uma irmã, Linda (Paz de la Huerta), que trabalha em um deles, cujo nome é arrebatador: Sex, Money, Power. No bar, tratava-se de um set up: Oscar corre para o banheiro e os policiais atiram, matando-o. Sua pobre alma imediatamente levita, sobrevoa acontecimentos passados e presentes, como se estivesse …drogada. A des-corporificação de Oscar torna-se o veículo que faz a narrativa avançar, vemos o mundo a partir do seu ponto de vista – e descobrimos o que esse mundo revela. A câmera flutua de local para local, usando eventualmente fontes de luz como ferramenta de transição e piscadelas ocasionais que escurecem a tela. Tudo acontece com uma temporalidade estranha, pulsional – afinal, o cérebro de Oscar está liberando DMT. Sobrevoamos a cidade e os ambientes munidos de uma lente fish-eye, revisitando os momentos traumáticos dos irmãos – a terrível morte dos pais, orfanatos, vidas separadas… até que Oscar vai para o Japão, torna-se traficante de drogas free-lancer e consegue dinheiro para pagar a passagem de Linda.

Gaspar Noé conhece os impulsos humanos básicos, mas a tendência é que seus personagens adquiram realismo através da satisfação dos desejos físicos:  todas as outras emoções parecem pertencer ao campo da histeria. Em “Enter the Void”, a um só tempo sombrio e sentimental, não há tempo para indiferença: a sequência final, sobrevoo de um Love Hotel de Tóquio – faíscas de néon e fumaça pairam ao redor dos genitais excitados dos hóspedes – a alma, ou o resíduo ontológico post-mortem de Oscar, penetra no corpo do amigo Alex (Cyril Roy), que faz sexo com a irmã, e a fertiliza. Claro, “2001, uma odisseia no espaço” é um dos filmes favoritos de Noé, ao lado dos experimentos do radical Kenneth Anger. O espírito de Oscar renasce, finalmente.

Em 2019, Noé esteve no Rio de Janeiro, e visitou a locadora Cavideo, àquela altura ainda localizada na Cobal. Adquiriu filmes de José Mojica Marins, Cláudio Assis e Carlos Mossy. Não se sabe como e porque escolheu esses cineastas.

3 Nota do Crítico 5 1

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