Enquanto Estamos Aqui

Por Michel Araújo

Enquanto estamos aquiEnquanto Estamos Aqui

Contação por palavras, sensação por imagem

Por Michel Araújo

Durante o Festival Ecrã 2019

 

Encerrando o 3° Festival Ecrã de Experimentações Audiovisuais, de 2019, o longa-metragem “Enquanto Estamos Aqui” (2019), de Clarissa Campolina e Luiz Pretti, é um misto de imagens semi-documentais e narrações de cunho literário com excertos de fontes diversas. As filmagens são feitas todas aparentemente em locação, e os personagens das histórias narradas, e as ações que deles decorrem, não são de fato vistos, mas apenas descritos pela narração.

A composição visual varia entre um quadro rigidamente regrado, quase pictórico, e deambulações com câmera manual. A narração – locucionada por Grace Passô, realizadora da peça e filme “Vaga Carne” – evoca os encontros e desencontros da libanesa Lamis e o brasileiro Wilson, que se conhecem em Nova York, enquanto as imagens e o desenho de som – que segundo os diretores não utilizou de captação de som direto em momento algum – provocam a sensação, a ambientação espaço-sensorial desses momentos.

Há inúmeros tensionamentos possíveis entre o cinema e a literatura – a imagem e a palavra. A narração por palavras, levada com objetividade, pode ser sucinta e explícita, mesmo fria. A potência comunicativa da palavra num discurso corriqueiro é extremamente intangível: a língua falada não é uma ferramenta a qual reinventamos ao nosso bel-prazer, e sim um sistema estrutural que mais tem poder sobre nós do que o contrário, segundo os entendimentos sociolinguísticos.

As imagens, entretanto, comunicam algo além. Num sentido barthesiano, há três níveis de sentido numa imagem cinematográfica: o primeiro, da informação, o objeto que a imagem de fato está denotando – um rosto, uma árvore, uma casa, que seja -; o segundo da significação, o que o autor da imagem quer dizer num nível simbólico – o rosto significando medo,  a árvore significando natureza, a casa significando conforto, por exemplo -; e o terceiro sentido, que Barthes chama o “sentido obtuso”, foge à intelecção e a articulação e não pode ser propriamente exprimido.

Ele pode ser incitado por diversas características da imagem – uma ruga no rosto, o modo como o vento atinge a folhagem da árvore, a pintura externa já gasta da casa, etc – que não possuem conexão direta com um significado específico. Esse sentido é o da “significância”: a potência da imagem de significar algo, acompanhada da impossibilidade de se determinar o que este “algo” de fato é. 

Pensando, pois, nas articulações entre imagem e palavra suscitadas por “Enquanto Estamos Aqui”, o filme se desencontra nos propósitos do ver e do ouvir, tornando a experiência narrativa um tanto quanto labiríntico e mesmo cansativa. A potência maior do filme parece ser essa da sensação, de como as imagens e o desenho provocam um certo estado de espírito no espectador. O peso literário da narração, que produz essas imagens mentais, não casa de forma tão harmoniosa com as imagens visuais, mesmo porque a narrativa é rarefeita e episódica.

“Enquanto Estamos Aqui” parece querer dizer demais, expressar demais, poetizar demais um único espaço, pelo qual a imagem e a palavra parecem brigar. Na cena – assumindo que podemos usar este termo – de sexo, por exemplo: a descrição detalhada do encontro carnal – a sensação, os toques, a penetração, e o gozo -, insistem em querer, pela palavra, fazer o espectador sentir.

Esse procedimento torna a ambientação sensória do bosque – do som do córrego, do vento nas folhas das árvores – mais uma espécie de palco teatral para os personagens invisíveis que imaginamos estarem ali, do que de fato uma composição audiovisual autônoma, que expressa algo próprio, para além da narrativa. Mesmo no modelo clássico narrativo é possível que a imagem fale por si só, que o espaço fílmico, a mise en scène, o próprio corpo dos atores comuniquem coisas para além das ações em cena.

A experimentação desse jogo entre narrar e “sensorializar” se torna redundante, excessivo. Há momentos mesmo em que a imagem é completamente tributária à narração, como quando Lamis e Wilson se reencontram ao pé da porta de casa, e de fato vemos a porta de um prédio, que se abre, range, e permanece entreaberta, como uma cena interpretada por corpos invisíveis. Até que ponto é bem explorada a ausência do ator em quadro?

“Enquanto Estamos Aqui” investiga os limiares entre o narrativo e o experimental, o literário e o cinematográfico, e infelizmente, pisa em falso por diversos momentos ao longo dessa trilha movediça.

Trailer

https://www.youtube.com/watch?v=V82T3I07E9M

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *