Mostra Um Curta Por Dia 2025

Emilia Pérez

Desconstruindo o imaginário popular

Por Fabricio Duque

Assistido durante o Festival do Rio 2024

Emilia Pérez

É tão bom quando um filme consegue se diferenciar, causar estranhezas e gerar a sensação de “sair da caixa” padronizada, que é escolhida pela maioria dos cineastas. Sim, ainda que o resultado não seja tão satisfatório assim, sempre fica a experiência.  Exibido na mostra competitiva a Palma de Ouro do Festival de Cannes 2024, “Emilia Pérez” é um deles. Dirigido por Jacques Audiard, o longa-metragem corrobora a característica principal de seu realizador, um parisiense, que é abordar personagens mais marginalizados da sociedade em processo-luta de sobrevivência diária. O francês busca transforma-las em profetas do novo tempo, ressignificando suas tradições e limitações existenciais perante o coletivo. Em suas obras, Audiard também se utiliza da narrativa orgânica, por uma câmera que foca o cotidiano, permitindo inclusive a improvisação mais caseira-coloquial a fim de humanizar com empatia essas personagens, que por sua vez embasa suas ações necessárias como únicas soluções disponíveis, como por exemplo, Emilia, a protagonista, uma transsexual em constantes processos de ser aceita pelos outros.

Para isso, “Emilia Pérez” consegue também uma ajuda da própria narrativa do filme em que se encontra: sua inserção na fantasia musical. Ao cantar, como em ingênuos lamentos-catarses, refugia-se no delírio, livre de expectativas (se canta bem ou não, não importa). Mas ao escolher essa forma naif de condução, gera-se o melodrama e  necessidade quantitativa de se abordar questões sociais demais. Audiard usa seu cinema para mudar e salvar o mundo. Quase um preciosismo utópico. O filme começa pela metalinguagem, em um ensaio de uma apresentação de um espetáculo: megafone, canhão de luz, fotos de um crime alegado suicídio. Sim, busca-se também cantar a morbidez da praticidade da morte e o o constrangimento gerado. E assim o musical se define como dramatizado (falando de violência e amor – com Rap espanhol), e como brusco, sem antes preparar o publico. 

Não, não tenho nada contra musicais, mas é preciso que se tenha algum propósito. Será que só eu achei um musical estranho? Achei amadoramente oportunista? Pois é, para mim parece que tudo ainda está no ensaio, no improviso, no desespero, no impulso, no afoito, no grito. Para mim, tudo soa exageradamente constrangedor. Sim, é estranho. E filmes estranhos são muito bons. Mas este tem um que de preguiça criativa que o impediu de ter sido apurado tecnicamente. Outro ponto de universalidade social é a questão das diferenças entre homem e mulher. Por exemplo, ela escreve e o homem leva a fama. Sim, ao se desenvolver, mais “Emilia Pérez” se aproxima de uma novela. Mexicana. Visto que neste momento, o filme se direciona ao gênero de ação, com gângsters e um sequestro do nada para discutir questões sociais tão batidas, facilitadas com acordos.

Como disse, a forma que “Emilia Pérez” se desenvolve é bobo. É limitado. Porque escolhe o caminho mais fácil dos gatilhos comuns do roteiro, como por exemplo, o artifício do cartão do crédito e o link com ser uma ovelha. Mas sim nem de pedras vive o filme. Há números musicais muito bons, como o dueto com o médico. “Escutar é aceitar”, diz-se entre metáforas, para mais uma vez voltar à superficialidade de uma aura auto-ajuda de “fundo da alma com mel”. Daí, “Emilia Pérez” fica “desgovernado” e completamente fora de tom. Pode polemizar aqui com o adjetivo de cafona.  Por mais que o filme busque uma casualidade  interferente e coloquial, e ainda que a ideia de uma desconstrução identitária para se safar da ilegalidade, e ainda mais com um que de Pedro Almodóvar e toda sua atmosfera kitsch, mesmo assim, a forma, mais uma vez, não se conecta ao argumento. 

“Emilia Pérez” traz tudo: de causa à efeito. De sonho à realidade. De redenção à salvação, passando por flertes lésbicos, associações de luta social criadas, apoio aos desaparecidos. Sim, há muitas camadas. “Emilia Pérez” é um filme cebola, para descascar chorando, mas que de uma hora para outra se torna outro filme. Sim, como eu disse a premissa é muito interessante. A de ressignificar todo um imaginário popular que conviveu desde a ideia do mundo ser um mundo. “Emilia Pérez” é sim um filme de representatividade. De redesenhar preconceitos e existências. Isso é interessante. Mas sim pela milésima vez é a forma (a condução) que atrapalha todo o processo de escolha. É um conceito, mas bem que poderia ser uma obra de arte. 

2 Nota do Crítico 5 1

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