Ela Disse, Ele Disse

O fenômeno da identificação adolescente

Por Pedro Guedes

Thalita Rebouças é certamente uma das escritoras brasileiras mais populares do momento, não sendo à toa, por exemplo, que sua presença na última Bienal tenha sido ovacionada por dezenas de admiradores. Conhecida por contar histórias que lidam com os dramas habituais da adolescência e por empregar uma linguagem que tende a envolver o público infanto-juvenil com facilidade, Rebouças já vendeu mais de 1,5 milhão de cópias de seus livros e, como não poderia deixar de ser, está aos poucos ganhando espaço também no Cinema, já que boa parte de sua obra já está sendo adaptada para as telonas, como “Fala Sério, Mãe!” e “Tudo por um Popstar”, por exemplo. Aliás, não é surpresa que Rebouças apareça rapidamente numa ponta em “Ela Disse, Ele Disse”, dando uma de Stan Lee ou de Mauricio de Sousa.

A boa notícia é que o filme em si representa uma experiência simpática; a má é que seus melhores momentos são contrabalanceados por outros simplesmente constrangedores. Para um ano que produziu coisas como “Chorar de Rir” e “Socorro, Virei uma Garota!”, um filme mediano como “Ela Disse, Ele Disse” acaba se destacando.

Escrito por Tati Ingrid Adão e pela própria Thalita Rebouças, o longa nos apresenta a dois personagens centrais: Rosa e Léo, dois adolescentes de 14 anos que acabaram de entrar para a Escola Integrada Rebouças (nome sugestivo, não?). Rosa é uma menina que chega com dificuldades de socialização, apresentando-se tímida e reservada até que, com o passar do tempo, começa a se abrir um pouco mais, fazendo amizades à medida que o ano letivo vai passando; já Léo é um garoto que gosta de futebol e que, a princípio, pode parecer excessivamente descolado, como se nada mais fosse do que uma caricatura do surfista da zona sul, mas aos poucos começa a revelar algumas nuances… digamos, inesperadas. É claro que Rosa e Léo se aproximam e se interessam um pelo outro – o que, por outro lado, acaba despertando os ciúmes de Júlia, a garota mais popular da escola.

Cuidadoso ao usar o primeiro ato para estabelecer as personalidades de Rosa e de Léo em paralelo, alternando entre o cotidiano da primeira e o do segundo para fazer o público conhecer os dois ao mesmo tempo, “Ela Disse, Ele Disse” concede o protagonismo de fato a Rosa, cujas ações e reações frequentemente movem as dos demais personagens – e seu protagonismo é indicado de forma inquestionável já no título do filme: se ela (Rosa) sugere uma ideia, ele (Léo) será automaticamente influenciado por esta. Seja como for, o fato é que Rosa é uma personagem infinitamente mais interessante do que Léo: vivida por Duda Matte (uma atriz mirim já conhecida na Internet graças ao SBT, mas que só agora faz a sua estreia na tela grande), a menina se encontra numa posição de vulnerabilidade que naturalmente leva o espectador a simpatizar com seus dilemas – e Matte merece créditos pelo drama que confere à personagem, mantendo um bom equilíbrio entre o entusiasmo jovial e as dores típicas da adolescência (e o fato de ser uma das poucas paulistas do elenco que não fingem um sotaque carioca artificial também a ajuda a se destacar).

Em contrapartida, Marcus Bessa pouco pode fazer no papel de Léo a não ser… viver um estereótipo small-size do surfista da zona sul, falhando também em retratar os conflitos internos do garoto de forma convincente. Já Maisa Silva, uma menina reconhecidamente carismática e espontânea, se vê presa a uma personagem que nada mais é do que a “adolescente burra, porém lindíssima” que aparece em praticamente todas as comédias colegiais – e, para ilustrar como os atributos de Júlia se resumem somente à sua beleza, a diretora Claudia Castro ocasionalmente traz um plano-detalhe dos seios de Maisa, o que, considerando que ela ainda é menor de idade, me pareceu meio questionável. Aliás, se há algo que compromete a atuação de Maisa (e de boa parte do elenco) é a insistência em simular um sotaque carioca simplesmente horroroso: tanto ela quanto alguns outros atores exageram terrivelmente no chiado, não conseguem esconder totalmente a sonoridade do modo de falar dos paulistas e entregam um resultado que dói nos ouvidos. Para completar, Maria Clara Gueiros interpreta a diretora Madalena quase como uma ditadora nazifascista, mandando varrer para fora de sua escola os subversivos que ousam se beijar nos corredores da escola – o que diverte ainda que, com o tempo, comece a soar irritante.

Aliás, o senso de humor de “Ela Disse, Ele Disse” é inofensivo na maior parte do tempo, rendendo algumas gags surpreendentemente inspiradas (o plano de Júlia para conquistar Léo é juntar-se a ele num trabalho de Matemática, pois os dois são “antas” na matéria e será justamente esta burrice que os interligará) e até mesmo momentos que tinham tudo para representar verdadeiras sessões de tortura, mas que acabam funcionando relativamente bem (como toda a situação que traz a priminha chata, mas esperta de Léo). Em contrapartida, há tentativas de humor que são preguiçosas demais para funcionar – e os “erros de gravação” que surgem durante os créditos finais, em especial, soam tolos em vez de divertidos. Para piorar, esta é mais uma comédia que insiste em empregar a trilha sonora como recurso óbvio para comentar todos os pontos da narrativa: aqui, um tema de melancolia inequívoca; ali, uma composição engraçadinha; quando Júlia aparece em cena, começa a tocar “Favela Chegou”, da Ludmilla (“Empina, Empina, Empina / Joga esse bumbum“); quando a diretora Madalena está na tela, uma marchinha militar (cheia de tambores) preenche a cena; etc.

Mas o que realmente compromete “Ela Disse, Ele Disse” é o roteiro problemático de Tati Ingrid Adão e Thalita Rebouças – e, como não li o livro, não sei se os tais problemas já existiam no material-fonte; mas isso, honestamente, não interessa (os tropeços de uma adaptação não se justificam só porque também constavam na obra original). Para começo de conversa, todas – sim, todas – as situações retratadas aqui consistem em clichês ridiculamente batidos, com vários arcos dramáticos e resoluções que já vimos em centenas de outras produções e que, infelizmente, não ganham sobrevida aqui. Além disso, a narrativa em si é tão inofensiva que praticamente nenhum drama encarado pelos personagens soa pesado o suficiente, como se até mesmo os conflitos vividos por eles fossem leves demais para funcionarem como conflitos – e esta superficialidade se aplica também às soluções encontradas pelo roteiro, chegando ao cúmulo com o que eu batizei de ana maria braga ex machina.

Não é à toa que o desfecho do filme se passe num baile de fim de ano no qual todos os personagens – até os vilões, como os bullies do colégio – de repente se encontram transformados em pessoas melhores, com índoles que não condiziam com o que tínhamos visto há pouquíssimos minutos. É um epílogo que, da pior forma possível, faz jus aos clichês mais batidos das comédias de high school. E, mesmo assim, “Ela Disse, Ele Disse” está longe de ser um desastre, o que é realmente espantoso quando levamos em conta todos estes problemas.

 

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