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Édipo Rei

Purificação

Por João Lanari Bo

Festival de Veneza 1967

Édipo Rei

Édipo Rei”, o filme-tragédia que Pier Paolo Pasolini dirigiu em 1967, é um clássico: ou melhor, é mais uma inscrição clássica nessa tradição absolutamente clássica que perfila leituras e interpretações do texto seminal que Sófocles, o dramaturgo grego, escreveu por volta de 427 a.C. Aristóteles, na sua famosa Poética, considerou a obra como o mais perfeito exemplo da tragédia grega. “Édipo Rei” integra uma trilogia que inclui “Antígona” e “Édipo em Colono” – embora as três peças lidem com a casa real de Tebas, uma cidade-estado grega, não configuram uma escrita temporal: “Antígona” foi elaborada mais de uma década antes de “Édipo Rei”, e descreve acontecimentos posteriores. “Édipo em Colono” foi composta cerca de vinte anos depois. A história dinástica de Tebas na mitologia grega lista um grande número de reis, entre a fundação da cidade e a Guerra de Tróia, sugerindo várias tradições concorrentes: mitologia na Grécia afigurava-se como ato fundador, é inevitável que houvesse competição entre os relatos (como hoje existem entre “narrativas”). A profecia que afirmava ser Édipo assassino de seu pai e marido de sua mãe, incorrendo em duas faltas graves – parricídio e incesto – é parte desse arquivo mitológico. O período iluminado que os grandes trágicos escreveram suas peças – Sófocles, Ésquilo e Eurípedes – foi o século V a.C., século também dos filósofos, Sócrates e Platão (Aristóteles veio logo depois). A narrativa de Sófocles, portanto, recupera os fundamentos míticos da legenda tebana e os atualiza para a experiência prática da polis grega do século V, ampliando o poder da língua e delimitando o alcance das potências divinas. Sófocles e os poetas trágicos, ao lado dos filósofos, operaram a mais radical das experiências do mundo ocidental: a transformação da linguagem do estado mítico para a linguagem da práxis política e jurídica. De lá para cá, diria o poeta, foi um longo trajeto: a permanência da palavra Édipo no imaginário moderno atesta a força da tradição – e isso muito se deve ao médico de Viena, Sigmund Freud, que se apropriou do mito de Édipo e o fez um dos pilares da psicanálise.

Pois Pasolini também não se fez de rogado e incluiu-se nessa tradição, atualizando o texto clássico para a audiência cinematográfica na hiper politizada década de 60. Seu “Édipo Rei” escancara logo de saída no casting: Franco Citti, que faz o Édipo, foi lançado por ele em “Accattone – Desajuste Social”, no papel de proxeneta na periferia de Roma; Julian Beck, mito do teatro de vanguarda, vivendo o adivinho (e cego) Tirésias; Alida Valli, grande dama do cinema italiano, interpretando Merope; Carmelo Bene, como Creonte, irreverente e profícuo ator e realizador, apreciado por Deleuze; e Silvana Mangano, musa indiscutível, Jocasta. Cada uma dessas personalidades midiáticas produz uma imantação particular na tela. Como locação da filmagem, Pasolini acolheu a sugestão de um jovem marroquino que estudava cinema, em Roma, com Bernardo Bertolucci – Uarzazate, cidade ao sul do Marrocos habitada por berberes, local do belo kasbah que abriga o reino de Tebas, feito em grande parte de terra batida e tijolos de barro. Kasbah: cidadelas cercadas por muros do Norte da África. Enormes espaços desérticos circundam a kasbah, e projetam as errâncias de Édipo numa topografia que des-centra o espectador moderno: enquanto nos palcos trágicos da Grécia clássica a palavra e a eloquência dos atores sinalizavam a força do destino e a implacabilidade dos deuses, na linguagem pasoliniana a alternância entre planos gerais e próximos – muitas vezes com a câmera na mão – contextualiza o drama e enfatiza a comunicação através dos olhares, mola-mestra cinematográfica. Adicione a essa estrutura fílmica, além de máscaras e figurinos esplêndidos, a persona autoral do diretor, que revelou: nesse filme, eu conto a história do “meu” complexo de Édipo; o filho do prólogo sou eu mesmo, o pai dele é o “meu” pai…, e a mãe é a minha mãe.

E o próprio Pasolini aparece inquirindo o Rei Édipo, no meio da turba de berberes – aparições que iriam marcar seus filmes, no meio do povo, sempre com um rosto áspero, fugidio, revoltado. Segundo Aristóteles, como ninguém gosta de quedas – e a queda de Édipo foi vertiginosa – a tragédia, portanto, atrai medo e sensação de catarse, palavra grega que significa purificação. Édipo acaba destituído de todo seu poder, culpado de matar seu pai. Além do parricídio, a vergonha do incesto é a agravante definitiva. “Édipo Rei”, o filme, é, como atestou Pasolini, uma espécie de autobiografia completamente metafórica – e, portanto, mitificada; e também é a confrontação entre mito (antiguidade) e psicanálise (modernidade). Ao espectador, resta sempre a purificação – e/ou o divã.

4 Nota do Crítico 5 1

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