É Proibido Fumar

O retrato de um cotidiano

Por Fabricio Duque

O grande vencedor do Festival de Brasília deste ano, “É Proibido Fumar”, com oito prêmios (melhor filme, roteiro, atriz, ator, atriz coadjuvante (Dani Nefussi), direção de arte, trilha sonora e montagem) e participante do Festival de Havana, em Cuba, arremata troféus e elogios, merecidos, por onde passa, aborda as idiossincrasias e verdades ranzinzas absolutas de Baby (Gloria Pires), uma professora de violão, romântica e solitária, que deseja ardentemente viver uma grande paixão.Com a mudança de Max (Paulo Miklos), um músico de bar recém-separado, para o apartamento contíguo ao seu, Baby tem a chance de realizar seu sonho. Para conquistar o amor, ela faz um grande sacrifício e abandona seu antigo companheiro, o cigarro. Quando o amor parece finalmente ter acontecido em sua vida, Baby descobre que está sendo traída. Em meio a decepção e uma forte crise de abstinência de nicotina, ela entra em um espiral de ciúmes que a levará a conhecer os lados mais sombrios de seu coração.

“É Proibido Fumar” apresenta uma narrativa nostálgica dos anos setenta em suas imagens e objetos de cena. “Os anos setenta foi o futuro, passaram quarenta anos e o mundo voltou para trás”, diz-se explicitando a atmosfera que deseja transmitir. A diretora realiza um projeto família, desmascarando a hipocrisia e humanizando a solidão crônica de seus personagens, que criam escapes e catarses para a própria sobrevivência da existência. É um filme de instantes. Com manias, fofocas, Tv fama do Nelson Rubens, confrontos quase patéticos e ingênuos e fotos mostradas na abertura de momentos felizes. Mas sem o clichê básico da caricatura. A inteligência do espectador é respeitada, que transforma-se em um cúmplice da trama. Pode-se dizer que é um documentário da imagem, muito parecido com “Durval Discos”, mas, infinitamente, melhorado. A câmera comporta-se de forma alternativa e não convencional (com inclusões de gravações de imagens de segurança). Inova nos movimentos e enquadramentos. Há o retrato de um cotidiano com suas frustrações, amarguras e defesas próprias de aceitar o que realmente é. As dúvidas de escolhas reais são varridas para debaixo do tapete, importando-se com os pequenos detalhes que regem a vida para esquecer-se dos maiores.

De Chico Buarque a Jorge Ben Jor na trilha sonora, “É Proibido Fumar” não é sobre o cigarro. Não é sobre parar ou não de fumar. Mesmo com a passagem de “O cigarro parece meu amigo, mas é meu inimigo”, não é levantada a bandeira do proibido. Simplesmente, o cigarro é um elemento de cena, não julgado em certo e ou errado, apenas cria o elo dentro da história.”É proibido Fumar” perde-se no momento dos diálogos entre Marisa Orth e Glória Pires, deixando a ação surreal e não real, não convencendo e destoando do contexto. Porém, essa parte não atrapalha, nem um pouco, o andamento e o ritmo que continua métrico, perfeito, com o humor na medida certa.

As interpretações de Glória Pires e Paulo Miklos estão excelentes. Até Pitty que faz uma participação está muito bem. A montagem de Paulo sacramento é um dos pontos altos deste longa. É um filme único, ímpar, sério, leve até quando a reviravolta se torna tensa, engraçado quando tem que ser, cruel, de humor negro que aprofunda os personagens sem demonstrar amadorismo, sensível, delicado, real, humano, sincero, despretensioso e extremamente bem feito. Por tudo isso, merece ser visto. Recomendo. Aguardem até os créditos finais de “É Proibido Fumar”. Há uma supresa, que como não sei guardar segredo, contarei. Glória Pires cantando Tatuagem de Chico Buarque. Desculpa-me por minha impulsividade spoiler.

Trailer

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