E La Nave Va

O Navio Sobre as Águas

Por Julhia Quadros

A Obra E la Nave Va” (1983), dirigida por Federico Fellini retrata um cortejo fúnebre, no navio Gloria N., cujo destino é a ilha de Erimo, onde músicos e estrelas do cenário operístico mundial jogarão as cinzas da prima donna Edmea Tetua, descrita como uma talentosíssima cantora e grande celebridade da música, ao longo do filme. Sendo uma das obras de maior projeção, do cineasta italiano, o filme é uma grande homenagem à Ópera, à música e às artes cênicas eruditas, em geral, contando com referências musicais a compositores, como Giuseppe Verdi, Gioacchino Rossini, Claude Debussy ou Piotr Tchaikovsky. A composição de quadro, fotografada por Giuseppe Rotunno, evoca a organização dos palcos nas apresentações operísticas, com pessoas dispostas de forma simétrica, em grupos ou fileiras, como uma referência a um corpo de baile, que se movimenta em uníssono ou muda de atitude na passagem de uma cena para outra, ao longo da obra. O filme se estrutura como uma grande ópera, em que atores cantam árias e os comentários e os diálogos ao longo do filme se assemelham a recitativos.

É curiosa a aproximação que Fellini faz em suas obras entre a representação cênica, como o circo e a ópera, com o cinema, o ato de filmar, bem como o ato de viver e se inserir no mundo. Para o cineasta, a realidade seria tão irreal quanto o absurdo e a extravagância retratados na espontaneidade das obras circenses ou na triste comicidade dos clowns e seria tão mecânica ou ensaiada em pequenos acontecimentos diários quanto as apresentações de artistas na presença da plateia. De fato, todos são jogos, tanto os incansáveis ensaios por trás dos espetáculos artísticos, como a representação por trás da vida em si. Porém, só há o sublime quando a aparente realidade do espetáculo posado coincide com o ineditismo diante das plateias, criando a dialética artista-público que á capaz de criar o instante da verdade, da arte e da plenitude. Fellini compreende isto e compreende, também, que a maior arma para se atingir isto é, de fato o cinema, tão fabricado e mecânico quanto as artes cênicas e tão próximo do real quanto o mundo em si. Ele explora constantemente esta consciência para além da arte e para além da vida em seus filmes, o maior exemplo é 8 ½ (1963), que retrata um cineasta, que não consegue deixar o seu próprio filme, a consciência de estar dirigindo a própria vida, ao mesmo tempo em que não consegue se distanciar dela.

Ao assistirmos E la Nave Va”, é possível nos perguntarmos o motivo de Fellini ter buscado referências na ópera e como esta (des)representação constante seria empregada neste cenário. É o primeiro trabalho de Fellini sem a parceria com Nino Rota, compositor musical de seus trabalhos anteriores, como Abismo de um Sonho (1952) e Ensaio de Orquestra (1979), nos quais a música tinha uma participação importantíssima. Desta forma, o cineasta traz para as telas a temática do funeral, da morte de uma celebridade da música e certo pesar ao longo do filme, em virtude do fatalismo decorrente da necessidade de se desfazer das cinzas da cantora e, com isto, finalizar-se uma participação no mundo. Com o filme, Fellini se despede de seu amigo, desfaz-se de suas cinzas, homenageando-o com referências musicais, apresentações e construções, que se dão, enquanto um navio viaja sobre as águas.  E, assim como no filme, o fatalismo e a consciência do destino são características comuns em diversas obras musicais, sendo uma arte advinda do Renascimento, a ópera resgata esta forma de construção das obras do teatro grego do Período Helenístico.

Assim, pode-se observar que nesta obra, para Fellini não só o mundo e a vida são uma representação, assim como a morte também o é. Porém, se a vida é o circo, o clown e o teatro itinerante, a morte é grandiosa, clássica e espetacular, como a ópera.  O arquétipo das águas representa emoções, sonhos e desconhecimento; ao dirigir E la Nave Va”, Fellini aborda não apenas o lado irreal, espetacular e teatral da vida, bem como o da morte e a nossa total incapacidade de compreendê-los e a relação entre eles; serão sempre desconhecidos e apenas tangenciáveis, como o navio, que desliza sobre as águas, a caminho do funeral e da morte.

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