Mostra LC Barreto de Curtas 2026

Dois Procuradores

Museu de Cera

Por João Lanari Bo

Festival de Cannes 2025

Dois Procuradores

Ao observarmos essa história do passado, também reconhecemos o presente (Sergei Loznitsa)

O século 20 foi, sabidamente, um século violento – guerras e tecnologias se entrecruzaram e produziram morte e destruição em escala inédita. Para um país como a Rússia, imenso e fadado a extremos, como dizia Dostoievski, essas ondas de violência foram, e são, particularmente fortes, guerras internas e externas. Guerras, inclusive, que se desdobram na surdina dos corredores burocráticos, na sordidez das prisões geladas. “Dois Procuradores”, realizado por Sergei Loznitsa em 2025, revisita essa cena, uma espécie de museu de cera em movimento.

Sim, museu de cera – museu remete a imobilidade, flagrante temporal de corpos e objetos, e cera sugere uma interioridade transitória, fugaz. Adaptado de uma novela do escritor (e físico) Georgy Demidov, que passou 14 anos nos Gulag soviético, “Dois Procuradores” opta por uma linguagem minimalista, mas não menos aterradora. O adjetivo kafkiano, incorporado no vernáculo popular, encontra aqui sua expressividade cabal. O promotor Kornyev, interpretado por Aleksandr Kuznetsov, jovem advogado idealista, recebe uma mensagem escrita com sangue em uma tira de metal denunciando um complô contrarrevolucionário na prisão de Bryansk – o autor é um prisioneiro de alta segurança idoso e doente, vítima de tortura física e mental, o ex-professor de direito Stepniak (Aleksandr Filippenko), membro da geração revolucionária bolchevique e acusado de trair o regime. Kornyev resolve ir a Moscou levar a denúncia às altas autoridades.

Rodado na proporção 4:3, câmera fixa, com total ausência de cores brilhantes, o filme reproduz uma ambiência que é reflexo da atmosfera sufocante do período, o período mais dramático dos expurgos de Stálin, entre 1937 e 38. Josef Stalin foi ditador da União Soviética por cerca de 24 anos, governando de 1929 até sua morte em 5 de março de 1953 – foram vários ciclos de expurgos e perseguições, atingindo militares de alta patente, líderes revolucionários como Trotsky, artistas e escritores, funcionários públicos e acadêmicos. Stepniak recusou-se a validar condenações falaciosas, e pior, recusou-se também a assinar a própria confissão. Obrigar os acusados a admitir a culpa era a principal peça de acusação, que podia levar ao Gulag ou à execução sumária e sem maiores considerações. Uma pantomima jurídica, enfim.

Kornyev não sabia nada disso, como de resto a quase totalidade da população – todo corria na penumbra do poder, dos corredores às prisões. No biênio sinistro 37-38 estima-se que 800 mil de pessoas foram assassinadas, mais centenas de milhares de deportados para os campos de trabalho forçado, onde muitos morreram. Ninguém sabe o número total de vítimas, algo em torno de 2 milhões – a Rússia é um enorme país, muita documentação se perdeu nas turbulências históricas. Alguns historiadores calculam cerca de mil mortes por dia, baseado em execuções documentadas. A fonte desse terror era a polícia secreta, conhecida como NKDV, depois nomeada KGB – e atualmente FSB.

São poucas situações em “Dois Procuradores”, sempre com o promotor Kornyev. Além do encontro com Stepniak, uma viagem de trem com populares, onde exala um personagem com mão e perna amputados em virtude da guerra – o ator é o mesmo Filippenko – e uma incursão abrupta e bem sucedida ao gabinete do Procurador-Geral Andrei Vichínski, insuperável figura do cinismo macabro stalinista. Anatoliy Beliy interpreta Vichínski de modo absolutamente impassível, frio e surpreso pela coragem do jovem promotor em trazer a denúncia do que se passava na província.

Se Vichínski algum dia figurar em algum museu de cera do stalinismo, o modelo já está dado no filme de Loznitsa – que, a propósito, utilizou o próprio personagem em “O Processo”, de 2018, feito a partir de material de arquivo do infame “Julgamento do Partido Industrial”, em 1930. O evento, filmado e gravado durante 13 dias – com tecnologia inédita de captação sonora – veio a ser um dos pioneiros das performances estilo reality show stalinista. Vichínski foi o juiz da farsa que condenou engenheiros e dirigentes industriais.

Para Loznitsa, existem paralelos nítidos entre o sistema retratado em “Dois Procuradores” e a Rússia atual. Nessa lógica, ressalta, o colapso da União Soviética trouxe apenas uma breve ilusão de mudança. As estruturas de poder enraizadas nos serviços secretos reafirmaram-se rapidamente, reconstruindo um modelo autoritário que culminou numa ditadura em grande escala.

E foi além: no Festival de Cannes, em maio de 2025, falando sobre a guerra da Ucrânia e os absurdos da política internacional, desabafou: Nem num pesadelo alguém poderia imaginar tal união, tal entendimento entre dois líderes autoritários como Putin e Trump.

4 Nota do Crítico 5 1

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