Doce Entardecer na Toscana

Amarga Hipocrisia

Por Jorge Cruz

No meu caminho no Festival do Rio 2019, “Doce Entardecer na Toscana” seria o filme que abriria minha maratona. Porém, por questões de ajustes no credenciamento, iniciei minha jornada duas horas mais tarde com o chinês “Viver para Cantar“. Na crítica disse que foi uma ótima maneira de começar o festival – e também seria com esse drama polonês, surpreendente em sua abordagem direta e sucinta sobre o que há de mais fundamental no debate acerca da sociedade européia na atualidade.

A introdução com o som das águas e as movimentações vagarosas dão a entender que o longa-metragem usaria cansadas premissas sobre a melancolia da chegada do inverno da vida, construção típica de um continente que sofre com o envelhecimento populacional. Essa quebra de expectativa acontece quando o texto do diretor Jacek Borcuch (roteiro em parceria com Marcin Cecko e Szczepan Twardoch) avança para uma pequena Torre de Babel. Até que o polonês, língua materna da protagonista Marie Linde (Krystyna Janda, vencedora do prêmio do júri de melhor atriz no Festival de Sundance de 2019) pudesse ser ouvido, transitamos por italiano, francês e inglês – em sua relação com o território com o qual ocupa, no trata com um jornalista do “Le Monde” e nas brincadeiras acerca do reconhecimento a partir de honrarias em premiações internacionais.

Doce Entardecer na Toscana” brinca com a velha história da ricaça branca que poderia passar sua abastada aposentadoria onde quisesse e, como não é boba, escolheu uma das mais belas regiões da Itália. Até que essa camada envernizada de “Helena de Manoel Carlos” pudesse ser raspada, o filme passeia por inúmeras questões em um ritmo impecável. Quando, no meio do segundo ato, nos pegamos ouvindo a personagem verbalizando suas motivações, parece indiferente o que a levou a ser uma senhora progressista – uma vez que hoje não olhamos os dentes dos cavalos antifascistas que cruzam nosso caminho. Todavia, há uma preocupação constante na obra de consolidar todas as suas assertivas – e o faz com leveza.

As estruturas da linda cidade história se abalam quando chega a notícia de que um grupo de imigrantes fugiu do campo a eles reservado na ilha de Lampedusa. “Eles podem ser perigosos”, destila uma personagem, enquanto outros surgem fumando seu baseado em um discurso antifa. Com isso, o longa-metragem começa a permear o campo da hipocrisia, palavra que paira sobre nossas cabeças até ser dita com todas as letras por Linde no discurso mencionado no parágrafo anterior. Uma cena forte, que ganha peso com o excelente trabalho de Krystyna Janda. Dali em diante, todo o eurocentrismo testemunhado pela protagonista será objeto de questionamento do público, chegando até mesmo à própria importância de honrarias como o Prêmio Nobel em uma sociedade como a nossa.

Há em seu protagonismo excelente aspectos e possibilidades a serem trabalhados. Sua mutação de uma mulher que vai se afastando do envelhecimento introspectivo ao perceber que há muita coisa que ainda lhe interessa é uma construção geralmente reservada aos homens, ainda mais na moral dúbia do cinema europeu. Como matriarca, mantedora e donas das ações, não há – ainda bem – uma insurgência da família contra seus posicionamentos em um primeiro momento. Linde não é tratada como “surtada” nem há preocupação com sua “senilidade”, um artifício que empobreceria a obra, levando a um lugar-comum. Pelo contrário, em “Doce Entardecer na Toscana” há constante avanço. Até mesmo na adição da bela “It was a Very Good Year“, canção gravada por Frank Sinatra quando se achava velho aos cinquenta anos de idade, carregamos além do flagrante simbolismo uma atratividade saudosista ao longa-metragem.

Por outro lado, a escalada de ódio também é constante. Ganha corpo ainda no primeiro ato, quando o neto da protagonista é encontrado pelo amigo Nazeer (Lorenzo de Moor), comerciante que aos poucos vai recebendo o apelido xenófobo de “Egípcio”. Para a classe média branca, essa crescente de intolerância soa imperceptível, visto que a preocupação é quase sempre se manter em uma bolha saudável. Na dúvida, fuja dos imigrantes. Apenas quando Linde projeta seu passado e contextualiza na História da Europa o que acontece hoje, é que o incômodo é gerado. O filme explora isso da melhor maneira, demonstrando como a posição política da personagem poderá levá-la a uma derrocada.

Krystyna Janda aos poucos vai nos entregando uma protagonista cansada de tanto privilégio e reconhecimento – quando na origem sofreu as mesmas dores do que pessoas como Nazeer. Sua proposta de forçar um rompimento com a legalidade é outro fator que impulsiona a obra. Aliás, o intercâmbio entre eles, desde a tensão sexual até as pequenas concessões de riqueza que ela lhe permite, se destacam no filme. O fato do homem vir do Egito, um dos “berços da civilização”, rico no desenvolvimento tecnológico quando a Europa engatinhava, é mais um fator aproveitado. Não há nada em “Doce Entardecer na Toscana” fora do lugar.

Jacek Borcuch parece que sente a força da história nas suas mãos e explora pouco as possibilidades visuais. Claro que um passeio em luxuoso Porsche conversível pelas estradas da Toscana soará lindo, mas o bonito trabalho da direção de arte nas primeiras cenas não é continuado. Um ton sur ton que explora o azul de dentro da casa e como a paleta de cores vai se tornando mais sombria, mais nublada, é executada com injustificável sutileza. A única explicação é querer o foco do espectador exclusivamente na trajetória de Linde e nas implicações a partir de seus posicionamentos.

Uma das últimas cenas, em que a protagonista se debruça sobre a própria moralidade em uma entrevista, seria o grande momento, ao lado do discurso já mencionado. Porém, quando parecia que “Doce Entardecer na Toscana” chegaria ao fim com o poder de criar um debate acerca da função da arte (ainda mais a poesia, que parece tão envelhecida quanto a própria Europa), sua escalada de surpresas nos entrega uma conclusão ainda mais impactante e bela. Quando, na principal praça de Volterra, cidade que conserva seu ar medieval mesmo sofrendo com constantes ocupações ao longo de seus três mil anos – um lugar que a população evitou que as tropas de Hitler destruíssem quando a deixaram – Jacek Borcuch ainda encontra espaço para nos lembram que o fascismo sempre sairá de sua toca.

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