Divino Amor | Crítica

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Os efeitos colaterais do modelo-remédio

Por Fabricio Duque

Após o embarque à contemplação naturalista de uma existência propriamente causal em seu filme anterior “Boi Neon”, Gabriel Mascaro (de “Ventos de Agosto“, “Doméstica“) constrói com seu novo filme “Divino Amor” uma análise antropológica de cunho social, impulsionado organicamente pelo elemento religioso que influencia e sempre teve um papel de motivação catártica ao comportamento humano. É uma obra psicológica desdobrada por uma fábula futurista (contrastada pela presença ainda importante da ingenuidade retrógrada) e uma distopia altamente inflamável e atual das crenças primitivas. A religião é um refúgio. Uma força que acolhe. Uma forma de controlar os impulsos selvagens.

O público é conduzido coercitivamente a uma “nova onda” de assumir não mais o estágio laico do Estado no ano de 2027 (coincidentemente o pós-governo Jair Bolsonaro já com a reeleição).  Pelo contrário, o pensar agora é pela “proteção da família” a qualquer custo, risco e desejo não compatível. Aqui, a ambiência do filme faz com que adentremos nas sutilezas conceituais dessas subcamadas cognitivas e com temas universais, para assim participar do objetivo essencial de todo processo “evolutivo”: o questionamento crítico, desenvolvido pela abordagem causal e fantasiosa do “e como seria se fosse o outro lado”. É um filme “se”, uma possível profecia do espelhamento do medo do futuro.

A fotografia nostálgica (com um que de vanguarda dos anos oitenta) da artificialidade da luz quer outra metáfora: a do retrocesso temporal. É o amor neon. A hipocrisia da liberdade mascarada de regras oportunistas, que só atendem ao próprio bem comum. É o retrato da burocracia humana, à moda almejada de um “fio de prumo”, que padroniza retas, simetrias e quereres em uma limitada e simbólica caixa, tudo embalado por uma narração em voz-off de uma criança (representação do futuro, que com frases de efeito como “A medida do amor era amar sem medida” semeia mais uma crítica latente e pululante), que conta com toque pessoal o que aconteceu no nosso mundo, a “gigante província”  chamada Brasil. Que “tinha mudado para a festa do amor supremo, a mais importante do corpo, a redenção pura do amor eterno”.

“Divino Amor”, que se assemelha de certo modo a ficção literária “1984”, do escritor inglês George Orwell, e ou “Metrópolis”, do cineasta alemão Fritz Lang (esta de 1927 que pode ser uma referência direta à data escolhida do daqui), acontece por instantes, estimulando sensações etéreas e enraizando o movimento progressivo. Aos poucos e sem pressa, a história naturaliza-se e as ações, aceitas na nova normalidade.

Assim como no filme, nós também precisamos de um período de adaptação. Uns acreditarão que esta é uma ditadura pela religião. Outros, uma alienação “ópio ao povo”. Mas há aqueles que encontrarão positivas respostas na zona de conforto do não pensar, seguir o líder e esperar pela “volta do novo Messias” (que por sinal é o sobrenome de nosso atual Presidente da República). É a aceitação máxima da epifania que suspende a própria sensação de tempo do corpo e que lida com o maniqueísmo da “fé e dúvida”.

“Divino Amor” mecaniza o amadorismo imagético, técnico e estético. Aproxima e cria laços com as “regras do Estado Brasileiro”, por exemplo, o detector de segurança que expõe informações pessoais a todos. Esta é uma jornada do acordar do transe sonâmbulo, principalmente pela crença radical da protagonista Joana (a atriz Dira Paes) que percebe sofre na pele quando o “amor divino” finalmente chega. Sim, talvez ninguém esteja preparado mesmo para a reencarnação de Jesus Cristo.

Ainda que os mesmos surpresos citem a Bíblia de “cor e salteado”. O título pode também ser outra referência: a um homônimo e real site de relacionamento que busca “resgatar o sentimento amor puro e encontrar a graça eterna”, que por sua vez podemos inferir à estrutura do seriado francês “Osmosis”, em cartaz no catálogo da Netflix.

A espontaneidade encenada e teatral do início (e com as caseiras interpretações) que incomoda a aceitar o tom é artifício proposital e cênico para com ingenuidade narrativa criticar o “burocrático trabalho pela fé” e a vertigem do existir. “Deus comemora em silêncio”, rebate-se com frases prontas, que questionadas viram blasfêmias. “Todos podem cair no abismo um dia, mas sempre há um irmão para segurar pelos braços”, discursa-se com o mais entranhado dos clichês, mas que é conflitado pela “experiência” divina do “amor é para dividir”, cujas consequências são o casual prazer (com nudez poética e cenas naturalistas de sexo), eletrônicas festas-rave evangélicas e Drive-thru da Oração (caminho rápido fastfood para conselhos).

Sim, quando acontece o despertar do transe pop coletivo “sonho Alice no País das Maravilhas”, a personagem, agora “desgarrada da flor azul”, percebe que a realidade (como numa expansão de consciência à moda de “Fahrenheit 451”, livro de Ray Bradbury, eternizado por François Truffaut), é bem mais hostil e depreciativamente egoísta. “Se você quer uma resposta, Deus lhe dará uma pergunta”, sempre com uma saída engatilhada, “músicas de louvor” e “códigos genéticos pendentes”. Erro do sistema ou provação divina? A fé incondicional para muitos não se sustenta para se acreditar inocentemente na moderna parábola de Maria. E a burocracia, um estado de equilíbrio de “transparência e disciplina não humanada” encontra exceções à regra. E os “sinais divinos”, a incompreensão e a lógica humana. “Divino Amor” é uma obra revolucionária e contestadora experimentando o próprio modelo-remédio da salvação terrena, plena e infinita da felicidade.

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