Dias Perfeitos
Um dia após o outro
Por João Lanari Bo
Festival de Cannes 2023
Você sabe, o segredo do ceramista é fazer pela primeira vez a cada vez, e para o nosso homem, Hirayama, é a mesma coisa. Cada dia, ele está fazendo tudo pela primeira vez. E ele não está pensando em como fez ontem, nem em como fará amanhã. Ele está sempre fazendo no momento. E esse também é o segredo do ceramista. E é isso que dá uma dignidade totalmente diferente a qualquer repetição
Com essas palavras Wim Wenders respondeu à pergunta inevitável sobre seu filme, “Dias Perfeitos”, exibido no Festival de Cannes 2023: como foi possível construir um personagem onde a narrativa – inteiramente despida das eloquências performáticas a que estamos habituados no cinema – não faz outra coisa senão repetir ações diárias sem apelos ou artifícios que sugiram alguma excepcionalidade, algum sobressalto que possa impactar nossa sensibilidade de espectadores? Ao contrário, a repetição dessa vida banal, porém preenchida, sustenta-se por uma busca permanente de uma excelência que se consome no instante mesmo em que é delineada. Como os ceramistas japoneses, Hirayama perfaz seu serviço de limpador de banheiros atento aos pormenores – e satisfazendo-se com a perfeição do resultado, quer o entorno das pessoas perceba ou não. Ele se reinventa a cada dia, sem dramas: e não só no trabalho, mas também em todas pequenas rotinas, como sonhar, acordar, escovar os dentes, sair de casa e olhar o céu, comprar café na máquina e ouvir música pop dos anos 60 a caminho dos banheiros públicos.
A repetição como tal, se você a viver como repetição, você se torna vítima dela. Se você conseguir viver o momento, como se nunca tivesse feito isso antes, torna-se uma coisa totalmente diferente. Você está totalmente certo.
Wenders atualiza em “Dias Perfeitos” a poética sentimental-melancólica de seus filmes feitos no Ocidente para, digamos, a metafísica japonesa. É como tivesse se preparado anos e anos para essa transfusão, ele que é um devoto de Yasujiro Ozu – Hirayama é também o nome do casal protagonista de “Era uma vez em Tóquio”, de 1953. O objetivo dos filmes de Ozu é, grosso modo, captar nos mínimos detalhes, banais e corriqueiros, a respiração e a corrente vital das histórias privadas, aquelas que contam para a maioria da espécie humana e que permanecem perdidas na poeira do tempo. A história privada de Hirayama é absolutamente banal – leitor assíduo, de autores estrangeiros e locais, ouvinte de fitas K7, de Ottis Redding, Patti Smith, Lou Reed e Eric Burdon and the Animals – sempre colecionando fotos, cultivando plantas, comendo no mesmo restaurante do comércio subterrâneo do metrô e limpando banheiros.
O ator escolhido para “Dias Perfeitos”, Koji Yakusho, encaixou-se como uma luva no projeto. Um dos rostos mais conhecidos do cinema japonês, conta com uma intensidade minimalista de expressões que sintonizaram à perfeição com o espírito da proposta – inclusive no que toca a aspectos mais “ocidentais”, como fidelidade à música americana. A respeito de seu personagem, disse Koji: Quando vi o filme, assim como quando olho e vejo prédios em Nova York, vi que Hirayama vive em um ritmo mais descontraído. Como se ele estivesse morando em uma floresta, mesmo estando em uma cidade enorme. Para ele, traduzindo uma percepção clássica da religiosidade japonesa, a espiritualidade paira disseminada no mundo ao redor – pessoas, objetos e paisagens. A floresta é a metáfora primitiva dessa religiosidade. E os sonhos de Hirayama, relances em preto e branco de imagens sobrepostas, como um experimento de linguagem audiovisual, fornecem a transfiguração noturna dessa vivência.
A solidão de Hirayama, imerso na Tóquio moderna e asséptica, não descamba nunca para o melodrama – apesar do seu passado incerto, que sugere um trauma gerador de uma decisão qualquer. Acontecem contingências imprevistas nesse fluxo diário, poucas e significativas: mas ele de alguma forma lida com elas, pela contemplação de tudo o que vê e registra, imagens e não-imagens, tudo aquilo que define as impressões dos seus (e nossos) dias. Pouco a pouco, passamos a ver o mundo tal como Hirayama, com sua percepção das surpresas, das pequenas exceções. Ele está, afinal de contas, conectado ao que se passa à sua volta, natureza, banheiros públicos, luzes, percursos urbanos – e, raramente, outras pessoas.
Poucas pessoas, que denotam afeto por ele. O último plano do filme, um close transformador do nosso personagem, rebate em Nina Simone e interrompe o fluxo.