Depois do Casamento

Conflitos Internos

Por Jorge Cruz

Quem se pega assistindo a versão de “Depois do Casamento (2019)” que chegou aos cinemas em 2019 sem saber que se te trata de uma versão norte-americana, talvez perceba que há algo menos convencional em sua narrativa. O método de produção consagrado por Hollywood não consegue enxugar tanto assim suas adaptações, sejam elas terror japonês ou drama dinamarquês (como é o caso aqui). O grande exemplo é que a maneira como a montagem do longa-metragem vai descamando a trama não se enquadra tanto nas convenções às quais o cinema dos Estados Unidos insiste em se manter preso, mesmo que a fuga seja controlada.

A grande dúvida sobre como se comportaria essa obra, que propõe uma precoce releitura do “Depois do Casamento (2006)” dirigido por Susanne Bier, fica por conta da dupla mudança de olhar: sai o protagonismo feminino na cadeira de cineasta, mas amplia-se no roteiro. Dessa vez a dupla função é de Bart Freundlich, nova iorquino que ao longo de quase trinta anos de carreira escreveu materiais preciosos como “Novidades no Amor” (2009) e dirigiu tesouros como “Ninguém Segura Essas Crianças” (2004). Portanto, certa desconfiança acerca de seu trabalho é compreensível.

Por óbvio, inspiração estética não é o forte de “Depois do Casamento (2019)”. Apelando desde o início para a força das atuações, retoma as questões problemáticas do longa-metragem original, porém, lapida suas abordagens de maneira que os conflitos sejam mais incisivos. A história tem início com Isabel (Michelle Williams) recebendo uma proposta de alta doação para sua missão humanitária na Índia. Para isso, ela deverá ir a Nova Iorque conversar pessoalmente com Theresa (Julianne Moore), que condicionou a liberação do dinheiro esse encontro.

Isabel como expoente da salvadora branca, a partir de seu olhar ocidental, é tão incômodo nessa releitura como havia sido antes. Contudo, o texto de Freundlich não se omite em expor essa maneira de ser entendida a situação. É sabido que Bier é uma diretora de intenções, de demonstração de reações, mas sempre sofreu com a maneira um pouco negligente com a qual seu parceiro nos roteiros, Andres Thomas Jensen, desenvolve seus personagens. É comum a ala feminina da crítica cinematográfica não receber com tanto entusiasmo as produções da dinamarquesa justamente por haver em suas obras os mesmos equívocos de representação comumente encontrados em filme dirigidos por homens.

Já em “Depois do Casamento (2019)” a construção dos personagens é melhor cimentada. Um exemplo é quando Theresa demonstra aparente interesse em sua imagem em detrimento da real preocupação pelo povo da Índia. Quando isso é percebido por Isabel, ela é imediatamente confrontada, sendo criticada por essa visão de filantropia como estratégia de marketing. Outro ponto interessante é trazer o estranhamento de Isabel quando, após anos morando em uma área pobre da Índia, chega em um pomposo casamento nova iorquino. Um choque reverso que Michelle Williams consegue não apenas transparecer, mas manter ao longo de todo o filme. Essa forma coerente com a qual ela se comportará nos momentos posteriores, aliando de onde ela veio com o reencontro com traumas do passado, é um trabalho tão silencioso quanto precioso.

Quando Oscar (Billy Crudup) entra em cena, todos os sinais de que há em seu casamento com Theresa uma felicidade forçada é entregue ao espectador. Não estamos diante de um exemplo de obra complexa do cinema europeu em que a adaptação norte-americana didatiza. Nesse caso, há apenas uma ampliação na abordagem. Não se trata somente de mérito do roteiro e sim resultado do período de mais de uma década em que o filme original foi lançado, analisado e criticado a partir desses pontos. Uma vantagem que o produto de origem não conseguiu ter.

A montagem de Joseph Krings, o mesmo de “Capitão Fantástico” (2016), não deixa de aproximar o processo de descobrimento dos personagens em um thriller, já que o uso de trilha e a maneira como as reviravoltas se dão tendem a essa impressão. Ele apenas usa a cartilha tradicional do cinema norte-americano. Optou-se por trazer essa dinâmica para o filme, mesmo que os elementos já citados passeiem por ali. Esse miolo do longa-metragem, que vai ali do meio do primeiro ato até o início do segundo, desperta uma atenção do espectador que a fase seguinte, mais melodramática, não conseguiria se fosse imposta desde o início.

Porém, o trio de protagonistas brilha de vez quando as verdades tidas como absolutas de seus personagens são confrontadas. Mesmo não sendo tão bem filmado quanto o original, “Depois do Casamento (2019)” triunfa nessa inversão de papéis. Ao mostrar uma mãe que quer fugir da maternidade, emerge um debate sobre nossas relações e julgamentos a partir do gênero. Toda a culpa de Isabel e as motivações de Theresa se transformam em um bom exercício para o julgamento do público, desacostumado ao desafio de compreender as motivações de um mulher que não quis perder sua autonomia. Nesse aspecto, se o roteiro de Jensen se mostra medíocre dentro de uma obra bem realizada, o de Freundlich surpreende, mesmo que inserido em um produto entregue sob uma encomenda pouco desafiadora.

 

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