Depois da Primavera

Adaptações químicas

Por Fabricio Duque

Durante a Première Brasil 2020

Em tempos de guerra e protestos contra governos, a melhor arma dos realizadores audiovisuais é mesmo a câmera, especialmente em documentários, que, pela forma mais direta, necessária e urgente, consegue transpassar melhor a mensagem. “Depois da Primavera” é uma dessas traduções, manifestando-se pela fabulação do real, só que mais encenada, quase soando como ficção. Para construir uma crítica social do caos atual e do processo das “transformações a seguir” do Brasil, os diretores Isabel Joffily e Pedro Rossi criam o paralelo com a história de dois irmãos vindos da Síria e os “bombardeios que deixam a cidade mais quente”. A ligação entre os dois países gera uma conflituoso questionamento cúmplice. Porque os protagonistas de Aleppo não entendem os conceitos” de “direita, esquerda e oposição” (curioso isso, porque a língua árabe escreve ao contrário da nossa – da direita para a esquerda) e nós, por outro lado, não temos informações suficientes para compreender o motivo de suas guerras, que de tão óbvio, soa complexo demais.

“Depois da Primavera”, integrante a seleção da Première Brasil 2020, é também uma analogia temporal, que atualiza com o futuro e toque tupiniquim a Primavera Árabe (de “preferir a morte à humilhação”), uma série de revoltas populares em prol da liberdade, democracia e de conseguir “organizar as ideias para escrever”, que eclodiram em mais de 10 países no Oriente Médio, cujo período trouxe transformações históricas que mudaram os rumos da política mundial. O tema do agora aborda o processo de aculturação de dois jovens sírios no Brasil e trata dos efeitos do choque cultural nas relações familiares. Na Primavera daqui, o narrativa desenha-se pelo tom sensorial de uma estética de pertencimento, entre memórias afetivas narradas, imagens de uma Síria em ruínas, jogo de guerra no computador, mensagens de vídeo com a família e barraca montada no alojamento da faculdade.

Isabel Joffily e Pedro Rossi optam como artifício interferências diretas, de perguntas já constituídas do imaginário popular (“Você ainda sonha com a Síria?, por exemplo). Dessa forma, a impressão que o espectador tem é a de estar assistindo uma obra roteirizada, conduzida para que a obra cumpra o objetivo, fazendo com que esses personagens pareçam mais atores interpretando papéis já pré-definidos e com discursos escolhidos. Com o discurso da Dilma, a manifestação de “Ele Não” e de luta por Marielle, o argumento da função governamental, “Depois da Primavera” tende a um lado político, o que não tem nada de errado, mas a forma consequência da artificialidade e desconcertado improviso (de não errar o texto), sim. Ao encenar a intimidade com o sentimental, inclusive com câmera subjetiva, a fim de criar empatia e identificação no público, e forçar o discurso (em especial o dos pais sobre “milícias e grupos armados em nome da religião – como paralelo ao Brasil, sobre qual a “raiz do problema” e “qual o interesse que está por trás”), o filme soa ingênuo. Muito preocupado com a embalagem e limitando o conteúdo (este que se apresenta autossuficiente, como os jovens sírios, “vozes assombradas deles mesmos”, “tratados como reizinhos” (principalmente pela narração em árabe que norteia todo o documentário) e que cantam que a “vida é bonita e uma música”, em seus cotidianos: namorar, fazer tatuagem, morar em outro lugar, ir à praia, receber os pais no aeroporto, comprar comida, festas com amigos, viagens para visitar a irmã fora do “sufocamento do Rio de Janeiro”).

“Depois da Primavera” também é um filme de troca. Os diretores ajudam com favores. E eles retribuem com a exposição de suas vidas, que foram “encontradas” por Isabel Joffily e Pedro Rossi, casal de sócios na Coevos Filmes, quando decidiram conhecer o senhor sírio que vendia salgados árabes perto do local onde moravam. e depois, em 2014, o jovem sírio Adel Bakkour, estudando química na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), com uma bolsa de estudos de 800 reais, e o irmão mais novo, Hadi Bakkour. Mas nem tudo está tão explicado no filme, é preciso então um conhecimento dessas existências tão ricas e tão invisíveis da História. O que vemos são fragmentos, biográficos pontos estruturais do agora.

“Moramos no Leme, no Rio de Janeiro, e há dois anos e meio, na esquina da nossa rua, um senhor sírio chamado Mohssen começou a vender salgados árabes”, conta Isabel ao Itaú Cultural. “Eu e o Pedro passamos a comprá-los e a desenvolver uma relação com esse senhor. Volta e meia perguntávamos a ele o que estava acontecendo na Síria e ficamos com vontade de fazer uma entrevista filmada para entender melhor a situação naquele país, mas do ponto de vista de um local. Só que, como ele não falava português muito bem, tivemos de chamar um tradutor para nos ajudar.” Pedro explica: “O Adel foi fazer a tradução da conversa com o senhor Mohssen, mas acabou virando personagem do filme. Nós achamos a vida dele muito interessante para contar a história dos refugiados sírios no Brasil.”

Trailer

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