Ficha Técnica

Direção: Miguel Littin
Roteiro: Sergio Bitar, Miguel Littin
Elenco: Benjamín Vicuña, Sergio Allard, Cristián de la Fuente, Luis Dubó, Sergio Hernández, Pablo Krögh, Matías Vega
Fotografia: Miguel Ioann Littin Menz
Música: Christopher Meza Juan
Direção de arte: Carlos Garrido
Figurino: Torres Marisol
Edição: Yaconi Andrea
Produção: Cristián de la Fuente, Miguel Littin
Distribuidora: Imagem Filmes
Estúdio: Azul Films, Efetres, VPC Cinema Video
Duração: 118 minutos
País: Chile, Brasil
Ano: 2009
COTAÇÃO: REGULAR
A opinião
No cinema, a liberdade poética é permitida, por causa dos eufemismos, metáforas e ou parábolas a fim de transpassar a história de maneira mais agradável e palatável aos olhos e compreensão dos espectadores. Assim, quem assiste a um filme aceita o argumento principal, mesmo com adaptações e fantasias históricas. Ao retratar um acontecimento, por exemplo, o pano de fundo pode ser a política, suavizada por tramas paralelas, amorosas e existenciais. Não se busca a verdade absoluta, visto que, uma das características do cinema é a fantasia – e a possibilidade de personificar o incrível. Em “Dawson Ilha 10”, o longa-metragem épico do diretor chileno (e fotografo de “Minha Vida com Carlos”) Miguel Littin, a trama acontece em 1973. O general Pinochet lidera o golpe de estado que depõe o governo democrático de Salvador Allende no Chile. Os ministros e autoridades depostas tornam-se presos políticos dos militares. São conduzidos a ilha Dawson, extremo sul do país, no estreito de Magalhães, distante 2 mil quilômetros de Santiago, utilizada como campo de concentração da ditadura chilena. Lá os presos políticos são submetidos a violentos interrogatórios, trabalhos forçados, constantes torturas físicas e psicológicas, representando um momento histórico que se propagou por toda América do Sul. Partindo dessa premissa, há a necessidade, então, de construção de uma atmosfera de prisões e torturas, podendo-se optar pelo realismo, pela teatralização e ou por um pouco dos dois anteriores. “Dawson Ilha 10”, baseado no livro “Isla 10”, de Sergio Bitar, escolhe a última categoria.
Ao mesclar dois elementos tão antagônicos, a linha diretiva confunde tanto o espectador, quanto os próprios atores, estes permanecem no esgotamento interpretativo, tentando decifrar o tom e ritmo que devem imprimir, ficando explicito ao espectador porque algumas cenas prezam o efeito e o clichê, como o medo melodramático do inicio; e as roupas que não se sujam, e quando se sujam, há sempre uma novinha, pronta para ser usada (além de ser modernamente dentro de um estilo descolado, incluindo uma parecida calça skinny). Como disse, o cinema tem total liberdade de adaptação e criação de qualquer gênero, mas o que conta no final é a forma que a transposição à tela foi contada. A parte técnica é um grato presente. A fotografia, ora preto-e-branco, ora em cores, recria a atmosfera apresentada, fielmente. Quanto ao quesito da interpretação, há afetação e o desejo de percepção de que é mais ficção – e teatro – do que a realidade propriamente dita, acompanhada por uma trilha sonora que tenta manipular a emoção do espectador. Curiosamente, o filme conta, no elenco, com os atores baianos Bertrand Duarte (de “Superoutro” e “O Homem Que Não Dormia”, de Edgard Navarro, vive o arquiteto Miguel Lawner) e Caco Monteiro (de “Eu me lembro” e “For all – O Trampolim da Vitória”), que começou a ser pensada em 2006, quando o diretor, em Salvador, conversou com o cineasta Walter Lima, idealizador do Seminário Internacional de Cinema, sobre o projeto de filmar o livro de Sergio Bitar, ministro de Minería.
O longa-metragem, coprodução brasileira (com a produtora baiana VPC Cinema Vídeo), foca a atenção no prisioneiro 10, do local Ilha, vivido pelo ator chileno Benjamin Vicuña (de “Drama” e de “À Moda da Casa”). A opção pelo não realismo é válida e apoiada, mas a maneira que trabalha é amadora, atingindo o nível da preguiça, e acima de tudo buscando a lágrima gratuita de quem assiste e distanciando do objetivo de Miguel Littín, que disse “Tomei como base esse diário e fiz uma pesquisa profunda com as pessoas que viveram essa experiência. Baseia-se nas coisas que aconteciam todos os dias: o frio, a chuva, a solidão, a comida, o humor, buscando uma linha muito delicada, com a memória sobre Allende. Porque Allende está sempre presente em todos. É um governo inteiro que foi transferido para um campo de concentração. A memória de Allende está sempre presente. É uma linha muito sutil: Allende, Allende, Allende… Incorporei essa linha dramática”. Concluindo, pode ser visto como político sem explorar a política a fundo; e pode ser observado e definido como uma grande novela que busca a atenção do não questionamento, afastando elucubrações do espectador. O filme integra a primeira parte da trilogia sobre Allende. Foi o representante do Chile ao Oscar 2010 de melhor filme estrangeiro; e indicado ao Goya 2010 de Melhor Filme Estrangeiro em Língua Espanhola. Lançado nos cinemas chilenos em 11 de setembro de 2009, data do 36º aniversário do golpe militar que depôs o presidente Salvador Allende. Com orçamento estimado de US$ 2 milhões.
O Diretor
Nascido em Palmilla, Colchagua, Chile, Miguel Littín tem graduação em Arte Dramática pela Universidade do Chile. Aos 25 anos, ele filma seu primeiro longa-metragem El Chacal de Nahueltoro, que se torna rapidamente um filme de grande sucesso na América Latina, sendo hoje considerado como um clássico em escala internacional. Littín foi contemplado com muitos prêmios e distinções. Recebeu a condecoração de Chevalier des art et des letter do governo francês e em 2002, o governo do México honrou o diretor com a mais importante condecoração oficial, La Orden Águila Azteca.Miguel Littín foi indicado duas vezes ao Oscar na categoria de Melhor Filme Estrangeiro com Actas de Marusia e Alsino El Condor. Além de sua ligação com o cinema, Littín é também romancista. Escreveu e publicou dois romances: El Viajero de las 4 estaciones (Mondadori) e El Bandido de Ojos Transparentes (Seix Barral). O escritor Gabriel García Márquez, prêmio Nobel de Literatura, chegou a dedicar um livro inteiro para um dos projetos cinematográficos de Miguel Littín: A aventura de Miguel Littín Clandestino no Chile. O diretor foi ao Chile clandestinamente em plena ditadura militar e filmou Acta General de Chile (1988). Para essa empreitada, Littín teve que trabalhar disfarçado e com o apoio da resistência internacional, renunciando à sua própria personalidade e identidade chilena por um ideal coletivo: lutar contra a ditadura.

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