Dafne

Um filme do nada

Por Fabricio Duque

O mundo de hoje está tanto entre dedos que uma crítica sobre o filme “Dafne” torna-se completamente complexa de se produzir, praticamente uma sinuca de bico, porque será preciso adentrar à seara da interpretação, que aqui é protagonizada por uma jovem com Síndrome de Down. Se enveredarmos pelo caminho da representatividade em tela, então concordaremos com o convite da cumplicidade afetiva.

Mas se formos técnicos e exigentes, enxergamos em “Dafne” um projeto ainda em construção. De amadorismo ingênuo, que desperta o questionamento do limite entre cinema social e cinema de arte. Se em “Colegas”, de Marcelo Galvão, o tom é direcionado à comédia e ao lúdico, aqui, o drama existencialista, enquanto indivíduo social, estrutura-se no melodrama.

“Dafne” é acima de tudo um estudo comportamental, que analisa o que pessoas com Síndrome de Down podem ou não fazer, se são capazes ou limites. O filme não suaviza, mas mantém gatilhos comuns, como o pai em uma conversa que diz que teve medo do estigma de pensar na filha como “retardada”. O objetiva é ampliar paradigmas e mitigar preconceitos. Ainda que nossa personagem principal Dafne (a atriz Carolina Raspanti) seja conduzida pela fantasia de novas personagens, como do “período Renascentista”. Quem quer ser?, pergunta.

Dirigido pelo italiano Federico Bondi (do documentário “Educação Afetiva”), o longa-metragem quer criar intimidade caseira com sua câmera próxima e contemplativa (com agilidade editada que finge naturalidade), quase mosca. Seu roteiro, apressado demais, facilita a própria trama ao incluir gatilhos comuns (e tragédias-reviravoltas súbitas e do nada – ir à lavanderia e não voltar), já padronizados, como os olhares julgadores dos outros. É tudo sofre Dafne. Sobre ter seu “próprio cartão”e tomar suas próprias decisões. É um resgate de uma vida. De provar que está apta a vier e não é socialmente incapaz.

“Dafne” potencializa o drama, mais teatralizado e fora de tom. Como o luto que a deixa ora histérica e “enlouquecida”, ora vivendo um silêncio sensorial. Cada um vive sua perda de uma forma. Se nem Freud conseguiu padronizar emoções, imagine meros mortais errantes. É o “after life” (com possibilidades de caracterizar uma típica adolescente: implicante e mimada versus educada e prestativa – sempre precisa ser útil e ajudar). Um tempo de processo. O que destoa é mesmo a percepção de que tudo ainda está no ensaio improvisado.

Nós passeamos pelo cotidiano dessa família: Dafne e seu pai. A narrativa encontra semelhanças com a cinematografia dos Irmãos Dardenne, Luc e Jean-Pierre. Nossa protagonista vive um turbilhão de mudanças: sua “paixonite” e sua filosofia do “porto de vem e vai”. O filme escolhe abraçar o mundo com condescendência e olhar solidário. Será ingênuo porque nós perdemos nossa inocência? E o mundo está mais rebelde, debochado e “estiloso na moda”? “Lavou a roupa para doar? Não é normal”, diz-se com música e dança.

“As pequenas coisas são as mais importantes e estão dentro de você”, ensina e nos insere à auto-ajuda da redenção, da libertação e da simplicidade. O roteiro continua com suas pontas soltas e súbitas (uma trilha aparece no meio do caminho), sermão no pai, discussões impostas. É um filme que acontece do nada.

 

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