O pêndulo nosso de cada dia

Por Fabricio Duque

Cada vez os seres humanos enquanto indivíduos sociais têm a certeza absoluta de que o mundo é cíclico, reiterado pelo filósofo Schopenhauer, que teoriza que a vida oscila como um pêndulo. É o ciclo do vai e vem. Da moda passada da pochete (considerada ultrapassada) que retorna como uma utilidade funcional nos dias de hoje. Se é assim no quesito comportamental, então imagina na cultura, um espelho automático de nossas vivências. Uma época desenha-se pela quantidade de características típicas experimentadas, sobreviventes no meio em que encontra, mitigada da expansão de possibilidades. Quando alguém diz que determinada obra é atual, independente de seu tempo passado, também quer afirmar a ideia acima e ainda desenvolver que a sociedade logicamente somos nós, pessoas que padronizam quereres condicionados a fim de preservar suas zonas de conforto. E o simples ato de pensar diferente e fora de caixa é sim uma criminosa transgressão à ordem, moral e bons costumes. Tudo porque há no humano uma inveja incrustada ao pensar: se eu não posso ter (e ou não tenho coragem), serei contra aquele que pode e tem.

“O Censor” é uma experiência teatral. Uma universal e atemporal fábula político-social, até porque o mundo é feito de pessoas que precisam lidar com as idiossincrasias, vontades, limites, desejos, medos, culpas, inverdades, projeções, decisões, urgências, incompatibilidades, timidez, defesas e egoísmos dos outros em processo de individualidades. O texto, escrito dramaturgo inglês-escocês Anthony Neilson, associado ao “teatro da face”, é muito mais sobre o tema que propôs. A censura, uma limitação física legal, reverbera as entranhas de seres patologicamente doentes, que se escondem dentro de uma altiva atitude para mascarar orgânicos fisiologismos. Sim, é uma imersão analítica cognitiva da psique humana. E, outro sim, não poderia ser mais acertado a tradução carioca pela trupe família da Cavideo, encabeçado pela “santíssima trindade” na direção, produção e criação geral: Alexandre Varella (responsável pela tradução e ator), Cavi Borges (produção) e Patrícia Niedermeier (a atriz “rebelde”), que junto com Emilze Junqueira (esposa de Varella), conseguem dar vida, alma, sangue e marcas à peça. E tudo lapidado com a iluminação impecável de Luiz Paulo Nenen.

“O Censor” representa um trabalho de equipe, assim como toda obra que está sendo realizada no Brasil. O que se precisa então? Criatividade e potência, definidores desta peça-filme. Encenada em um cinema de poucos lugares (que potencializa nossa relação com o que vemos), com imagens de filmes censurados e ou modernos que quebram regras visuais, aqui é uma experiência que transcende a sétima arte e o próprio teatro, criando subterfúgios visuais a fim de representações. É uma ficção mais que possível por meio da ilusão lúdica da sala escura. Seus atores não só conduzem seus papéis, como esquecem que existe algo fora, e se transformam em suas personagens em um caminho tão radical, libertário e revolucionário. É uma peça-filme para descobrir o que há além do olhar. É a democracia das palavras, dos gestos, das expressões. De convencimento e astúcia. Vence quem possui maior poder de persuasão. É a própria vida. Sobre uma diretora de cinema (vanguardista com a utilização do sexo explícito) convida o censor para discutir a decisão.

“O Censor” é principalmente visual. E suas referências, a filmes dirigidos por mulheres, estão na tela de Agnès Varda e Chantal Akerman, passando por “Selvagem”, de Camille Vidal-Naquet, e “Touch Me Not”, da romena Adina Pintilie, mas principalmente por dois deles, ainda que dirigidos por homens, representam cirurgicamente o tema da contra-cultura: “Fahrenheit 451”, do francês François Truffaut, baseado no livro de Ray Bradbury, e “Laranja Mecânica”, de Stanley Kubrick, escrito por Anthony Burgess. E a pergunta fica: o que faz com que indivíduos sociais esqueçam de suas humanidades para seguir uma massificada padronização de impedimento do pensar e do agir? A peça-filme está em cartaz até 18 de maio no Estação Net Botafogo, no Rio de Janeiro. Imperdível!


 

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    Que beleza de olhar!!! texto belissimo que desdobra as camadas da obra brilhantemente!!! Obrigada. OBRIGADA. A arte vale nesses momentos!!! tocar transformar afetar atravessar encontrar perder…. Obrigada Fabricio Duque. Obrigada Vertentes do Cinema!!!

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