Crítica: Vidas Duplas

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Infantilidade adulta

Por Fabricio Duque


Exibido na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo 2018, o novo filme do cineasta francês Olivier Assayas (de “Carlos”, “Personal Shopper”, “Depois de Maio”), “Vidas Duplas” é acima de tudo uma análise crítica comportamental sobre as incompatibilidades existenciais e digitais da geração X, os que nasceram pós “Baby boom” (década de vinte à quarenta), e que precisa lidar com as novidades da geração Y e principalmente a urgência da Z, esta ligada intimamente à expansão exponencial da internet e dos aparelhos tecnológicos.

O longa-metragem corrobora a característica de seu diretor, que é a criação proposital de uma altivez blasé, conduzindo um distanciamento atmosférico de intimidade teatral e de espontaneidade encenada. Há um que afrancesado da estrutura narrativa de Terrence Malick. Mescla-se o moderno e o barroco. O intelectual e o popular. E a polêmica acalorada e virulenta da internet. Um embate sobre o físico e o digital. É sobre um editor (o ator Guillaume Canet) e um autor (o ator Vincent Macaigne) que enfrentam ao mesmo tempo a crise da meia idade, a revolução digital que abala o mercado editorial e imprevistas dificuldades em seus respectivos relacionamentos amorosos.

“Vidas Duplas” é típico filme francês, por causa de seus diálogos verborrágicos ininterruptos em uma profusão de ideias e teorias durante jantares regados a muita bebida e comida. Há apenas o silêncio do acordar, que dura pouco e não respira, recobrando mais diálogos e mais questões egotrip. “Por que não fazer tudo digitalmente?”, alguém provoca sobre “coisas humanas” e “boas críticas para séries”. Cada um tenta se adaptar com o novo para se resignar e descobrir a resiliência.

É um filme que já se inicia na ação, urgente, apressado e afobado sobre o futuro do mundo de trabalhar a quantidade de tecnologias. Esta geração abordada é composta de intelectuais, que se comportam assim todo o tempo. Sem desligar e relaxar a mente. Que ganham discussões pelo cansaço. Com seus celulares e tablets carregando, entre “profeta da desgraça” e o “desejo que não faz tudo”, o que assistimos é uma superficial, frágil e condicionada sucessão de estereótipos e quebras bruscas da trama, pululada de traições, suposições, textos sugeridos e reflexões de que tem “mais gente lendo blogs que livros” e ou críticas de “Velosos e Furiosos”, da franquia de Rob Cohen. E ou ebooks “manipuláveis”.

“Vidas Duplas” é sobre o “caos”, que é o “contrário da autoralidade”. Rebusca-se o discurso de “mercadorias mais desejáveis”, de análises filosóficas dos livros e debates de quem lê mais ou melhor, com as piadas sem raça que “sempre existiram na sociedade materialista”. Mas também o longa-metragem é ágil em captar o cotidiano. Da casa ao bar. Há uma pretensão ingênua em repetir clichês dos franceses. E de comparar novas com antigas gerações. É sobre a “democratização do acesso à cultura e dos livres”. É um colóquio de utopias em xeque, como por exemplo, os “romances baratos de Nora Roberts”. Sobre a velocidade e rapidez do mundo moderno.

O longa-metragem discute sobre tudo. Da nostalgia de “Luz de Inverno”, de Ingmar Bergman a cantora Taylor Swift. De “Fedra: o inicio do fim” a “Star Wars – Guerra nas Estrelas”, passando por questões “insidiosas e sorrateiras” e por “o digital pode renovar”, busca-se retirar personagens de suas zonas de conforto, de expandir pre-concepções, idiossincrasias e trivialidades, de mascarar lúcidas diplomacias, escondidas na mais primitiva infantilidade. Aos poucos, tudo se torna padronizado demais com seus assuntos que vêm à tona bruscamente. A surpresa e novidade passa ao espectador, e assim fica comum e ordinário. Como o som alto e histérico de uma televisão. “A Fita Branca, de Michael Haneke, é um bom filme, mas tem pontas soltas”.

“Vidas Duplas” é um estudo. Da informação que não existe mais. De que cada um lê o que quer e tira suas próximas conclusões. Mas eles ranzinzas amam “mesmo discordando sempre”. Cansam e se desgatam com suas reações intolerantes (“enchem de gelo e não sobra suco”), passivas-agressivas e diretas. “O que importa é a intenção”, diz-se, entre fades temporais e picardias com a atriz Juliette Binoche.

O diretor quer abordar todas as possibilidades da humanidade e se perde no caminho, esquecendo que “precisa da subjetividade de um intermediário de antecipar os gostos e os hábitos de consumo”. “Sempre haverá blogs de opinião, ponto final, título ousado”. Encena-se uma mordaz naturalidade, meio amador e tecnicamente caseiro, formulada. “Vidas Duplas” é uma experiência de tentar acreditar no implícito e de tendências favoráveis aprisionadas no conforto do passado.

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