Crítica + Vídeo: Vergel

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O tempo único do movimento de cada um

Por Fabricio Duque


Dirigido, escrito e produzido, além de cuidar da jardinagem e de interpretar a voz da dona do apartamento, pela estreante em um longa-metragem de ficção, Kris Niklison (do documentário “Diletante”), uma argentina que trabalhou com Peter Greenaway, Dario Fo e The National Ballet Academy e que imprimiu no show Cirque du Soleil teatro físico, dança e projeção de vídeo (e atualmente desenvolve projetos entre Buenos Aires e São Paulo), “Vergel”, uma parceria Incaa e Ancine. é acima de tudo sobre o tempo. Sobre o ritmo de cada um para voltar ao movimento após uma tragédia vivenciada.

Sobre sentir o luto em sua profundidade máxima. Tudo transpassado em uma narrativa de existência etérea de sensorial fluidez psicológica. É uma experiência visual que utiliza a forma da realidade para criar uma ilusória epifania, por posicionar sua câmera em ângulos não convencionais e por naturalizar a intimidade de uma mulher que sofre a morte de seu marido.

“Vergel”, na definição do dicionário, é um terreno plantado de árvores frutíferas. Um pomar. Aqui, sua utilização como cenário quer nos mostrar a metáfora da vida. Um refúgio de reconstrução o interno ao externo. Nós somos convidados a adentrar uma crônica inter-geográfica. Da protagonista que é mergulhada e aprisionada na vulnerabilidade de um acaso que no final das contas ajuda consistentemente em seu processo de aceitação. De se acostumar com o novo e as consequências da nova fase. De entender que na verdade a engessada burocracia funeral é um “presente”.

É a pausa do tempo. Um silêncio garantido. Uma solitária terapia cognitiva. Em que memórias, descobertas e realidades acontecem por fragmentos estimulados e por bipolares emoções. Os sentimentos conduzem a personagem principal por novos caminhos, lugares que a mesma não briga. A condição é aceita. A máxima popular nos ensina que, para superarmos uma dificuldade, precisamos senti-la incondicionalmente. Até o fim. Até o inferno.

Em pleno verão, uma mulher brasileira (a atriz Camila Morgado, de “Olga”, “O Animal Cordial”, “Até que a Sorte nos Separe”) espera o corpo do seu marido (o ator André Caldas, que aqui também vive o vizinha pianista) que foi morto durante as férias do casal na Argentina. A burocracia é tanta e a espera tão longa que ela começa a perder a noção do tempo e o senso de realidade. O apartamento onde ela está hospedada é cheio de plantas mas ela sequer consegue cuidar delas. Até que uma vizinha (a atriz argentina Maricel Álvarez) se oferece para ajudar a regar e a mulher encontra nessa desconhecida alguém com quem compartilhar sua dor.

Se “Vergel” constrói um controle absoluto da técnica cinematográfica, inclusive pela música do paranaense Arrigo Barnabé, em contra-partida desperta fragilidades na condensação de sua trama, principalmente pelo quesito interpretação. Não que sejam ruins, pelo contrário. O que incomoda é seu equilíbrio. Sua conexão. Silêncios, por exemplo, são bruscamente quebrados com histeria. Sutilezas são atravessadas pela pressa de se finalizar a história. Um campo avança no outro sem manter o próprio tempo já imersivo e já desenhado ao público.

São quase dois mundos, dois universos, duas cargas dramáticas encenadas. Uma com suavidade, a outra com a urgência de um capítulo de uma novela de televisão. São incompatíveis. Se uma consegue nos aproximar completamente do transe do luto, que investe palpáveis peças das lembranças vividas, como a máscara de mergulho, o cigarro, o caracol, as imagens de uma câmera digital; a outra nos afasta, por causa da bruta e agressiva ações, como a ligação da mãe e ou o desconhecido da “tequila”.

“Vergel” é um filme autoral em um apurado trabalho técnico, e mesmo que todo seu desenvolvimento ocorra em um único lugar, o espectador pode sentir a presença do cotidiano. Da vida ao redor. Da rotina de um senhor que lava roupas, meninas que tomam sol, crianças que brincam. Tudo é “brinde”. Artifício do retorno à normalidade. Nossa protagonista está na dimensão paralela de “Matrix”, cuja percepção é potencializada por detalhes e micro-análises. É um limbo ente o ser e o não ser. De não pertencimento ao próprio corpo. Tudo é possível e passível de ser experimentado. É a perda momentânea da razão com capacidade máxima da consciência. Sim, nós entendemos e sentimos. Mas o filme nos diz que isto necessita ser anti-naturalizado. Distante e que a forma imagética é mais importante. Como uma desmedida completude cósmica.


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